A HISTÓRIA DE UMA PANDEMIA MODERNA

A história de uma pandemia moderna

O retrato dos impactos que convergem em uma das mais profundas crises econômica, política e social que desafiaram a humanidade

A sociedade vivenciava a 4ª Revolução Industrial pautada na tecnologia, era um mundo globalizado e sem fronteiras. Não havia muito tempo para relações demasiadamente profundas, mas os lugares estavam tomados por multidões. De repente, muitos foram sentindo um extremo cansaço, apresentaram sintomas de febre e tosse seca. Os trânsitos e destinos foram restringidos e todos precisavam ficar em casa por tempo indeterminado.
Aquela cena denotava tempos remotos e distantes da realidade, e pareciam uma obra ficcional, como descrito na crônica A Peste, de Albert Camus: “Ao fim desse longo tempo de separação já não imaginavam esta intimidade que fora sua, nem como havia podido viver perto deles um ser em que podiam a todo momento pousar a mão”.
Com todos os elementos para ser uma história epidêmica que se passa na cidade de Orã, na Argélia, como narrou Camus, a pandemia do Coronavírus chegou ao mundo no fim de 2019, no continente asiático, mais precisamente em Wuhan, na China. As pesquisas sobre a origem e proliferação do vírus ainda seguem em constante atualização, e cientistas mostraram que o microrganismo pode ter aparecido bem antes disso.
Recentemente, a Universidade de Barcelona comunicou que virologistas espanhóis identificaram traços do vírus em uma amostra coletada no esgoto da capital da Catalunha, em março de 2019. Novos testes devem ser realizados, mas se houver comprovação, é possível que o vírus tenha aparecido muito antes do que o imaginado pela comunidade científica.
De modo geral, as doenças infecciosas fazem parte da evolução da humanidade e carregam não somente desafios para a área da saúde, bem como desestabilizam outros setores. O Coronavírus expôs as grandes desigualdades, conforme apontou o último relatório do Banco Mundial, a economia latino-americana sofrerá mais com a depressão global em 2020. O Produto Interno Bruto (PIB) reduzirá 7,2%, dois pontos percentuais acima da média global e o preço de matérias-primas (petróleo, soja, cobre) vão ter a “maior queda na história recente”.
Na ‘aldeia globalizada’ em que vivemos, com a maior circulação de pessoas e informações, presenciamos uma disseminação vertiginosa e, de certa forma, inesperada, desencadeando a adoção de uma série de medidas restritivas. Já são mais de 400 milhões de casos no mundo.
Como não existe no momento um tratamento eficaz ou vacina, a comunidade médica mundial trabalha com diversos protocolos, porém ainda não há um consenso. “Sabemos que a população está desgastada, assim como a economia, mas até o momento em que não tivermos um tratamento ou prevenção eficazes, o isolamento é um ato necessário”, reforça o médico epidemiologista e infectologista do Centro de Pesquisa da Unimed Curitiba e do escritório regional do Ministério da Saúde, Moacir Ramos.
Mapear as ocorrências, encontrar uma solução e regressar ao que seria encarado como normalidade ainda é uma realidade distante, principalmente no cenário brasileiro. Em geral, cada hospital tem optado por protocolos distintos, e nos atendimentos intra-hospitalares a prescrição para os pacientes com Covid-19 precisam de autorização da família.

Panorama

Alternâncias na liderança do Ministério da Saúde, interferências políticas e a falta de recursos para realizar testes massivamente na população, além da disseminação de notícias falsas acabam afetando uma análise precisa. Ocorre, então, a subnotificação dos casos, conforme pontua a Fundação Oswaldo Cruz, reconhecida historicamente pela reforma sanitária que erradicou a epidemia de peste bubônica e a febre amarela no Rio de Janeiro, na década de 20.
No território nacional, os testes estão sendo aplicados somente em pessoas sintomáticas que chegam até os hospitais, ou eventualmente em testes particulares. Outro desafio para o gerenciamento da pandemia é a abrangência do território brasileiro, e como destaca a Fiocruz, o que está ocorrendo é que há inícios distintos em cada um dos estados, ou seja, temos várias epidemias no Brasil. No Paraná, por exemplo, havia uma estabilidade, assim como

em todo o Sul, porém a curva com crescimento ascendente foi bastante significativa no último mês.
Dessa forma, como observa Ramos, é complexo determinar o que muitos pesquisadores definem como pico de contágio, que sempre é uma questão retrospectiva. “Quando a doença já está baixa, olhamos para o passado e conseguimos ver. Os pesquisadores tentam estimar uma projeção quando vai estabilizar e reduzir o número de casos, mas isso é muito difícil e com muitas variáveis. Principalmente, diante da nossa realidade’, observa.
O epidemiologista ainda comenta que, por isso, observam-se os óbitos. “Os nossos dados são tendências, e não propriamente o tamanho do nosso problema no Brasil. Então, fica muito difícil fazer uma análise sobre a disseminação do vírus ou mesmo o pico epidemiológico e estabilização. O que tem se tornado um indicativo é o número de óbitos”, explica. Atualmente, o país é o epicentro da epidemia na região das Américas, sendo o mais afetado na América Latina, ainda com a curva de contágio muito íngreme em meio a iniciativas de retorno gradual das atividades econômicas, segundo apontou a Fiocruz.

