Pandemia inspira urgência nos cuidados com a saúde mental na área médica

Pesquisa do CRM-PR investigou o estado emocional dos profissionais e acadêmicos do setor, e ações buscam fornecer suporte ao corpo clínico durante a pandemia 

A velocidade de contágio da Covid-19 surpreendeu grande parte da população. Paralelamente à disseminação da doença foram divulgados 361 milhões de vídeos no YouTube com a classificação “COVID-19” e “COVID 19”, e cerca de 19.200 artigos foram publicados no Google Scholar desde o início da pandemia. No mês de março, mais de 550 milhões de tuítes continham os termos Coronavírus, corona vírus, covid19, covid-19, covid_19 ou pandemic [pandemia], segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). A combinação desses cenários afetou e continua impactando os diversos aspectos da vida da sociedade, em especial, a saúde mental. No emaranhado de informações desde o início da pandemia, a propagação de notícias falsas ou enganosas tornou-se cada vez mais prejudicial. Como a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica, passamos também por uma ‘infodemia’, na qual há um excesso de informações sobre o tema, formando um grande ponto de interrogação a respeito da veracidade dos fatos.

Na linha de frente do gerenciamento e da resolução dessa crise, entram os profissionais e acadêmicos de medicina, que já lidavam com uma jornada e ambiente de trabalho peculiar, e, em 2020, depararam-se com um desafio ainda maior. Já identificado como um ponto delicado e essencial, durante o Setembro Amarelo 2019, o Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) realizou uma investigação para entender as demandas da saúde mental por parte de estudantes e médicos.

Ao todo, participaram da pesquisa 2.187 médicos e acadêmicos do Paraná, que responderam a um questionário elaborado pela equipe do CRM, contando com a contribuição e análise da psicóloga e professora da faculdade de Medicina da PUC-PR, Fernanda B. Mayer, e a estatística e professora da faculdade de Medicina da PUC-PR, Marcia Olandoski. Além do levantamento demográfico da população, os participantes responderam, ainda, Inventário de Ansiedade Estado-Traço (State-Trait Anxiety Inventory). Essa ferramenta foi desenvolvida por Spielberg em 1970, traduzido e adaptado para a população brasileira em 1979 por Biaggio e Natalício. O IDATE é um questionário autoaplicável composto de duas escalas: uma avalia o estado e a outra o traço de ansiedade.

O estado de ansiedade refere-se ao estado emocional transitório que varia de intensidade de acordo com o contexto e no decorrer do tempo. É caracterizado por sentimentos desagradáveis de tensão ou apreensão, e aumento da atividade do sistema nervoso autônomo simpático, como taquicardia, sudorese e aumento da pressão arterial. Já o traço de ansiedade refere-se à tendência do indivíduo de reagir a situações percebidas como ameaçadoras de forma ansiosa.

Segundo observa a conselheira do CRM-PR responsável pelo grupo de estudos de saúde mental dos médicos, Laura Moeller, as respostas obtidas pelo IDATE não cumprem o objetivo de realizar diagnóstico de ansiedade. “De acordo com os dados coletados, foi possível constatar que 47,1% dos entrevistados apresentaram-se com IDATE-ESTADO com estado de ansiedade de intensidade moderada e 45,9% com IDATE-TRAÇO com traço de ansiedade de intensidade moderada. Já 27,5% dos profissionais apresentaram intensidade grave em ambas as avaliações de IDATE (Estado e Traço) ”, relata Laura.


A jornada de trabalho média de 40,4% dos profissionais é de 40 a 60 horas por semana. Aqueles que responderam se considerando saudáveis representam 47,3% do total, porém 45,3% mencionam ter algum problema de saúde (HAS em 24,7%, tireoidopatia em 13,5%, depressão em 13,4%, doenças osteomusculares em 12,4%).

Recorte pandêmico
A confirmação do surto infeccioso somente potencializou essa preocupação latente sobre a saúde mental, considerando que a OMS declarou que temos 1 bilhão de pessoas com transtornos mentais no mundo. A Associação Paranaense de Psiquiatria (APPSIQ), com o apoio do CRM-PR nas divulgações nas mídias sociais e site, lançou a campanha que prestou atendimento psiquiátrico gratuito para 168 profissionais de saúde de todas as regiões do Paraná.

Durante uma pandemia, um dos fatores que agravam a incidência de transtornos psicológicos é o aumento do medo que eleva os níveis de ansiedade e estresse em indivíduos saudáveis, além de intensificar os sintomas daqueles com predisposição a desenvolver desordens psiquiátricas existentes. “Nós sabíamos que as doenças emocionais tanto durante a pandemia quanto pós seriam avassaladoras. Todo esse processo da pandemia com essa questão da restrição e de ficar em isolamento dentro de casa desperta ansiedade, medo e insegurança e, como consequência, pode levar a quadros de pânico e depressão”, aponta o presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria-APPSIQ, Júlio Dutra.

