Que a Inteligência Artificial já faz parte da rotina da saúde não é novidade. Dos prontuários eletrônicos à gestão de serviços, ela vem transformando a forma como organizações e profissionais tomam decisões. A questão agora é outra: quem será mais valorizado nesse novo cenário? Os especialistas que desenvolvem a tecnologia ou aqueles capazes de aplicá-la aos desafios do cuidado e da gestão?
Para Marcelo Dallagassa, especialista em Inteligência Artificial e cientista de dados do NIIS (Núcleo de Inteligência e Informações em Saúde) da Unimed Paraná, a relação entre IA e saúde não começou com a recente popularização das ferramentas generativas. Há mais de duas décadas, ele atua em projetos de análise de dados e desenvolvimento de modelos preditivos voltados à saúde suplementar.
Dados que viram decisões
Segundo ele, uma das principais contribuições da IA é transformar grandes volumes de dados em informações estratégicas. Hoje, projeções orçamentárias, previsões epidemiológicas, identificação de pacientes com risco de desenvolver doenças crônicas e avaliação de tecnologias já fazem parte da rotina das operadoras.
“Em todos esses casos, o ganho é o mesmo: decisões mais precisas, antecipação em vez de reação e uso mais eficiente dos recursos assistenciais e financeiros, além de gerar benefícios diretos para nossos clientes”, afirma.
Dallagassa ressalta que o valor da tecnologia depende de sua conexão com a realidade da assistência.
“Um modelo de estratificação de crônicos pode ter excelente performance estatística e, ainda assim, falhar na prática se não considerar como funciona o fluxo assistencial real”, explica.
Para ele, os avanços futuros dependem menos da evolução tecnológica e mais da capacidade das organizações de criar as condições necessárias para utilizá-la de forma efetiva. Entre os desafios, estão a qualidade e a completude dos dados clínicos, o fortalecimento da governança da informação e a consolidação de uma cultura orientada por evidências.
“A tecnologia já está pronta; o que precisamos é evoluir no engajamento de todos os atores da cadeia da saúde e na maturidade organizacional para sustentá-la”, ressalta. Essa transformação também influencia o perfil dos profissionais mais valorizados pelas organizações.
Além dos algoritmos
Se os dados são a base da transformação, as pessoas continuam sendo determinantes para que ela gere resultados. Essa é a visão da nutricionista e pesquisadora Tatiane Bonde, que acompanha os impactos da IA na formação de estudantes, na atuação dos profissionais e no comportamento dos pacientes.
Segundo ela, a adoção da tecnologia avançou mais rapidamente do que a preparação das pessoas para utilizá-la de forma adequada.
“As pessoas não têm maturidade para usar a IA, ainda mais em uma área sensível como a da saúde”, adverte a pesquisadora.
Tatiane reconhece os benefícios da ferramenta em atividades, como a personalização de planos alimentares, a realização de pesquisas, a análise de informações e a otimização de processos. No entanto, alerta que o desafio não está apenas em usar a tecnologia, mas em utilizá-la com senso crítico.
“Inteligência Artificial não é só fazer uma pergunta e copiar a resposta. É preciso que os profissionais tenham formação e capacidade para avaliar essas informações”, frisa.
Na prática, ela descreve um perfil cada vez mais valorizado: profissionais que dominam sua área de atuação e, ao mesmo tempo, compreendem as possibilidades e limitações das tecnologias emergentes. “Os profissionais precisam entender não apenas como usar a IA, mas também quando utilizá-la e quando não utilizá-la”, pondera.
O que a IA não substitui Apesar dos avanços tecnológicos, Tatiane reforça que há aspectos do cuidado que permanecem essencialmente humanos.
“Atender um paciente significa olhar nos olhos, escutar com atenção, compreender sua realidade e considerar fatores que uma tecnologia dificilmente consegue captar
sozinha”, observa.
Por isso, ela rejeita a ideia de que a transformação digital diminua a importância da humanização. “No fim, tecnologia e humanização não são caminhos opostos. Pelo contrário, elas precisam caminhar juntas.”
Especialistas e conectores
Para Luiz Pinheiro, professor e pesquisador em Inteligência Artificial e Transformação

Digital, o debate entre especialistas e generalistas não deve ser visto como uma disputa. Segundo ele, as organizações tendem a reunir perfis complementares.
De um lado, profissionais especializados em modelagem, machine learning e técnicas estatísticas avançadas. De outro, profissionais mais próximos das áreas de negócio, responsáveis por identificar oportunidades de aplicação e transformar a tecnologia em soluções práticas.
“Um fica mais na área de negócios. O outro fica mais na área de modelagem, previsão e propensão”, resume.
Essa divisão também influencia a formação dos profissionais. Enquanto usuários e implementadores podem adquirir conhecimentos básicos por meio de cursos e treinamentos, os especialistas continuarão exigindo formação técnica aprofundada.

A hora dos resultados Pinheiro avalia que o mercado entrou em uma nova fase. Depois do entusiasmo inicial em torno da Inteligência Artificial, as organizações passaram a exigir resultados concretos.
“O que o profissional precisa fazer na empresa é mostrar o valor da IA, mostrar que ela vem para acelerar as coisas. Chegou a hora de pagar as contas da IA. Se não der resultado, se não gerar lucro ou melhoria efetiva, os projetos serão cortados”, alerta o professor.
As reflexões dos três especialistas convergem para uma mesma conclusão: a Inteligência Artificial seguirá transformando a saúde, mas seu potencial dependerá não apenas da evolução tecnológica, mas também da capacidade das organizações e dos profissionais de utilizá-la para gerar valor e melhorar o cuidado.








