Se a palestra de abertura focou o futuro do trabalho, o painel “Liderança Feminina na Transformação Digital da Saúde” explorou seus impactos no presente. Moderado por Claudia Moro, da PUCPR, o debate costurou três perspectivas que parecem distantes, mas se mostraram interdependentes: a engenharia de dados, a medicina do sono e a psicologia comportamental. A conclusão foi unânime: a tecnologia não é mágica, mas sim, ferramenta — e não pode ser dissociada de o papel do que é essencialmente humano.

A discussão começou desmistificando a “caixa preta” da tecnologia, como descrita pela engenheira Ariane Reisier, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Apesar da aura quase mística que a cerca, a inteligência artificial não possui sentimentos ou consciência. “Sonhar é uma condição humana, não da IA”, afirma. Para a engenheira, essa compreensão é fundamental: inteligências artificiais são matemática. “O futuro é matemática.”
Os algoritmos operam com base em probabilidades a partir de conjuntos massivos de dados. É nesse contexto que surge um alerta crítico: dados do MIT (Massachusetts Institute of Technology) mostram que 95% dos projetos-piloto de IA generativa nas empresas falham. Muitas empresas tentam implementar tecnologias complexas baseadas em palpites, ignorando que a IA reflete os vieses de quem a treina e que, primeiro, o problema humano precisa ser entendido para que o dado tenha valor.
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A necessidade de condução humana e o impacto dos vieses também foram explorados na fala da médica Mônica Andersen, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ela abordou o cenário do sono no Brasil, país que é líder mundial na produção de conhecimento na área, mas cuja população dorme mal: 40,6% dos paulistanos sofrem de apneia obstrutiva e 32% das mulheres se queixam de insônia. Hoje, a tecnologia está migrando dos consultórios para a cabeceira dos pacientes, resultando em caminhos mais acessíveis para o acompanhamento da qualidade do sono e diagnósticos. A combinação de wearables (dispositivos vestíveis), nearables (sensores no ambiente, como aplicativos no celular e travesseiros inteligentes) e de um olhar humano, que reconhece vieses e conduz avaliações críticas e cientificamente pertinentes, permite nos aproximarmos de resultados mais confiáveis.
“Sonhar é uma
condição humana,
não da IA.”
Ariane Reisier
Fechando o painel, a psicóloga Juliana Taha, também da Unifesp, abordou o impacto da tecnologia em nosso comportamento, com a chamada economia da atenção. Hoje, o tempo se tornou nossa principal moeda de troca, capturado por artifícios, como a rolagem infinita das linhas do tempo de redes sociais, desenhada para manter o usuário conectado continuamente, sem espaço para reflexões que facilitem fechar o aplicativo.

Além disso, o conteúdo é distribuído aos usuários sob medida, de acordo com seus interesses e interações, e assim os algoritmos nos isolam em realidades confortáveis onde não há contato com o contraditório. “Não acessamos discursos diferentes dos nossos e hoje vivemos uma crise de confiança: não confio mais em você, que pensa diferente de mim, e sim confiamos nos algoritmos”, alerta.
Na saúde, isso gera fenômenos perigosos, como o autodiagnóstico baseado em vídeos curtos e na busca por soluções milagrosas. É necessário um esforço consciente para “furar a bolha”, limitando o uso de redes sociais e praticando a escuta ativa com quem discorda de nós. E é assim, por meio de esforços conscientes, que as tecnologias são bem aplicadas: seja na gestão de dados, no monitoramento do sono ou na saúde mental, são extensão da intenção humana. É um desafio que não é técnico, mas de consciência.
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