O que faz você feliz?

O que faz vocês feliz?

“O que orienta toda a nossa trajetória existencial está associado à nossa identidade e fundamenta-se em nossas crenças e valores”, coach José Roberto Marques

O propósito de vida usualmente nos é fornecido pelo coletivo e seus padrões. Acontece, porém, que o propósito de vida deve seguir sua individualidade para que ele se estenda por toda a sua existência. Se esse propósito for algo imposto ou fabricado, assim que você atingir uma dada meta que vem no bojo do propósito, sua vontade se extinguirá e verá sua vida ser esvaziada, restando apenas o dever.
É o que explica a psicóloga Sônia Vaz, analista junguiana e terapeuta corporal GDS -Godelieve Struif-Denis., paulista, radicada em Londrina: “nosso propósito de vida deve estar ancorado em nossas competências e personalidade, deve corresponder ao espírito que nos anima, caso contrário, uma hora baterá o tédio, a insatisfação, a falta de prazer”.
Por isso, encontramos pessoas em crises profissionais e existenciais, mesmo quando aparentam ser alguém que conquistou o “sucesso” em determinado campo. Isso porque, o “sucesso” que a sociedade julga nem sempre é o “sucesso”, entendido por cada um de nós. Sucesso, profissional ou pessoal, é quando nossos caminhos nos satisfazem, em todos os aspectos que julgamos importantes, inclusive dinheiro e status, mas, principalmente, quando retrata os nossos mais íntimos anseios.
Nosso propósito tem que ser preenchido de alguma forma. Há pessoas que trabalham apenas para o seu sustento, mas mesmo assim são felizes, porque o seu propósito pode estar sendo preenchido, num voluntariado ou mesmo em um hobby. O desprazer em uma área da vida, que se estende às demais, pode ser um sintoma de que não sabemos quem somos, não temos um visão clara do que queremos e, por vezes, não sabemos nem mesmo quais os valores e as crenças que, verdadeiramente, nos guiam. Daí, de repente, é como se houvesse passado um furacão por nós.
“A profissão e a vida escolhidas precisam estar ancoradas e encontrar eco em nosso ser, tanto no que diz respeito ao caráter quanto à personalidade. Só assim, poderá nos trazer o benefício da novidade, da satisfação curiosa e de seu próprio aprendizado, o que o estimulará a seguir adiante, com o prazer e a atenção devida ao seu fazer diário. Tudo isso sem onerar em nada seu espírito que se conservará aberto para tudo que vem de modo forte, saudável e com aquele gostinho bom, de honradez e segurança”, explica Sônia.

A ilusão da felicidade
Nada na vida é só prazer. Quem busca o prazer fácil, a vida sem problemas, sem responsabilidades, sem objetivos vive uma grande ilusão. E vai ser aquela pessoa que pula de galho em galho (seja profissional, afetiva ou socialmente) sem nunca se sentir satisfeito. Isso, na maioria das vezes, porque não sabe o que quer, não quer pagar para ver ou, simplesmente, afastou-se tanto de si, que não sabe mais quem é. Vive uma máscara para outros e até para si.
Isso não significa que as coisas não mudem, que nossas escolhas tenham que ser para sempre. “As coisas mudam, bem como nossos desejos. Acompanhar tais mudanças e reestruturar nossa ocupação existencial com os novos valores descobertos e deixar os velhos irem embora, faz parte da vida”, aponta. Pular de galho em galho ou insistir em um caminho de qual não gostamos, não nos dá prazer, são duas formas, diametralmente opostas, e igualmente funestas, de lidar com o mesmo problema: insatisfação com a vida.
Um relacionamento, um emprego e/ ou profissão, um lugar só valem a pena, quando as coisas boas, que dão sentido a elas, sobrepõem-se às ruins. E julgamos valer a pena aceitar e lutar por elas. E esse aceitar 

tem a ver com nossos valores, nossas crenças, nossas expectativas e, também, nosso entendimento e humildade.
Caso contrário, lembra a analista, é preciso deixar para trás, ir embora, “sem lástima, mas com o prazer que se tem, quando se dobra uma esquina e se encontra uma nova visão, uma nova perspectiva”. Segundo ela, deixar ir o que já não nos serve mais e se adaptar a esse novo não é fácil. Todos sabemos. “No entanto, se prestarmos atenção, saberemos no fundo que aquilo que está indo, seja bom ou ruim, embora tenha nos ‘sustentado’ por muitos anos, agora já não nos serve mais”.
A força e a coragem, no entanto, para assumir o que realmente se quer e precisa para ser feliz, são maiores para quem se conhece e conhece o seu propósito de vida. Segundo a metodologia coaching – processo de autoconhecimento que permite ampliar competências e habilidades para atingir-se metas e objetivos determinados, o propósito de vida é o que justifica levantarmos da cama todos os dias. É a lembrança de quem, realmente, somos, o impacto que causamos no nosso meio, na nossa vida profissional, pessoal e social.