Colapso

Em uma retrospectiva sobre o início dos casos em solo brasileiro, Ramos destaca que o movimento ocorreu primeiramente com uma demanda dos hospitais particulares, atendendo pacientes que chegavam de viagens internacionais já com os sintomas. Com isso, a Covid-19 trouxe um grande desafio para saúde suplementar, considerando as grandes capitais, o que foi sobrecarregando os hospitais particulares.
Posterior a isso, a população de maior poder aquisitivo reduziu sua rotina de acompanhamentos médicos e deixou de procurar os hospitais, muito segundo o médico por “um medo e a diminuição das cirurgias tidas como eletivas”.
No momento em que a rede particular começou a reduzir a demanda, o cenário foi se agravando no Sistema Único de Saúde (SUS), pois o vírus de fato chegou as pessoas com uma condição financeira mais baixa, o que superlotou leitos, mesmo considerando a estratégia de construção dos hospitais de campanha. “O SUS já vivia um cenário complicado com outras epidemias nacionais, como, por exemplo, a dengue no Nordeste, Sudeste e Oeste e noroeste do Paraná, com sobrecarga. Nós vivemos uma epidemia de sarampo no ano passado em decorrência da falta de procura pelas vacinas, o que motivou inclusive uma campanha. Então, de fato, há dificuldades em gerenciar o cenário, principalmente, para a parcela mais carente da população”, destaca Ramos. De acordo com pesquisa da Síntese de Indicadores Sociais, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 54,8 milhões de brasileiros estão abaixo da linha da pobreza, dimensionando o tamanho do desafio.

Letalidade e mortalidade

Dois termos muito abordados neste cenário são letalidade e mortalidade. Embora, muitas vezes, sejam utilizados como sinônimos, na epidemiologia têm significados diferentes. Letalidade é o resultado do percentual de óbitos relacionado a um determinado número de casos (que pode ser: número de casos graves, número total de casos confirmados etc.). Segundo o médico Jaime Rocha, geralmente, utiliza-se o número total de casos confirmados para se chegar à letalidade, por isso, a letalidade pode variar, conforme a testagem realizada na população que confirma o diagnóstico.
Já a mortalidade é independente da testagem porque ela é o resultado do número de óbitos, corrigido pelo tamanho da população, relacionada por 100 mil habitantes. Para a construção das taxas de mortalidade e de letalidade, é fundamental que doenças que geram óbitos sejam corretamente identificadas. Ramos lembra ainda, que óbitos por síndromes respiratórias graves podem ter sido gerados pelo coronavírus, embora não tenham testes que assim os confirmem, o que conduz também a estatísticas incompletas.

Raio X Unimed

Conforme relata Ramos, a Covid-19 acabou afastando os pacientes de suas rotinas de cuidado com a saúde, o que acaba preocupando o setor. No caso da Unimed, houve uma diminuição nos atendimentos, na realização de exames e na continuidade dos tratamentos. “A situação nos preocupa e temos alertado que estamos seguindo nos pontos de atendimento todos os protocolos de segurança da Organização Mundial da Saúde a fim de evitar qualquer tipo de contaminação. É importante que os tratamentos não sejam abandonados, visando à saúde e ao bem-estar de todos”, alerta.
Em contrapartida ao ônus e implicações de toda situação, o epidemiologista enxerga que houve aspectos favoráveis a serem destacados. A Federação Unimed Paraná, por exemplo, conseguiu estabelecer um núcleo para gestão da crise que permitiram uma organização muito rápida e auxílio às demais Unimeds do estado. “Outro ponto que foi agilizado foi a questão da telesaude. Os atendimentos médicos e psicológicos à distância se comprovaram uma tendência e devem ser adequadamente regulamentados e disseminados para que as pessoas possam ter atendimento inicial presencial, mas seguir em um acompanhamento à distância”, observa.

Uma luz no fim do túnel

Brasil vai atuar no desenvolvimento de vacinas com investimento de mais de US$ 100 milhões

Segundo o Ministério da Saúde, uma parceria viabilizará a fabricação de vacina contra a Covid-19 no Brasil. O acordo com a indústria farmacêutica AstraZeneca envolve a transferência de tecnologia de produção à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O governo prevê investir US$ 127 milhões e estima que cada dose da vacina vai custar US$ 2,30 dólares. A vacina foi desenvolvida pela AstraZeneca e pela universidade de Oxford, na Inglaterra, e está em fase avançada de testes em diversos países, incluindo o Brasil. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), esta é provavelmente a mais adiantada no mundo e a mais avançada em termos de desenvolvimento. Está na fase 3 de desenvolvimento e começou a ser testada em voluntários brasileiros, em um estudo liderado no país pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
fonte: Ministério da Saúde

 

As mais impactantes

Confira no quadro a seguir um resumo das pandemias históricas com maior número de mortes registradas.

O médico epidemiologista, Moacir Ramos, destaca que os dados trabalhados hoje no Brasil são considerados tendências para observação, não propriamente um raio X do problema em si. Créditos: Arquivo pessoal.

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