Você acorda cansado mesmo depois de uma noite inteira de sono? Esse é um dos primeiros sinais de apneia do sono, um distúrbio respiratório que provoca interrupções repetidas da respiração enquanto você dorme, e é mais comum (e subdiagnosticado) do que parece.
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Se você identifica esses sinais, vale entender melhor o assunto com a ajuda de especialistas. Segundo profissionais da medicina do sono, como a neurologista Patrícia Coral, o distúrbio pode comprometer significativamente a qualidade de vida e está relacionado a doenças cardiovasculares, metabólicas e cognitivas.
De acordo com um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), 72% dos brasileiros apresentam algum grau de alteração no sono. Essa é uma condição frequente, silenciosa e potencialmente grave, que exige diagnóstico adequado e tratamento para prevenir complicações à saúde.
Continue a leitura e entenda como a apneia do sono pode impactar a saúde e a qualidade de vida. Neste conteúdo, você vai conhecer as causas, os sintomas e as formas de tratamento da condição, além de entender por que roncos frequentes e cansaço excessivo podem ser sinais de alerta.
O que é apneia do sono?

A apneia do sono pode ser definida, de forma simples, como uma pausa na respiração durante o sono. Segundo a neurologista Patrícia Coral, especialista em neurologia, neurofisiologia e medicina do sono, o problema ocorre quando a via aérea superior colapsa repetidamente, impedindo a passagem de ar.
Durante esses episódios, o nível de oxigênio no sangue diminui, enquanto o gás carbônico aumenta. O organismo interpreta essa alteração como uma ameaça, acionando mecanismos de alerta que provocam microdespertares, ou seja, breves ativações do cérebro que interrompem o sono por poucos segundos, muitas vezes imperceptíveis, para restabelecer a respiração.
“Imagine que a garganta funciona como um tubo flexível; em quem tem apneia, esse tubo ‘fecha’ ou colapsa repetidamente enquanto a pessoa dorme, impedindo a passagem do ar”, explica Patrícia.
O que leva a pessoa a ter apneia do sono?
A apneia do sono é uma condição multifatorial, influenciada tanto por causas diretas, que levam ao colapso das vias aéreas, quanto por fatores de risco que aumentam a predisposição ao problema.
Do ponto de vista fisiológico, o distúrbio ocorre quando há relaxamento excessivo da musculatura da garganta durante o sono, o que pode provocar o estreitamento ou bloqueio da passagem de ar. Esse processo está frequentemente associado a algumas condições:
- Excesso de peso: considerado o principal fator relacionado ao colapso das vias aéreas, devido ao acúmulo de gordura na região do pescoço;
- Uso de álcool e sedativos: promovem relaxamento muscular, facilitando a obstrução da via aérea;
- Circunferência do pescoço aumentada: contribui para o estreitamento das vias respiratórias superiores;
- Alterações anatômicas: características como vias aéreas mais estreitas ou alterações na estrutura facial podem favorecer o bloqueio do fluxo de ar.
Além dessas causas diretas, alguns fatores aumentam significativamente a probabilidade de desenvolvimento da apneia do sono ao longo da vida:
- Idade: o envelhecimento está associado à perda de tonicidade muscular;
- Sexo: homens apresentam maior prevalência, embora o risco aumente em mulheres após a menopausa;
- Histórico familiar: indica possível predisposição genética;
- Doenças respiratórias: condições como rinite e sinusite podem dificultar a passagem de ar;
- Sedentarismo: contribui indiretamente para o agravamento do quadro, especialmente quando associado ao ganho de peso;
- Tabagismo: pode causar inflamação e inchaço nas vias aéreas, favorecendo a obstrução.
Qual o perigo da apneia do sono?
A apneia do sono não tratada representa um risco significativo à saúde. O ciclo contínuo de queda de oxigênio e ativação do sistema de alerta gera um estado de inflamação crônica no organismo.
