A conta que não fecha: a solidão em um mundo conectado

Mesmo com muitas possibilidades de interação, a solidão cresce e atinge uma em cada seis pessoas no planeta, revela a OMS. Como isso afeta indivíduos e sociedades?

Ilustração: shutterstock
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Há uma equação invisível que acompanha a humanidade: o Número de Dunbar, teoria segundo a qual somos capazes de manter vínculos significativos com, em média, 150 pessoas. Os estudos desenvolvidos pelo antropólogo britânico Robin Dunbar, nos anos 1990, seriam a matemática das relações, um limite natural da mente para dar conta de laços afetivos e sociais.

No entanto, se essa matemática sugere conexões possíveis, os números da realidade insistem em mostrar um descompasso. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada seis pessoas no mundo se sente solitária. É uma estatística que não cabe na conta, que revela lacunas entre a quantidade de contatos e a qualidade dos vínculos.

Na era em que as telas nos permitem atravessar continentes em segundos, paradoxalmente, cresce a sensação de isolamento. A solidão, mais que ausência de companhia, tem se mostrado uma ferida silenciosa com impactos profundos na saúde mental, física e no tecido social.

“o ser humano é um animal social e a solidão é a fome da alma. Nós estamos ficando doentes por falta desse alimento.”
Ana Flávia Machado

Socialização e desenvolvimento humano

Sonia Lunardon Vaz
Sonia Lunardon Vaz

Ao comentar sobre o papel da socialização no desenvolvimento humano, Sonia Regina Lunardon Vaz, psicóloga e analista junguiana, ressalta a trajetória de milhões de anos de evolução: “No decorrer da nossa história, viver em grupo representou, e ainda representa, segurança e maior facilidade para obtenção de recursos necessários para a existência. O trabalho em conjunto e a troca de conhecimento proporciona avanços científicos, culturais e sociais. Resumidamente, o contato com o outro é essencial para nosso desenvolvimento, bem como a sobrevivência de nossa espécie.”

Sonia explica que, junto a grupos, o corpo libera oxitocina e dopamina, o que diminui o estresse, a solidão e a depressão. Além disso, os relacionamentos auxiliam no desenvolvimento pessoal, estimulando aprendizados sobre empatia e habilidades sociais.

Isso não quer dizer, porém, que companhia seja item indispensável em 100% do tempo. Pelo contrário. Momentos de recolhimento, com os próprios pensamentos, também são importantes. “Na ‘solidão saudável’, o indivíduo encontra uma paz para se organizar internamente e até acessar sua própria criatividade”, afirma a psicóloga. Para essas situações de solitude, que se dão por escolha, ela recomenda a prática de meditação ou uma simples contemplação, reflexão sobre sonhos e pesadelos, e um tempo longe das distrações. “A conexão saudável com o outro requer que você mantenha conexão genuína e honesta consigo mesmo”, destaca.

Sinais de atenção

Ana Flávia Scaled
Ana Flávia Scaled

 

E como identificar a medida saudável da solidão? Entre os fatores que chamam a atenção para um quadro patológico, Ana Flávia Machado — psiquiatra e psicogeriatra que atende em Curitiba (PR) — elenca quatro aspectos principais: o tempo que a pessoa passa isolada, o sofrimento que é gerado devido a esse tempo, o impacto funcional e o surgimento de comportamentos de risco ou sintomas psiquiátricos. “Por exemplo, um indivíduo que gosta de passar tempo sozinho geralmente intercala atividades sociais e momentos para si. Uma pessoa solitária não tem esse equilíbrio e, muitas vezes, sente que não tem com quem passar tempo. Não é uma escolha para ela, ela sente como se não houvesse opção. Então, a pessoa solitária sofre por isso. É diferente da pessoa que gosta e sente prazer em ficar um tempo sozinha”, esclarece.

