Foi o psiquiatra Carl Jung quem disse: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” Durante
a rotina extenuante, o médico usa sua competência técnica imprescindível para a profissão e precisa lidar com emoções, histórias e tudo que constitui o paciente. Ele é o amor de alguém e, para tocá-lo com humanidade, é necessário arte. Dessa ideia, nasceu em 1965 a Sociedade Brasileira dos Médicos Escritores (Sobrames), hoje com regionais por todo o país, e que reúne médicos e acadêmicos de medicina com uma paixão em comum pela
arte e pela literatura.

Para alguns, pode parecer estranha a conexão entre o pragmatismo da profissão médica com a subjetividade da arte. Porém, a história mostra que esse laço não é recente. Na Antiguidade, por exemplo, os médicos comumente eram também filósofos, sacerdotes e artistas. O pai da medicina, Hipócrates, já a definia como uma arte de observação da natureza. E os exemplos são muitos: na Renascença, pintores como Leonardo da Vinci e Michelangelo estudaram a anatomia humana para representar o corpo com precisão e a medicina beneficiou-se diretamente com as dissecações anatômicas, antes proibidas.
Nos séculos seguintes, temas como a dor, a finitude da vida, a loucura e a compaixão se mostram comuns à literatura médica e artística: “Fiódor Dostoiévski, Anton Tchekhov (que era médico), William Carlos Williams, Miguel Torga, entre outros, expressaram o lado humano da medicina por meio da escrita”, lembra a médica pediatra Maria Ofélia Fatuch, presidente da regional paranaense da entidade (Sobrames-PR), desde março de 2024.
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História e destaques da Sobrames
Oficialmente fundada em 23 de abril de 1965, na cidade de São Paulo, a Sobrames surgiu originalmente com o nome de Sociedade Brasileira de Escritores Médicos (SBEM), com 18 médicos escritores, sob liderança do médico Eurico Branco Ribeiro. O nome mudou para o atual apenas em 1979, durante um congresso em Belo Horizonte.

Já a regional do Paraná foi oficialmente instalada em 14 de agosto de 1969, na cidade de Curitiba. Seu primeiro presidente foi o médico Glaucio Bandeira, que à época também era reconhecido como patrono da Academia Paranaense de Medicina. A Sobrames–PR faz parte do movimento de descentralização idealizado no final dos anos 1960 pela diretoria nacional, em especial no terceiro mandato presidencial, liderado por Carlos da Silva Lacaz, tornando realidade o fortalecimento de atividades regionais.
“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.”
Carl Jung
Sobre a agenda de atividades da Sobrames-PR, desde a fundação são realizados encontros literários mensais, a publicação do boletim “Gralha Azul” e sediam-se Congressos Nacionais da Sobrames, como ocorreu em 1968 (antes da fundação oficial), 1984 e 2012. A agenda da regional também conta com encontros informais semestrais com música e literatura, abertos ao público. Sobre a interação entre as regionais, ocorrem encontros virtuais entre os representantes, assim como convites para reuniões presenciais.
A produção literária da Sobrames é caracterizada pela presidente como bastante variada, sendo que em muitas coletâneas e suplementos literários, os textos de prosa (como crônicas e contos) tendem a ser numericamente predominantes. Já sobre o acervo, não há hoje um canal online unificado e cada regional faz sua própria organização. É possível, porém, citar alguns destaques: iniciativas de São Paulo como a “Coleção Letra de Médico”, além de antologias regulares, como a “Pizza Literária”, em uma série de coletâneas bianuais desde os anos 1990. Outro exemplo de relevância é a Revista Oficina de Letras da regional Pernambuco, ferramenta que publica poesia, conto, crônica, ensaio histórico, crítica literária e memórias, desde 1989/1991.
“Depende daquele que passa, que eu seja túmulo ou tesouro. Se eu falo ou me calo. Isso só depende de você. Amigo, não entre aqui sem desejo.”
pAUL vALERY
Em 2022, o Brasil saiu do estado de emergência em saúde pública da pandemia de Covid-19. Pensando sobre qual foi o impacto do difícil período na produção artística dos membros da entidade, Maria Ofélia define o momento como um trauma coletivo. Com os encontros presenciais suprimidos nesse período, foi preciso adaptação, para expressar a arte.
“Na época, cada um reagiu com as suas ferramentas emocionais e valeu para demonstrar a necessidade de tê-las em momentos de aflição e dor”, diz ela, que no período sentiu que teve uma alta produtividade literária, passeando pelos dois assuntos mais referenciados em suas crônicas: Amor e Morte. “Os dois pulsam com a mesma intensidade. Tanto que os rituais mais impactantes da vida são a cerimônia do casamento e o ritual da morte”, explica.
Traga o desejo
Para os médicos e acadêmicos de medicina que desejam adentrar na Sociedade, o pré-requisito é ter qualquer produção artística, como música, dança, teatro, pintura ou literatura. Os canais digitais como site da entidade regional, Instagram e Facebook estão sendo reformulados. Portanto, o contato direto com qualquer colega da comunidade pode ser realizado e é a forma mais utilizada pelos interessados.
O convite vem com uma reflexão por parte da presidente da Sobrames-PR: “Na porta do restaurante Le Jardin, Hotel Rosewood (Matarazzo), um texto do poeta francês Paul Valéry diz: ‘Depende daquele que passa, que eu seja túmulo ou tesouro. Se eu falo ou me calo. Isso só depende de você. Amigo, não entre aqui sem desejo.’ Faço a mesma analogia com a Sobrames, feita para quem aprecia artes, filosofia, psicanálise, poesia e a escrita. Por isso, amigo, não entre aqui sem desejo!”



