Entre as principais consequências estão:
- Hipertensão arterial resistente;
- Arritmias cardíacas, como fibrilação atrial;
- Diabetes tipo 2;
- Infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
Além disso, o distúrbio impacta diretamente a saúde mental e cognitiva. A neurologista explica que a fragmentação do sono, causada por microdespertares, impede que o cérebro complete processos essenciais de restauração, o que pode comprometer funções como atenção, memória e raciocínio.
“Quando o sono é fragmentado pelos microdespertares, o cérebro não consegue completar os ciclos de limpeza e restauração”, destaca.
Esse processo, quando se torna crônico, também afeta a regulação química do cérebro, interferindo nos neurotransmissores ligados ao humor e podendo contribuir para quadros de irritabilidade, impulsividade, ansiedade e até depressão.
Quais são os principais sintomas da apneia do sono?
Embora o ronco seja um dos sinais mais frequentes, nem todos os indivíduos com apneia do sono apresentam esse sintoma de forma evidente. Por isso, muitos não sabem que têm o distúrbio.
De acordo com a neurologista, “quando o nível de oxigênio cai, o cérebro envia um sinal de alerta para ‘acordar’ o corpo e retomar a respiração, porém o cérebro não registra os microdespertares. A pessoa acorda, respira e apaga em segundos, achando que dormiu a noite toda.”
Os sintomas podem variar em intensidade, mas alguns sinais são considerados característicos:
- Ronco alto e frequente;
- Pausas respiratórias durante o sono;
- Sonolência excessiva durante o dia;
- Cansaço persistente;
- Dor de cabeça ao acordar;
- Boca seca ou dor de garganta;
- Dificuldade de concentração;
- Alterações de humor.
Em muitos casos, os sinais são percebidos por terceiros, como parceiros ou familiares, que observam interrupções na respiração durante o sono.
Qual exame detecta a apneia do sono?
O principal exame para detectar a apneia do sono é a polissonografia, considerada o padrão-ouro para o diagnóstico. Trata-se de um exame que monitora diversas funções do organismo durante o sono, como atividade cerebral, níveis de oxigênio, frequência cardíaca e padrão respiratório.
O exame pode ser realizado em laboratório especializado ou, em alguns casos, por meio de dispositivos portáteis domiciliares. Como explica a neurologista, “você dorme em uma clínica especializada (ou em casa, com equipamentos portáteis específicos) conectado a sensores que medem a atividade cerebral (EEG), níveis de oxigênio no sangue, frequência cardíaca, esforço respiratório, fluxo de ar pelo nariz e boca, e movimentos das pernas.”
Métodos mais simples, como oxímetros e dispositivos vestíveis, podem auxiliar na triagem, mas não substituem o diagnóstico completo.
Como é feito o diagnóstico de apneia do sono?
O diagnóstico da apneia do sono não se baseia apenas em exames, mas também em uma avaliação clínica criteriosa. A análise do histórico do paciente, dos sintomas e dos hábitos de sono é essencial para direcionar a investigação.
Nesse processo, também podem ser utilizados questionários específicos que auxiliam na identificação do risco para o distúrbio, como a Escala de Sonolência de Epworth e o STOP-Bang. Segundo a especialista, “através de uma boa história clínica e exame físico, também são utilizados alguns questionários que auxiliam nesse processo”.
A neurologista também ressalta a importância de buscar avaliação médica precocemente, antes que os sintomas avancem. “O momento ideal para procurar um especialista é antes que os sintomas comecem a afetar seriamente a saúde cardiovascular ou a segurança, como o risco de cochilar ao volante, por exemplo.”
O diagnóstico e o tratamento da apneia do sono devem ser conduzidos por especialistas capacitados. Entre os profissionais mais indicados estão pneumologistas, neurologistas e otorrinolaringologistas, que atuam diretamente na avaliação dos distúrbios respiratórios do sono.
Em alguns casos, também pode haver acompanhamento multidisciplinar, com participação de cardiologistas, endocrinologistas e dentistas especializados em medicina do sono, dependendo das condições associadas e da abordagem terapêutica indicada.
Quais são os tipos de apneia do sono?

