Gestão e futuro do Sistema de Saúde: artigo do presidente da Unimed Paraná

Paulo Roberto Fernandes Faria - presidente da Unimed Paraná

A união de pessoas que se organizam de forma voluntária e democrática para atender necessidades comuns mais que a definição do cooperativismo é a sua essência. Isso significa gestão compartilhada, busca não apenas de resultados econômicos, mas benefícios sociais, desenvolvimento sustentável e valorização humana no sistema de saúde. Quando se fala em saúde, e em cooperativismo em saúde, é importante destacar que os desafios nessa área também estão diretamente ligados ao cenário nacional. A instabilidade econômica e política, as inseguranças jurídicas e regulatórias e o avanço das doenças crônicas, especialmente oncológicas e neurológicas, formam um quadro complexo.

Além disso, há o impacto das novas tecnologias e terapias de alto custo. As terapias gênicas/genéticas, por exemplo, chegam a valores superiores a R$ 7 milhões por paciente. Essa incorporação constante eleva a chamada inflação médica e reforça a necessidade de equilíbrio entre o que se oferece e o que a sociedade pode financiar. Nos últimos anos, também observamos uma mudança importante nas faixas geracionais: crianças e adolescentes passaram a demandar muito mais assistência com terapias especiais, antes raras. Paralelamente, o envelhecimento populacional amplia ainda mais a pressão sobre o sistema de saúde.

Sabemos que os investimentos no cuidado nos três níveis de atenção têm características próprias. Embora tenham diferenças na forma de manejo do cuidado, quando se trata da saúde pública e da suplementar de modo geral, as definições dos termos são as mesmas. No nível primário, está a baixa complexidade, trata-se da prevenção, manutenção do bem-estar e procedimentos básicos; no secundário, está o nível intermediário, em que acontece a média complexidade, em que se lida com problemas que não puderam ser resolvidos no nível primário; e no nível terciário, encontram-se as manobras mais invasivas e/ou intensivas, de alta complexidade. Os níveis tecnológicos também vão avançando de uma complexidade a outra.

Essa visão geral mostra os principais desafios da saúde, seja pública ou suplementar, porque inclui o entendimento amplo da assistência. No entanto, também apontam as diferenças importantes. De modo que a grande diferença entre ambas, que geram percepções próprias, é a do financiamento de recursos. Uma é financiada pelo contribuinte, que somos todos nós, a outra pelo beneficiário que adquire um plano. A responsabilidade de gerir esses recursos de forma responsável e otimizada é extremamente vital para os resultados que se deseja alcançar.

O debruçar constante da Unimed sobre essa questão inclui a percepção de que nosso papel envolve educação sobre saúde, ou seja, a conscientização da importância do autocuidado. E como fazer isso, se não aumentando a consciência de que a saúde é responsabilidade de cada um? O entendimento da OMS (Organização Mundial da Saúde) de que a saúde é um “estado de completo de bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”, amplia a responsabilidade de todos, não apenas de quem trata diretamente o tema.

Gestão do Sistema de Saúde

Nos últimos 20, 30 anos, a Unimed deu um salto expressivo na profissionalização da gestão e dos processos e os desafios impulsionou a adoção de uma gestão baseada em conhecimento e evidências. Pilares como a capacitação contínua de nossos colaboradores, têm sido reforçados ano a ano. Esse movimento foi incrementado pela parceria com instituições, como Sescoop/PR, a ISAE/FGV, PUCPR, Faculdade Unimed e muitos outros. Vários chegaram a concluir mestrado e doutorado, o que elevou a qualidade da atuação a um novo patamar.

Também houve grande evolução em infraestrutura e tecnologia, com a adoção de ferramentas digitais que modernizaram controles internos, trouxeram agilidade e benefícios diretos aos clientes. Outro avanço está na infraestrutura assistencial: hoje contamos com um robusto parque de recursos próprios hospitais, laboratórios e unidades de saúde. Até o final da década de 1990, no Paraná, a estrutura assistencial própria da Unimed era praticamente inexistente. A partir dos anos 2000, identificamos a necessidade de investir em recursos próprios, começando por soluções de menor complexidade — remoção de pacientes, ambulatórios e clínicas — e evoluindo para laboratórios, clínicas de quimioterapia e hospitais.