É ela quem nos encontra
Várias universidades reconhecidas, internacionalmente, uma delas Harvard, tem entre os seus mais procurados cursos, um voltado à felicidade. No livro “O jeito Harvard de ser feliz” e, também, no TED, Shaw Achor, pesquisador, escritor, palestrante e um dos professores desse curso, enfatiza que embora muitos acreditem que se nos empenharmos teremos sucesso, pesquisas recentes mostram que a fórmula funciona de maneira contrária. Na perspectiva da psicologia positiva, é a felicidade que impulsiona o sucesso, e não o inverso. Achor defende que quando somos positivos, o cérebro se torna mais criativo, motivado, energizado e produtivo.
Os mais céticos vão dizer que é simples balela. O fato é que esses conceitos estão sendo comprovados pela psicologia, pela neurociência e por estudos de gestão e de finanças de várias organizações ao redor do mundo. Programas como esses estão sendo criados devido ao clima mundial geral de intolerância, frustração e outras sensações que causam um mal-estar social generalizado. E você é feliz, sabe o que o faz feliz?

Sônia Vaz Analista junguiana e terapeuta corporal GD

Mal-estar emocional 

Um dos ingredientes da felicidade tem a ver com o equilíbrio de nossas emoções. Nas últimas décadas do século 20, começamos a ouvir a teoria da inteligência emocional, uma tema que pouco a pouco foi conquistando, todos os meios, até as empresas. Hoje, o valor de determinadas competências e habilidades emocionais são tão ou, em alguns casos, até maiores que as técnicas.  Pesquisas de acompanhamento de pessoas por mais de 20, 30 anos apontam que se dão melhor na vida aqueles que, não necessariamente, tenham sido alunos nota 10, mas aqueles que sabiam lidar com as suas próprias emoções e, com isso, com as emoções alheias. 

Um dos papas da inteligência emocional, provavelmente, o mais conhecido, responsável por popularizá-la, o psicólogo Daniel Goleman, em seu livro “Inteligência Emocional – a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente”, explica como a incapacidade de lidar com as próprias emoções trazem problemas para a experiência escolar, acaba com carreiras e destrói vidas. 

Ele mostra, com histórias cotidianas e de consultório e com as recentes descobertas da neurociência, que o fracasso e a vitória não são determinados por loteria genética, têm a ver com a forma com que lidamos com as nossas emoções e os fatos que nos ocorrem durante a existência.  No entanto, sabe-se hoje que muitos dos circuitos cerebrais da mente humana são maleáveis e podem ser trabalhados. “Temperamento não é destino”, diz Goleman.

Apesar de todas as recentes descobertas da importância do emocional e da necessidade de desenvolvermos essa inteligência, parece que a sociedade nunca foi tão analfabeta emocionalmente.  O próprio Goleman cita estudos comparativos entre meados da década de 1970 e fim da de 1980, que já apontavam uma piora nos déficits de aptidões emocionais na infância:  retraimento ou problema de relacionamento social, ansiedade e depressão, dificuldades de atenção ou raciocínio, delinquência ou agressividade. 

Segundo Goleman, ainda que esses problemas, isoladamente, possam não ser tão preocupantes, eles demonstravam uma mudança de maré. “Um novo tipo de toxidade já se mostrava vazando e envenenando a experiência da infância. E é, justamente, na infância e na adolescência que modelamos os hábitos emocionais que vão governar nossas vidas”.  Como podemos levar inteligência às nossas emoções, civilidade às nossas ruas e envolvimento à nossa vida comunitária, sem nos atentarmos a nossas crianças? E como nos atentaremos a elas, se não cuidarmos, nós mesmos, de nossas emoções?

“Em a Ética a Nicômaco, inquirição filosófica de Aristóteles sobre virtude, caráter e uma vida justa, está implícito o desafio à nossa capacidade de equilibrar razão e emoção. Nossas paixões, quando bem exercidas, têm sabedoria; orientam nosso pensamento, nossos valores, nossa sobrevivência. Mas podem cair em erro, e o fazem com demasiada frequência”, alerta Goleman. 

O grande problema é que quanto mais racional somos e menos conhecemos nossas emoções, elas nos dominam sem que percebamos, por meio de atitudes traiçoeiras, como a própria vaidade, o medo, a arrogância – que no fundo retratam uma tremenda insegurança, a sensação de vazio, de inadequação, de solidão, só para citar algumas. 

Inteligência Emocional

São cinco, segundo Daniel Goleman, as principais habilidades que caracterizam a inteligência emocional: o autoconhecimento, o autocontrole, a automotivação, o reconhecimento das emoções nos outros e a qualidade dos relacionamentos interpessoais.
Já se sabia, com a psicologia, que essa inteligência poderia ser desenvolvida ou melhorada, mesmo na fase adulta; a neurociência permitiu, contudo, compreender que a construção de novos hábitos, novas formas de pensar e de se comportar transformam inclusive nossas capacidades cerebrais.
O que algumas terapias complementares já apontavam, de certa forma, a neurociência, agora, vem confirmar: emoções criam formas, externa e internamente. A boa notícia é que aqueles que querem transformar-se podem fazê-lo a qualquer momento. O avanço da idade torna o desafio maior, mas não impossível.

Para ler:
Inteligência Emocional –
A Teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente
Daniel Goleman, ph.D, ed. Objetiva.

O jeito Harvard de ser feliz
Shaw Achor, ed. Saraiva.


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