Medo da Covid-19 afasta pacientes de hospitais e agrava quadro de outras doenças

Sociedades de especialidades alertam para a importância do controle de doenças crônicas e diagnósticos de saúde em dia

O temor pelo risco de contaminação pelo coronavírus em ambiente hospitalar tem diminuído a busca por atendimento médico de pessoas com outros problemas de saúde. Desde 20 de março, com a chegada da pandemia no estado, os hospitais especializados do Paraná registraram queda de 50% no atendimento. São pacientes que deixaram de fazer seus acompanhamentos periódicos de doenças cardíacas, oncológicas e neurológicas, entre outras, ou que resistem em procurar um hospital mesmo em um vento agudo, como queda, acidente, forte dor no peito, ou derrame.

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Por conta da pandemia do coronavírus, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) projeta que 50 mil casos da doença deixarão de ser diagnosticados neste ano, o que poderá gerar um surto da doença em 2021, com o agravante de muitos casos terem diagnóstico tardio, o que reduz significativamente a chance de sucesso do tratamento. “O câncer não é menos importante que a Covid-19. Provavelmente teremos um surto, no próximo ano, de pessoas com câncer. As pessoas diagnosticadas com a doença não podem abandonar o tratamento. E quem tem histórico na família ou sintomas precisa fazer exames, procurar o hospital ou o seu médico”, avisa o oncologista Evanius Garcia Wiermann.

Campanha “Saúde Não tem Hora”

Diante deste quadro de queda significativa nos atendimentos a Sociedade Brasileira de Cardiologia e a Sociedade Brasileira de Diabetes, com apoio da Associação Brasileira de Medicina de Emergência, Rede Brasil AVC, Associação de Diabetes Juvenil e da Boehringer Ingelheim lançaram a campanha “Saúde Não tem Hora” para alertar a importância de manter sob controle seus quadros de saúde, com as visitas necessárias ao médico, mesmo durante o período de isolamento, ou com a utilização da telemedicina, quando indicado, lembrando que além dos riscos que já representam naturalmente, problemas cardíacos e diabetes estão associados ao agravamento de casos dos pacientes com Covid-19.

No Hospital Cardiológico Costantini, o volume de atendimentos para consultas e exames caiu pela metade durante a pandemia e a tendência, segundo o diretor do hospital, Costantino Costantini, seria o de aumento nos atendimentos, uma vez que em épocas de pandemia, fatores de risco, como estresse, sedentarismo e obesidade aumentam e é preciso ter uma atenção especial com o coração. “É importante ressaltar que se a pessoa estiver com algum sintoma de infarto, como dores no peito que podem irradiar pelo braço e região do estômago, suor excessivo, tontura, falta de ar, indisposição gástrica, braço amortecido, dores nas costas ou na mandíbula, por exemplo, é necessário que ela procure atendimento médico imediatamente”, explica o médico cardiologista.

Doenças e complicações

A cardiologista intervencionista Viviana Guzzo Lemke conta que não está sendo incomum os pacientes chegarem ao hospital já com complicações do infarto, por terem demorado a procurar o atendimento médico. Foi o caso de um paciente que procurou o hospital dois dias depois de sentir dores no peito. Ele já estava infartado e com insuficiência cardíaca. “É importante que o paciente saiba que o infarto não respeita quarentena”, diz a médica.

A neurologista Vanessa Rizelio, do Instituto de Neurologia e Cardiologia de Curitiba (INC) também alerta que mortes por acidente vascular cerebral (AVC) podem aumentar durante o período de isolamento social. “Temos observado a diminuição de chegada de pacientes com suspeita de AVC aos hospitais. E quando vão, chegam além do tempo para estabelecer um tratamento que melhora o quadro e evitar sequelas [até quatro horas do início dos sintomas]”.

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O diretor técnico do Hospital Marcelino Champagnat, Rogério de Fraga, lembra que todos os hospitais isolaram suas alas para o tratamento da Covid-19 e todo o quadro respiratório é direcionado para esse setor isolado, não havendo risco de contato com pacientes com coronavírus para as pessoas que forem ao hospital por outros motivos. “Temos um nível de cuidado máximo, bem como protocolos e utilização de EPIs [Equipamentos de Proteção Individual], a divisão de fluxos de paciente com Covid-19 e seus sintomas, separado de pacientes com outras doenças, além de uma ala preparada para o isolamento”, diz o médico, que relata ter atendido uma paciente de 70 anos que sofreu uma queda, fraturou a coluna e só foi levada ao hospital cinco dias após o acidente. “Ficou em casa, sem movimentos, o que gerou uma tromboembolia pulmonar, muito mais perigosa que a fratura”.

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