A execução sempre foi determinada pela necessidade estratégica. A maioria dos hospitais surgiu em pequenas e médias localidades, para oferecer qualidade assistencial ao beneficiário. Exemplo disso são as unidades em Palotina, Cornélio Procópio, Paranavaí, Foz do Iguaçu, Toledo e Campo Mourão. A exceção foi o hospital em Ponta Grossa, de alta complexidade, operando já há duas décadas. Hoje, o movimento se inverteu, com investimentos nas grandes cidades. Londrina inaugurou seu hospital no fim de setembro; Maringá abrirá seu segundo hospital no primeiro semestre de 2026; Cascavel adquiriu uma nova estrutura; e Curitiba já iniciou um projeto inicialmente com foco em maternidade e futura ampliação hospitalar.

Atualmente, cuidamos de 16% da população do Paraná e cerca de 10% da população brasileira — aproximadamente 20 milhões de beneficiários. O Sistema Unimed Nacional contém a segunda maior rede hospitalar do país, com 169 hospitais, ficando atrás apenas das Santas Casas. Além disso, a Unimed vem se antecipando a novas metodologias de tratamento, como a cirurgia robótica, com formação de comitês nacionais, cursos de aprimoramento e aquisição otimizada de equipamentos.

A prioridade atual é a interoperabilidade de dados, com uso de prontuário eletrônico, registro digital de saúde e inteligência artificial. O Sistema Unimed tem investido fortemente em tecnologia, tanto na gestão quanto na assistência médica porque isso colabora na melhora da eficiência operacional, aprimora a experiência do beneficiário e ajuda a reduzir custos desnecessários. Desse modo, coloca a tecnologia como pilar crucial para a sustentabilidade e a competitividade no mercado de saúde suplementar.

O papel do médico-cooperado

Tudo isso, sem esquecer um pilar essencial do Sistema Unimed: o médico-cooperado. É ele quem, no decorrer de quase seis décadas, tem sustentado o maior legado da nossa história, a qualidade assistencial, a excelência no cuidado e o acolhimento humanizado oferecido aos nossos beneficiários. Sua atuação é a base sobre a qual se constrói a credibilidade e a confiança da marca Unimed. É por meio de seu compromisso ético, de sua atualização constante e de sua dedicação cotidiana que conseguimos evoluir, inovar e responder às demandas de um setor em permanente transformação.

Encerro esse artigo, lembrando que estou fechando um ciclo aqui na Unimed Paraná e assumindo novos desafios na Unimed do Brasil. Levo comigo a experiência de três décadas dedicadas à integração e ao fortalecimento do Sistema. O Paraná e o Sul têm o cooperativismo em seu DNA. No entanto, o cooperativismo tem se fortalecido no país inteiro. O meu grande desafio é levar para a minha nova missão, um pouco do que nós fazemos aqui no Sul, aqui no Paraná, e aprender com todas as demais regiões do Brasil.

A maneira séria, engajada e comprometida como encaramos o nosso beneficiário e o nosso cooperado, e a qualidade assistencial que entregamos tem a ver com esse compromisso da Unimed de troca e crescimento constante. E a maneira de organização econômica que o cooperativismo proporciona de forma extremamente justa, ao unir o coletivo, respeitando o individual, é o cerne do nosso trabalho.

Nesse tempo todo, desde que ingressei na Federação, no início dos anos 2000, o ganho de conhecimento foi imenso. A transição de médico a gestor representou uma mudança de contexto significativa. Meu engajamento e comprometimento com o trabalho foram muito importantes em todo trabalho estratégico que desenvolvemos, mas aprendi que os resultados só são possíveis graças ao esforço conjunto e ao comprometimento de toda a equipe. Só tenho a agradecer aos amigos e colegas dirigentes, aos cooperados, aos colaboradores e aos beneficiários que todos os dias ajudam a construir o que a Unimed representa.

Para o futuro, contamos com maior integração com políticas públicas e regulações mais maduras, ganhos com os avanços tecnológicos e a saúde digital, à medida que permitam IA para análise preditiva e gestão populacional, além da expansão da telemedicina e da telessaúde. Também confiamos na adoção, cada vez mais eficiente, de modelos de cuidados baseados em valor que contribuam no incentivo à prevenção e no cuidado coordenado, assim como na redução de desperdícios e melhoria de desfechos clínicos, promovendo maior alinhamento entre operadoras, prestadores e beneficiários. A Unimed investe constantemente em maior eficiência operativa, o objetivo é a melhoria da experiência do beneficiário e a valorização cotidiana do médico-cooperado.

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