Em casos mais graves, segundo a médica, comportamentos associados (como uso de substâncias ou surgimento de sintomas depressivos ou ansiosos) são sinais de alarme que demandam intervenção imediata. Nos últimos anos, pesquisas têm evidenciado cada vez mais a solidão como um importante fator de risco para saúde mental e física. A psiquiatra Ana Flávia traz como exemplo um estudo publicado nos Estados Unidos, em 2025, que aponta que pessoas que se declaram como solitárias têm até cinco vezes mais chance de serem diagnosticadas com depressão, em comparação com pessoas que declaram que nunca se sentem solitárias. “Além disso, em média, relataram mais dias em que sentiam sua saúde física comprometida, especialmente entre os participantes mais idosos”, pontua.

O que causa a solidão?

Entre as principais causas do agravamento do quadro mundial de solidão, a OMS menciona: saúde precária, baixa renda e escolaridade; morar só e transições de vida (mudança de emprego/cidade, por exemplo); falta de políticas públicas eficazes e infraestrutura comunitária inadequada; uso excessivo de tecnologias digitais e interações on-line negativas.

A psicóloga Sonia Lunardon Vaz salienta que, embora facilitem o contato, as ferramentas tecnológicas e as redes sociais não estão produzindo encontros verdadeiros, reais e profundos. ”Os encontros virtuais não podem alcançar o núcleo afetivo do qual está imbuída a presença acolhedora e amorosa”, diz.

A partir de sua vivência na medicina e de pesquisas divulgadas internacionalmente, Ana Flávia Machado enfatiza como o modo de vida mudou drasticamente nas últimas décadas – o que ajuda a explicar o sentimento de solidão tão presente entre adolescentes e jovens adultos. Uma das características dessa mudança é o acesso facilitado às plataformas de entretenimento passivo, como os streamings e aplicativos. “Ao meu ver, parece que ao ter uma opção mais confortável e imediata de lazer, de fácil acesso individual, aos poucos fomos deixando de lado as atividades de prazer em grupo, que ajudam a criar laços e comunidade”, destaca a psiquiatra.

“A conexão saudável com o outro requer que você mantenha conexão genuína e honesta
consigo mesmo”
Sonia Regina Lunardon Vaz

No que se refere à população idosa, a psicogeriatra observa que há muitas crenças culturais que contribuem para os quadros de solidão. “A própria aposentadoria pode ser um fator inicial. Existe também a crença e a aceitação social, por parte das pessoas, que é aceitável que o idoso se limite a uma vida doméstica ou de ‘descanso’. Para a saúde, isso é catastrófico”, reflete Ana Flávia.

Essa afirmação é sustentada por diversos estudos longitudinais multicêntricos e metanálises que indicam que a solidão também é um fator de risco para demências. “Esses estudos apontam que a solidão está associada a pior desempenho global em múltiplos domínios cognitivos, incluindo memória episódica, atenção, fluência verbal, raciocínio numérico e habilidades visuoespaciais, além de acelerar o declínio cognitivo observado por informantes e testes objetivos, independentemente de fatores sociodemográficos e sintomas depressivos”, explica. Por outro lado, corrigir o fator de risco (o que, nesse caso, significa reduzir os índices de solidão) apresenta resultados positivos na diminuição da incidência de demência.

Autocuidado ou fuga?

Liliane Sant´anna
Liliane Sant´anna

Sem dúvida, o ritmo acelerado das grandes cidades e os desafios decorrentes das transformações no mercado de trabalho não podem ser desconsiderados nessa discussão. “A solidão tem aparecido como um tema de pano de fundo na maioria esmagadora dos contatos que tenho com alunos e clientes. Líderes se sentindo sozinhos e não compreendidos; pessoas distantes da família e amigos por não encontrarem mais espaços seguros para ser; colaboradores fingindo estar bem, quando estão profundamente machucados”, revela Liliane Sant’anna, sócia e treinadora do Instituto CNV Brasil, de Brasília (DF), que promove a comunicação não-violenta.

O cansaço e a falta de tempo são queixas legítimas para a dificuldade de se dedicar às relações com qualidade. Às vezes, o tempo só é um gesto de autocuidado, essencial para o descanso e para recarregar a bateria social para o dia seguinte. Porém, há mais uma camada que pode desequilibrar a balança do bem-estar social. Liliane nota que o isolamento pode ser uma estratégia para cuidar das necessidades de espaço pessoal e privacidade, mas também um caminho para as pessoas se afastarem das dificuldades das relações. Muitas vezes, até de maneira inconsciente. “Relações com altos níveis de toxicidade ou mesmo superficiais fazem muitos acreditarem que não vale a pena investir tempo em pessoas. Não aprendemos a nos relacionar de forma saudável e estamos colhendo os custos disso”, reflete.

