O novo jogo global: a vez do Brasil ou uma chance perdida?

Plenária do economista Marcos Troyjo detalha como mudanças na geopolítica criam oportunidades únicas ao país, que precisa ultrapassar obstáculos para conseguir aproveitá-las

jogo global
(Foto: Unimed Paraná)

Uma decisão sobre tarifas, tomada a milhares de quilômetros de distância, pode alterar a dinâmica de todo um país — com uma série de mudanças que pode desembocar, inclusive, no poder de compra para contratos de planos de saúde no Paraná. A observação, feita por Alexandre Bley, diretor Administrativo e Financeiro da Unimed Paraná, e Durval Francisco dos Santos Filho, diretor de Mercado e Intercâmbio, mediadores da plenária, revela como as fronteiras entre a geopolítica global e os negócios locais estão se dissolvendo. Para decifrar este cenário, o convidado foi o economista Marcos Prado Troyjo, Distinguished Fellow do Insead (Instituto Europeu de Administração de Empresas). Ele defende: estamos nos “5 minutos do primeiro tempo” de uma era que trará dificuldades para a grande maioria dos 193 países, mas oportunidades imensas para uma seleta minoria.

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Para ilustrar o momento, ele recorre ao conceito de zeitgeist ou espírito do tempo — o conjunto de normas sociais e tendências culturais que definem um período. O filósofo José Ortega y Gasset já dizia: “Eu sou eu e minhas circunstâncias, e se não a salvo a ela, não me salvo a mim.” Da mesma forma, Troyjo traz que, para além de nós mesmos, somos também o espírito do tempo. O que acontece ao nosso redor e como nos relacionamos com o ambiente externo define futuros — seja de organizações, seres humanos ou… borboletas.

Ele explica: na Revolução Industrial, da Inglaterra do século 18, a poluição escureceu as árvores, transformando as borboletas coloridas em alvos fáceis para predadores. Enquanto isso, as marrons e acinzentadas se confundiam com seus arredores — uma camuflagem que permitiu sua perpetuação. Ou seja: uma mudança no contexto cria vantagens e desvantagens decisivas para sua sobrevivência.

Hoje, a grande mudança ambiental é a ascensão da geopolítica. “Há 20 anos, a ideia era que a eficiência e a racionalidade econômica estavam no comando da cadeia global de suprimentos. Minha impressão não é que a eficiência deixou de ser fundamental, mas que ao lado dela, como copiloto do avião, está sendo exercida outra força, muitas vezes preponderante: a da geopolítica.”

Uma influência tão vasta que o economista prevê que duas tendências macrogeopolíticas definirão as próximas décadas. A primeira é demográfica: em 25 anos, a população mundial crescerá em 2 bilhões de pessoas, concentradas em nove países: Índia, Paquistão, Indonésia, Estados Unidos, Nigéria, Congo, Uganda, Tanzânia e Etiópia. Um crescimento tão grande que, em 2050, viverão mais pessoas na África do que na China e na Índia juntas.

“É como se você estivesse em uma casa com quatro pessoas, onde, de repente, fosse morar uma quinta, com os mesmos recursos. Isso significa aumento do consumo de energia elétrica, de gás, de água. É um choque brutal.” E surge a pergunta: de onde virá a comida, a água, a energia e os insumos para um mundo com 10 bilhões de habitantes?

A segunda tendência macrogeopolítica destacada pelo especialista é o deslocamento do poder econômico do G7 — grupo dos países mais industrializados, composto por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido — para o E7, grupo com as maiores economias emergentes do mundo que ele projeta como Arábia Saudita, Brasil, China, Índia, Indonésia, Rússia e Turquia.

Troyjo aponta para um crescimento vertiginoso, que redesenhará o consumo global. “Não sei quem será a maior economia do mundo em 2035, nem a segunda, mas sei que a terceira maior será uma China que hoje não existe, criada unicamente pela força do seu crescimento. Isso significa um deslocamento brutal no mapa de demanda global por comida, água e energia.”

Para o Brasil, membro do E7, o impacto é monumental. Troyjo citou o exemplo do comércio com a China: em 2001, a corrente comercial era de US$ 1 bilhão por ano. Hoje, é de US$ 1 bilhão a cada 52 horas. Esse fenômeno deve se repetir com a Índia e outras nações do E7, criando um deslocamento brutal no mapa da demanda global por tudo o que o Brasil tem a oferecer.

Como consequência, essas mesmas forças demográficas impulsionam o que Troyjo denomina uma “metamorfose do ESG”, na qual o foco praticamente exclusivo que vem sendo dado ao E (Ambiental) nos últimos anos será rebalanceado por uma urgência crescente no S (Social) e G (Governança), principalmente com o desafio de capacitar a população para um mundo tecnológico e com mais pessoas, que vivem por ainda mais tempo.

É um aumento da expectativa de vida que cria uma nova e vasta fronteira de negócios, de especial interesse ao setor de Saúde: a Silver Economy, nomeada em referência aos cabelos grisalhos de uma população envelhecida. O público é crescente, e demandará não apenas saúde, mas soluções para continuar aprendendo, empreendendo e vivendo de forma produtiva por mais tempo.

Porém, para o economista, o Brasil precisa estar melhor preparado para enfrentar os desafios de curto prazo a fim de aproveitar suas vantagens competitivas. Um deles foi a tendência microgeopolítica que apelidou de “Trumpolência” — um neologismo que une o sobrenome do presidente estadunidense Donald Trump a três características de seu governo: turbulência, opulência e incoerência. Ele destacou que, em um momento em que muitas empresas estão saindo da China, o Brasil corre o risco de perder esses investimentos para países com ambientes de negócios mais favoráveis, caso não equacione suas próprias questões burocráticas e de alta carga tributária.

É um cenário macrogeopolítico que favorece o país em suas forças, como suprimento de energia, alimentação e outros insumos — porém, desafios internos e turbulências de curto prazo exigem escolhas estratégicas e políticas bem definidas. A análise de Troyjo deixa claro que o futuro promissor dependerá da capacidade do país de se reorganizar internamente. Afinal, como ele mesmo conclui, em um ambiente desafiador, a vantagem aparece aos mais preparados: “Se você lidera uma equipe de Fórmula 1 e começa a chover, mas seu piloto é o Ayrton Senna, isso é bom.”

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