A palavra propósito significa intenção, objetivo ou a vontade firme de realizar algo. Às vezes, ele nasce de uma situação, de uma ideia ou até de um desejo que vem de dentro. Também me faz lembrar a história de Fernão Capelo Gaivota, personagem criado pelo escritor Richard Bach, que queria ir além da necessidade de voar pela sobrevivência rotineira.
O cumprimento de uma promessa norteou o trabalho de pesquisa da colaboradora Angela Ferreira Cardoso de Souza, do Núcleo de Inteligência e Informações em Saúde (NIIS) da Unimed Paraná. Afinal, quando feita de maneira genuína, uma promessa não é apenas um compromisso a ser cumprido, mas pode se transformar em combustível para um propósito maior.
Quando o assunto é propósito, a história de Angela guarda algumas semelhanças com a trajetória de Fernão. Para a maioria das gaivotas, a vida se resume a comer e sobreviver. Para ele, porém, existe um chamado maior, que dá sentido a cada amanhecer. Mesmo diante dos percalços do aprendizado, Fernão continua tentando, aprendendo e descobrindo novas possibilidades para, depois, ajudar outras gaivotas a serem livres e a encontrarem seus próprios voos.
Angela, por sua vez, levou sua experiência na área da saúde para o Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciência de Dados da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A partir de uma vivência pessoal, iniciou uma pesquisa sobre o agravamento clínico de pacientes com câncer colorretal, buscando identificar, por meio de dados de mundo real da Unimed Paraná, aqueles que podem ser indicados aos cuidados paliativos.
Essa vivência começou dentro de casa, ao acompanhar a mãe, Leoni Cardoso de Souza, enfrentar um câncer no intestino. Diagnosticada em 2023, Leoni faleceu em outubro de 2025, depois de passar por diversas cirurgias e outras etapas da jornada oncológica. “Durante esse período, vivenciei de perto falhas e, no final da vida, precisei, junto com minha família, solicitar a entrada dela em cuidados paliativos.”

Foi quando a mãe iniciou os cuidados paliativos que Angela percebeu a diferença que esse acompanhamento poderia fazer, tanto na vida do paciente quanto na de seus familiares. Um dos aspectos que mais chamou sua atenção foi o controle da dor. “Com o acompanhamento paliativo, as consultas e avaliações passaram a ser mais frequentes, permitindo que a equipe acompanhasse de perto os sintomas e ajustasse as medicações e as doses até encontrar um controle mais adequado”, relata.
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Para Angela, esse cuidado não se resumia à administração de medicamentos. Era também observar de perto como a mãe estava e compreender o que ela sentia. “Ouvir o que ela precisava dizer, o que estava sentindo e ir ajustando o tratamento de acordo com as necessidades dela.”
Os cuidados paliativos foram muito além do controle dos sintomas. Também consideraram aquilo que era importante para Leoni. Um exemplo disso foi a possibilidade de participar da formatura da filha Angélica, irmã de Angela, em setembro de 2025. Naquele momento, Leoni estava acamada e acreditava que não conseguiria estar presente. O psicólogo e o médico que a acompanhavam, porém, passaram a trabalhar com ela essa possibilidade. “E assim foi. Mesmo acamada, com dores e utilizando uma cadeira de rodas, ela conseguiu assistir à formatura da minha irmã e ficou muito feliz”, comenta.
Ao perceber o quanto aquele acompanhamento havia feito diferença nos últimos meses de vida da mãe, Angela começou a se perguntar se a tecnologia e a pesquisa poderiam ajudar outras equipes a reconhecer mais cedo os pacientes que precisam dos cuidados paliativos. Leoni havia chegado a esse cuidado a pedido da família, e a experiência despertou em Angela a vontade de entender se outras pessoas poderiam ter acesso a esse acompanhamento de maneira mais oportuna. “Assim nasceu minha pesquisa”, destaca.
Como Fernão Capelo Gaivota, Angela não quis guardar para si aquilo que uma dúvida poderia despertar. A pergunta que começou a acompanhá-la era simples: e se a tecnologia pudesse ser utilizada em benefício de pessoas que podem precisar dos cuidados paliativos?
A partir dessa inquietação, nasceu a proposta de utilizar a ciência de dados e a tecnologia para identificar sinais de agravamento clínico de maneira mais oportuna, apoiando as equipes na identificação de pacientes que possam se beneficiar dos cuidados paliativos.
O projeto tem como objetivo identificar precocemente o agravamento clínico de pacientes com câncer colorretal, apoiando a indicação oportuna aos cuidados paliativos. Para isso, a colaboradora utilizou dados retrospectivos e anonimizados de beneficiários adultos da carteira da Unimed Federação do Estado do Paraná, com diagnóstico de câncer colorretal, classificados nos códigos CID-10 C18 (cólon), C19 (junção retossigmoide) e C20 (reto), atendidos entre 2021 e 2025. Ao todo, 327 pacientes fizeram parte do estudo, a partir dos quais foram levantados cerca de 789 mil registros de procedimentos assistenciais.
Na história de Fernão Capelo Gaivota, Richard Bach também conta sobre a vontade da gaivota de retornar ao seu Bando para ensinar outras gaivotas que desejam ser livres e aprender a voar. Depois de enfrentar as dificuldades do caminho, Fernão volta para compartilhar aquilo que aprendeu. A trajetória do personagem também se aproxima da reflexão de Angela sobre a pesquisa: muitas vezes, as perguntas nascem de situações reais, de experiências vividas no dia a dia e de problemas que ainda precisam de respostas.
“Que essa história possa incentivar outros profissionais e pesquisadores a transformarem perguntas reais em investigação, conhecimento e possíveis soluções. Assim, aquilo que hoje é uma dificuldade para alguém pode, amanhã, se tornar uma oportunidade de melhorar a vida de outras pessoas”, enfatiza.
Para Angela, transformar a história da mãe em algo que possa ajudar outras famílias também é uma forma de manter viva a história dela. “É transformar a dor em propósito, o propósito em pesquisa e a pesquisa em cuidado”, complementa.
Cuidados paliativos
Os cuidados paliativos são uma abordagem de cuidado integral, que considera não apenas as condições físicas e o controle da dor, mas também as necessidades emocionais, familiares e outras dimensões que fazem parte da vida do paciente. Na visão de Angela, ainda existem tabus em torno desse tipo de cuidado. Muitas pessoas associam os cuidados paliativos à desistência do tratamento, quando, na verdade, a proposta é ampliar o cuidado e preservar a qualidade de vida.
“Esses cuidados não significam uma contagem regressiva e nem desistência.” Segundo Angela, há pacientes que permanecem nesse acompanhamento por anos, com mais qualidade de vida e melhor controle dos sintomas. Além disso, o acompanhamento paliativo pode contribuir para um uso mais adequado dos recursos de saúde, ao evitar idas recorrentes a pronto-atendimentos e internações que poderiam ser prevenidas com um acompanhamento profissional mais próximo.
Os resultados da pesquisa ainda serão conhecidos ao longo das próximas etapas do mestrado. Em novembro, Angela fará a qualificação, quando apresentará uma prévia do trabalho à banca, ainda sem os resultados finais. Em março, está prevista a finalização da dissertação, com apresentação à Unimed Paraná e, posteriormente, à banca final. Após essas etapas e a aprovação do trabalho, os resultads poderão ser divulgados.
Antes de encerrar, porém, Angela deixa um agradecimento à mãe. “Porque o amor não termina quando a vida termina. Ele permanece em mim e me acompanha até o dia do nosso reencontro”, finaliza.