Optar pela comodidade de lidar somente com sua própria presença pode evitar conflitos e desgastes de energia. Mas fazer isso de maneira recorrente vai reduzindo, pouco a pouco, as oportunidades de vivenciar os sentimentos de pertencimento, reconhecimento, cocriação, empatia e tantos outros. “É na falta da nutrição dessas necessidades, fundamentalmente humanas, que podemos acabar nos encontrando com o sentimento de solidão”, ressalta a especialista do Instituto CNV.

“Precisamos pensar no cuidado com as relações como pensamos no cuidado com o
corpo. Exige conhecimento, esforço e investimento diário. E o que colhemos
são resultados não só de curto, mas de longo prazo.”
Liliane Sant’anna

Para reforçar essa ideia, ela lembra do Harvard Study of Adult Development (Estudo de Desenvolvimento Adulto de Harvard), desenvolvido por mais de 70 anos. Uma das finalidades da pesquisa era identificar o que fazia com que pessoas se sentissem satisfeitas com a vida em seu leito de morte. E comprovou que o motivo mais relevante são as relações construídas, na frente de realização profissional, dinheiro ou acesso a destinos turísticos famosos.

A consultora também vê com preocupação a dualidade que envolve as interações digitais, que por um lado atendem a algumas necessidades (valorização por likes, pertencimento pelo uso de marcas, companhia por jogos on-line, divertimento pela rolagem do feed) e, por outro, intensificam um vazio silencioso. “Ainda que alguém encontre pertencimento por usar uma determinada marca de celular ou se vestir de uma determinada maneira, a saudade do pertencimento nutrido pelas relações, com inclusão e aceitação por ser quem se é, permanece”, comenta Liliane. Assim como as chamadas amizades de baixa manutenção ou relacionamentos casuais, que podem cumprir uma função, mas não dão conta de proporcionar os mesmos benefícios que apenas relações mais duradouras e profundas são capazes de oferecer.

Liliane Sant’anna está acostumada a facilitar conversas difíceis e necessárias em seu dia a dia. E a partir dessas experiências, defende que é preciso pensar no cuidado com as relações da mesma maneira que se pensa o cuidado com o corpo: “Exige conhecimento, esforço e investimento diário. E o que colhemos são resultados não só de curto, mas de longo prazo”.

Conexão como prática

Ainda no raciocínio sobre aspectos que contribuem para a construção de conexões reais, Liliane também fala sobre encarar os desconfortos, que nascem basicamente de dois pontos. O primeiro deles é a dificuldade de simplesmente escutar, sem tentar convencer o outro de seu próprio ponto de vista ou propor soluções não solicitadas. E o segundo é a capacidade de contar para a outra pessoa o que sente e precisa, sem ataques. Para isso, a especialista do Instituto CNV convida a repensar algumas frases que podem estar jogando mais lenha na fogueira dos momentos de discordância, numa espécie de jogo do certo e errado. Tais como: “você deveria isso”; “você faz sempre aquilo”; “eu não deveria…”; “ele(a) é x”. “A prática da conexão nos convida para estarmos juntos contra o problema (que pode ser desde a louça suja da pia até uma séria decisão sobre a saúde de um familiar). Passar por discordâncias e discussões a partir da conexão nos mostra sobre a outra pessoa, mostra a ela sobre nós, revela pontos cegos e amadurece e fortalece relações”, orienta.

Vamos falar de soluções?

Problema complexo exige abordagem em múltiplas frentes. No relatório publicado em 2025, a Comissão sobre Conexão Social da OMS propõe ações em cinco áreas: política, pesquisa, intervenções, medição e engajamento público. Também menciona a necessidade de fortalecimento da infraestrutura social (parques, bibliotecas, cafés, etc.), de intervenções psicológicas e políticas nacionais de apoio. Já no âmbito individual, o documento apresenta como sugestões: manter contato com amigos, estar presente em conversas, cumprimentar vizinhos, participar de grupos locais e voluntariado.