Existem três tipos principais de apneia do sono:
- Apneia obstrutiva: causada pelo bloqueio físico das vias aéreas;
- Apneia central: ocorre quando o cérebro não envia sinais adequados para a respiração;
- Apneia mista: combinação das duas formas anteriores.
O diagnóstico também classifica a gravidade com base no Índice de Apneia e Hipopneia (IAH), que conta o número de eventos por hora:
- Normal: menos de 5 eventos/hora;
- Leve: entre 5 e 15 eventos/hora;
- Moderada: entre 15 e 30 eventos/hora;
- Grave: acima de 30 eventos/hora.
Qual o melhor tratamento para apneia do sono?
O tratamento da apneia do sono varia conforme a gravidade e as características individuais de cada paciente. O método mais eficaz para casos moderados e graves é o uso do CPAP (Continuous Positive Airway Pressure), equipamento que mantém a via aérea aberta durante o sono.
Outras opções incluem:
- Aparelhos intraorais: indicados para casos leves a moderados;
- Fonoterapia: exercícios para fortalecimento muscular da via aérea;
- Cirurgia: recomendada em casos específicos, como alterações anatômicas;
- Mudanças no estilo de vida: perda de peso, prática de exercícios e melhora da higiene do sono.
Embora nem sempre haja cura definitiva, o controle adequado da condição é possível e reduz significativamente os riscos associados.
Apneia do sono infantil é perigosa?
A apneia do sono também pode afetar crianças e, nesses casos, representa risco importante ao desenvolvimento físico e cognitivo. Como explica a neurologista, “se não tratada, a apneia pode comprometer seriamente o desenvolvimento físico e cognitivo da criança. Diferentemente do adulto, que sofre mais riscos cardíacos imediatos, na criança o maior impacto ocorre no sistema nervoso central e no crescimento.”
Os sintomas podem incluir hiperatividade, dificuldade escolar e alterações comportamentais. Segundo a especialista, entre os principais sinais estão, durante o sono, ronco, respiração ruidosa, pausas respiratórias, enurese e suor excessivo; já durante o dia, destaca-se a hiperatividade. Diferente dos adultos, que tendem à sonolência, crianças com sono de má qualidade costumam apresentar agitação, irritabilidade ou até agressividade. Em muitos casos, a apneia acaba sendo confundida com o TDAH.
As causas mais comuns em crianças com problemas para dormir são hipertrofia de amígdalas e adenoides, rinite alérgica e alterações anatômicas. Como destaca a médica, “enquanto nos adultos a causa principal costuma ser o excesso de peso e a flacidez dos tecidos, nas crianças as causas mais comuns são estruturais como hipertrofia de adenoide e amígdalas, rinite alérgica e anatomia facial (mandíbulas pequenas ou palato ‘céu da boca’ muito estreito).”
O tratamento pode envolver cirurgia e intervenções ortodônticas, com altas taxas de resolução. “As chances de cura definitiva em crianças são muito maiores do que em adultos, por meio de cirurgias (Adenotonsilectomia) e uso de aparelhos ortodônticos”, completa.
Se você apresenta sinais como ronco frequente, cansaço ao acordar ou sonolência ao longo do dia, é fundamental buscar avaliação especializada. O diagnóstico precoce da apneia pode evitar complicações mais graves e melhorar significativamente a qualidade de vida.
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Para se aprofundar no tema, confira também o conteúdo “Alimentação adequada ajuda a melhorar a qualidade do sono” e veja como hábitos simples podem contribuir para noites mais reparadoras.
A apneia do sono é uma condição prevalente, potencialmente grave e frequentemente subdiagnosticada. Seus impactos vão além do sono, afetando a saúde cardiovascular, metabólica e mental.
O reconhecimento precoce dos sintomas, aliado ao diagnóstico adequado por meio da polissonografia, é essencial para iniciar o tratamento e prevenir complicações. Medidas simples, como controle do peso e adoção de hábitos saudáveis, também desempenham papel fundamental na prevenção.
Ao menor sinal de alerta, a recomendação é buscar avaliação com especialista em medicina do sono, garantindo diagnóstico correto, tratamento adequado e melhora significativa da qualidade de vida.








