Empurrões no transporte público, discussões acaloradas no trânsito, interrupções constantes no ambiente de trabalho… A frequência com que presenciamos a falta de educação no cotidiano levanta um questionamento crucial: o que está impulsionando essa crescente onda de grosseria?
A falta de educação vai além de uma questão moral ou estética — trata-se também de um problema psicológico e social. A neuropsicóloga Maianna Debur lança luz sobre o ciclo nocivo da grosseria, alertando que a falta de cortesia enfraquece os vínculos sociais e aumenta o estresse e a ansiedade, afetando principalmente pela consequência da falta de boas maneiras, como o isolamento social e maiores conflitos, o que inevitavelmente gera sofrimento emocional.

Para a especialista, o comportamento rude muitas vezes transcende a mera falta de etiqueta, sendo um reflexo de questões emocionais mais profundas. “A grosseria muitas vezes é o sintoma de algo. Pensando em uma criança, pode ser a forma que encontrou de lidar com algo emocional que está incomodando, por exemplo, chamar a atenção dos pais”, explica.
A especialista também enfatiza o papel do ambiente digital nesse cenário. “A internet traz a falsa sensação de estar numa bolha, de que nada vai acontecer e você pode tudo. Muitos vão utilizar para ‘descontar’ suas frustrações, para se encontrar em grupos que se apoiem dentro de uma ideia”, comenta.
Essa ilusão de anonimato e impunidade no mundo virtual pode facilitar atitudes hostis e dificultar a tolerância à diversidade de opiniões. “No on-line, se alguém discorda de mim, eu posso excluir, bloquear, porém na vida real eu preciso lidar com o diferente e as pessoas querem transformar a realidade na sua bolha digital”, ressalta.
Outro fator relevante apontado por Maianna Debur é a dinâmica familiar contemporânea. Ela observa que a superproteção excessiva de filhos únicos pode, paradoxalmente, prejudicar seu desenvolvimento social e emocional.
Desde cedo
Ana Paula Braga, que tem formação em Educação Especial e especializações em Psicopedagogia e em Educação Especial e Inclusiva, aborda a questão da grosseria sob a ótica do desenvolvimento infantil e da educação. Ela acredita que a falta de tempo pode limitar as interações presenciais em família, o que faz com que as crianças percam oportunidades de aprender boas maneiras em situações do dia a dia, como falar com respeito, aguardar sua vez para se expressar ou demonstrar gratidão.
“Se pais ou adultos próximos não têm tempo ou estão muito ocupados para demonstrar atitudes, como cortesia, empatia e respeito, as crianças podem não absorver esses valores. Quando a criança não recebe a orientação necessária no ambiente familiar, isso pode se manifestar na dificuldade em seguir regras e normas no ambiente escolar”, relata. Como consequência, a criança tem dificuldade em respeitar regras, colegas e professores, e apresenta agressividade e falta de hábitos de estudo. Além disso, Ana Paula aponta que a ausência de limites na infância pode gerar adultos que têm sérias dificuldades no convívio social, pois eles não desenvolveram habilidades essenciais, como respeito, empatia, autocontrole e responsabilidade.

Contudo, a especialista que tem 27 anos de experiência no Magistério vislumbra soluções, sugerindo que pais e educadores priorizem interações face a face, limitem o tempo de tela e promovam o uso consciente da tecnologia. “A educação em boas maneiras transcende o ensino de palavras gentis, sendo uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento de uma pessoa empática, respeitosa e consciente de seu papel na sociedade”, afirma.
Isso não é autenticidade
Para o professor de filosofia Jelson de Oliveira, da PUCPR, a aparente rejeição à etiqueta atualmente pode estar ligada a uma busca equivocada por autenticidade e liberdade absoluta. “Eu acho que essa questão da autenticidade tem a ver com reivindicação por liberdade absoluta. As pessoas acham que sem regras, sem etiqueta e, portanto, com falta de educação, elas seriam mais autênticas. Ou seja, teriam mais liberdade, seriam mais elas mesmas”, explica.

Oliveira argumenta que essa percepção de que a ausência de regras seria sinônimo de autenticidade ignora o papel fundamental da etiqueta na construção de uma sociedade coesa. Para o filósofo, as normas de conduta, embora possam parecer limitadoras da liberdade individual, são essenciais para a manutenção do bem comum e para a própria estrutura da vida em sociedade.
Segundo ele, as regras constrangem comportamentos e de maneira, elas obrigam a gente a agir de forma que aquilo que é individual se submeta ao bem público. A desconstrução da forma que a gente age em sociedade em nome dessa autoafirmação gera complicadores.. Oliveira aborda o preocupante fenômeno da banalização da agressividade e dos discursos de ódio, especialmente no ambiente on-line e na polarização política. Ele estabelece uma conexão entre a crise de autoridade nas instituições tradicionais e a crise geral de comportamentos.
“As autoridades são as nossas referências. Então a gente tem as cinco grandes instituições da era moderna, que são o Estado, a família, a escola, as igrejas e o emprego. E cada uma dessas instituições têm autoridade parental”, explica.
Essas autoridades, na visão do professor, têm a responsabilidade de “induzir os comportamentos humanos ao bem comum” e de serem “testemunho do bem comum”. Quando essas figuras de referência falham em seu papel e, ao contrário, adotam comportamentos agressivos e inadequados, o impacto no comportamento da sociedade como um todo é inevitável.
“Quando elas mesmas acabam partindo para essa questão da agressividade. Quando elas dão um mau exemplo, quando elas não se comportam adequadamente, como a gente vê hoje em dia. Acaba que isso, sem dúvida, influencia o comportamento das outras pessoas”, exemplo.
Sempre na moda
Para a consultora de moda com especialização em Antropologia Cultural, Claudia Piantini, a etiqueta jamais ficará ultrapassada, pois são “pequenas regras de boas convivências”.
“Nós precisamos entender que o nosso espaço começa quando termina do outro”, ressalta.

Regras da boa convivência
A boa convivência exige o mínimo de educação e de regras. Por isso, independentemente de modismos e de mudanças de gerações, bons modos são fundamentais, ao menos o mínimo, como:
• Ser pontual
• Cumprimentar as pessoas
• Pedir por favor, desculpas e agradecer
• Ser atencioso e simpático
• Evitar interromper os colegas
• Prestar atenção ao tom de voz
• Evitar fazer perguntas inadequadas
• Respeitar as regras dos espaços comuns e individuais, como em empresas,
espaços públicos, vagas de estacionamento, etc
• Segurar a porta para quem estiver atrás de você
• Ser respeitoso e considerar os outros



