Ana Flávia Machado enfatiza que o único caminho para tratar a solidão é aprofundar e cultivar relações familiares e de amizade. Ela recomenda deixar de lado fontes de prazer individuais e apostar em atividades em grupo, com a possibilidade de formar novos amigos. Algumas ideias para atividades esportivas, que ao mesmo tempo reduzem a solidão e o sedentarismo, são: grupos de corrida, crossfit, grupos de dança ou esportes com raquete. Outra opção são os cursos presenciais de línguas e artesanato. “Dar atenção aos amigos e convidá-los para atividades divertidas presenciais também é fundamental. E sem restrição de idade. Esses conselhos valem desde crianças até idosos. O ser humano é um animal social e a solidão é a fome da alma. Nós estamos ficando doentes por falta desse alimento”, reflete a psiquiatra.

Na esfera que está ao alcance dos profissionais de saúde, Ana Flávia destaca que é preciso abordar o tema em consulta médica. “Pergunto aos meus pacientes sobre atividades de lazer e seus laços na comunidade, incentivando seu cultivo”, conta. Por fim, além das atividades fixas em grupo, a psicóloga Sonia também lembra das possibilidades de interação proporcionadas pelo turismo. Que tal uma viagem de férias com amigos de longa data? Ou, se não for possível, um convite para um café já está valendo.

Solidão no mundo 

1 em cada 6 pessoas no mundo é afetada pela solidão.
A solidão está associada a 100 mortes por hora (mais de 871 mil por ano)

Quem é mais solitário?

  • Jovens e pessoas que vivem em países de
    baixa e média renda são os mais afetados.
  • 24% em países de baixa renda X 11% em
    países de alta renda.
  • Entre os grupos mais vulneráveis, estão:
    pessoas com deficiência, refugiados,
    LGBTQIA+, indígenas e minorias étnicas.
  • 17% a 21% dos jovens (13 a 29 anos)
    relatam solidão. A taxa é mais alta entre
    os adolescentes.
  • Embora os dados sobre isolamento social
    sejam mais limitados, estima-se que 1 em
    cada 3 idosos e 1 em cada 4 adolescentes
    enfrentam isolamento social.

Impactos

bem-estar social 

A visão integral de saúde é composta pelos pilares
da saúde física, mental e social. Por isso, o bem-estar
social não é opcional. Faz falta e tem seus
impactos nos demais.

Saúde física

Maior risco de AVC, doenças cardíacas, diabetes,
declínio cognitivo e morte precoce.

Saúde mental 

Dobro de chance de depressão, além de ansiedade,
automutilação e pensamentos suicidas.

Educação e trabalho

Adolescentes solitários têm 22% mais chances de
baixo desempenho escolar. Adultos solitários têm
mais dificuldade de encontrar/manter emprego e
tendem a ganhar menos.

Fonte:
Relatório da Comissão sobre Conexão Social da Organização Mundial da Saúde (OMS) | 2025.

Conexão social
Diz respeito às muitas maneiras pelas quais as pessoas se relacionam e interagem umas com as outras. Ela inclui família, amigos, colegas de classe, colegas de trabalho, vizinhos — até mesmo pessoas com quem conversamos on-line. A conexão social tem três dimensões principais: estrutura, função e qualidade.


Isolamento social
Está mais relacionado a números — como ter pouquíssimos relacionamentos ou não ver pessoas com frequência suficiente. Uma pessoa pode estar isolada sem se sentir solitária; algumas, inclusive, gostam de ficar sozinhas. Ainda assim, o isolamento social pode prejudicar a saúde física e mental, especialmente ao longo do tempo.


Solidão
É um sentimento pessoal e doloroso. Acontece quando os relacionamentos que a pessoa tem não correspondem ao que ela deseja ou precisa. É possível sentir-se sozinha mesmo estando cercada de pessoas. Às vezes, a questão não é não ter amigos, mas não se sentir compreendida.

Fonte:
Relatório da Comissão sobre Conexão Social da
Organização Mundial da Saúde (OMS) | 2025.