Violência contra médicos cresce e atinge um profissional a cada três horas no Brasil

Em 2023, país bate recorde de ocorrências; Paraná é o segundo estado com maior número de registros

violência médico
(Foto: Freepik)

A violência contra médicos em exercício de sua função tem se tornado uma realidade alarmante no Brasil. De acordo com levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM), a cada três horas, um profissional da Medicina é vítima de algum tipo de agressão no ambiente de trabalho, seja em hospitais, unidades básicas de saúde, clínicas, laboratórios ou consultórios. Em 2023, o país bateu recorde histórico com 3,9 mil ocorrências registradas — média de 11 por dia.

Os dados, compilados por meio de boletins de ocorrência registrados entre 2013 e 2024 em delegacias de todo o país, revelam um crescimento contínuo da violência contra médicos. Há uma década, em 2013, o número de casos era de 2,7 mil. Hoje, esse número ultrapassa os 38 mil no acumulado da série histórica, o que representa uma grave ameaça à segurança dos profissionais de saúde.

Marlus Volney de Morais, do Simepar, explica a relação da violência contra médicos com a complexidade do sistema de saúde em geral

“Acontece especialmente nas Unidades de Pronto Atendimento públicas de maior demanda, em que familiares de pacientes, extremamente ansiosos com as doenças ou sintomas querem acelerar o atendimento e julgam que o atraso ou demora é culpa dos profissionais de saúde”, explica Marlus Volney de Morais, médico e presidente do Sindicato dos Médicos no Estado do Paraná (Simepar). O órgão tem atuado no combate a esse tipo de violência em proteção aos profissionais de saúde.

Segundo Morais, além da violência física, há também a violência moral e a trabalhista. Enquanto a segunda se materializa na forma de assédio na relação paciente x médico, a terceira é a precarização, cada vez maior, da relação dos empregadores ou gestores com os profissionais médicos. As formas de violência relatadas, segundo o relatório do CRM, incluem ameaças, injúrias, desacatos, lesões corporais e até difamações. O número de vítimas se dividem quase igualmente entre homens (53%) e mulheres (47%). Em grande parte das ocorrências, os agressores são pacientes, familiares ou até mesmo desconhecidos. No entanto, há também casos envolvendo colegas de trabalho, como enfermeiros, técnicos e servidores.

Segundo Morais, consultas rápidas e desumanizadas podem ser uma das causas do problema: “É fundamental que o paciente compreenda e confie no profissional que lhe atende. Isso não se consegue com consultas cronometradas em que o médico tem que acelerar o atendimento para atender o próximo paciente”, reflete.

São Paulo concentra quase metade das ocorrências do país: 18 mil das 38 mil registradas entre 2013 e 2024. Logo após São Paulo, o Paraná figura como o segundo estado com mais registros de violência contra médicos. Foram contabilizados pelo menos 3,9 mil casos no estado, que ocupa apenas a quinta posição no ranking nacional de número de médicos.

Eduardo Baptistella, CRM-PR, fala sobre a Comissão criada pelo Conselho do Paraná para receber denúncias

“Nós temos desde assédio físico, assédio moral e mesmo assédio administrativo de gestores por falta de pagamento”, relata Eduardo Baptistella, vice-presidente Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR). A crescente violência no Paraná motivou o Conselho a criar, em agosto de 2024, a Comissão de Prevenção à Violência contra o Médico. Em 2024,, foram 37 denúncias e, em 2025, já são 24, só nos primeiros meses. Mais de 70% são feitas por mulheres.

Segundo o relatório da comissão, a maior parte das ocorrências aconteceram em unidades de saúde e hospitais vinculados a órgãos públicos. Os tipos de violência relatados variam: agressões físicas, verbais, assédio moral e assédio sexual.

“O CRM-PR é totalmente contrário a qualquer tipo de abuso e nós vamos utilizar de tudo que estiver ao nosso alcance para que isso não ocorra com o médico. Prezamos sempre pela boa medicina e é impossível um médico praticar a boa medicina se está sendo agredido”, conclui Baptistella. Ambos, Simepar e CRM-PR, têm atuado para combater a violência contra médicos e profissionais de saúde em geral.

Um problema estrutural

Especialistas apontam que a violência contra médicos reflete a crise estrutural da saúde no Brasil. A falta de investimentos, a precarização das condições de trabalho e os esgotamentos físico e mental dos profissionais criam um ambiente propício ao conflito. Soma-se a isso a frustração dos pacientes, que muitas vezes descontam nos médicos a insatisfação com o sistema como um todo.

Enquanto não houver medidas firmes de prevenção, proteção e responsabilização dos agressores, os médicos continuarão a exercer sua profissão sob risco constante. Iniciativas, como a comissão criada no Paraná, são passos importantes, mas ainda tímidos diante da gravidade do cenário.

Além disso, é preciso pensar o sistema de saúde de forma geral por todos os atores envolvidos: “A falha se origina também na organização do processo assistencial. Não há, por exemplo, acesso amplo ao sistema de forma eletiva, o que força as pessoas a procurarem um pronto atendimento e congestioná-lo mesmo para condições que não são urgentes. Por isso, é necessário compreender a complexidade do sistema e pensar melhor a governança clínica, que é o carro -chefe para uma assistência com qualidade. As questões culturais relativas aos serviços de saúde precisam ser modernizadas e mais bem entendidas por todos os públicos”, pondera Marlus Volney de Morais.

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