Embora ainda não existam dados epidemiológicos precisos sobre as implicações psiquiátricas relacionadas com a doença ou ao seu impacto na saúde pública, há informações parciais que apontam um aumento substancial na procura por atendimentos psiquiátricos e psicológicos. “Estudos anteriores relataram altos índices de sintomas de ansiedade e estresse, além de transtornos mentais, como estresse pós-traumático, na área da saúde, o que reforça a necessidade de cuidados”, avalia Dutra.

Para o presidente da APPSIQ, o desenvolvimento de algumas estratégias pode ser eficaz no suporte à saúde mental. Isso incluiria o trabalho de equipes multidisciplinares de saúde mental (incluindo psiquiatras, enfermeiros psiquiátricos, psicólogos clínicos e outros profissionais de saúde mental), somado a uma comunicação clara envolvendo atualizações regulares e precisas sobre o surto de Covid-19, levando conhecimento sobre saúde mental a todos os profissionais da saúde. Outro ponto fundamental seria o estabelecimento de serviços seguros de atendimentos psicológicos e psiquiátricos com aumento e implantação de ambulatórios especializados para dar conta dessa demanda que só tende a crescer. 

O presidente da APPSIQ reforçou que a preocupação com os transtornos emocionais ocasionados pela pandemia já estava sendo prevista desde o início
A conselheira do CRM-PR Laura Moeller foi responsável pelo grupo de estudos da pesquisa sobre a saúde mental no setor

Os números da pesquisa

Confira a seguir os principais tópicos da pesquisa desenvolvida pelo CRM-PR em parceria com as professoras da faculdade de Medicina da PUC-PR.

• Idade: 23% entre 21-30anos, 28,5% entre 31-40 anos, 19,7% entre 41-50 anos;
• Gênero: 57,3% mulheres e 42,3% homens;
• Estado civil: 65,7% casados ou união estável, 33,8% outros (solteiro, divorciado, viúvo);
• Filhos: 56,1 % com filhos, dos quais 45,1% com 2 filhos;
• Formação acadêmica: 52,9% com residência médica;
• Tempo de atuação: 27,5% por até 5 anos e 24,1% entre 6 e 14 anos;
• Jornada de trabalho: 40,4% trabalham entre 40-60 horas por semana;
• 53,5% atuam na área da Regional de Curitiba, 7,2% na de Londrina, 4,9% na de Maringá, 4,3% na de Cascavel e 4,3% na de Ponta Grossa; 47,3% se consideram saudáveis e 45,3% referem ter algum problema de saúde (HAS em 24,7%, tireoidopatia em 13,5%, depressão em 13,4%, doenças osteomusculares em 12,4%);
• 37,3% estão com sobrepeso (IMC entre 25 e 29,9 kg/m2) e 16,6% são obesos (IMC>30 kg/m2);
• 66,7 % praticam alguma atividade física, dos quais 39,1% entre 3 e 4 horas por semana;
• 5,8% são fumantes;
• 33,4 % consomem bebidas alcoólicas 2 a 4 vezes por mês e 20, 2% consomem 2 a 4 vezes por semana. Quando consomem bebidas alcoólicas, 29,2% consomem 3 a 4 doses de bebida em cada ocasião e 4,2% consomem 6 ou mais doses em uma única vez semanalmente;

*Com relação as respostas do IDATE, tem-se que:
• 47,1% apresentaram-se com IDATE-ESTADO com estado de ansiedade de intensidade moderada e 45,9% com IDATE-TRAÇO com traço de ansiedade de intensidade moderada. Dos 2187 Médicos, 601 (27,5%) apresentaram intensidade grave em ambas as avaliações de IDATE (Estado e Traço);

• Quando perguntado: “Você sente necessidade de ajuda profissional”, o percentual de médicos que sentem que precisam de ajuda profissional está estimado em 31,6%, sendo mais frequente entre as mulheres com IDATE-ESTADO e IDATE-TRAÇO com pontuações de intensidade moderada e grave;

• Com a pergunta “Você sente necessidade de ajuda profissional”, relação com consumo de álcool, percebe-se maior demanda entre os médicos com IDATE-ESTADO e IDATE-TRAÇO com pontuações de intensidade moderada e grave, com destaque para a intensidade moderada em ambos os questionários e a ingesta na frequência de 2 a 4 vezes por semana;

• Percebeu-se, também, que IDATE-ESTADO e IDATE-TRAÇO com pontuações de intensidade grave são mais jovens (IDATE-ESTADO: grave em 59,6% daqueles entre 21 e 30 anos e 41,2% entre 41-50 anos; IDATE-TRAÇO grave em 54,5% daqueles entre 21 e 30 anos e 30,3% daqueles entre 41 e 50 anos);

• IDATE-ESTADO e IDATE-TRAÇO com pontuações de intensidade moderada tem mais formação acadêmica (IDATE-ESTADO: moderado em 51,9% daqueles com mestrado e 49,8% com residência; IDATE-TRAÇO moderado em 50,9% daqueles com mestrado e 47,2% daqueles com residência);

• IDATE-ESTADO e IDATE-TRAÇO com pontuações de intensidade moderada e grave trabalham entre 20-40 horas ou entre 40-60 horas por semana (IDATE-ESTADO: moderado em 50.8% daqueles entre 20-40h e 50,6% entre 40-60h/ grave em 56,9% daqueles que trabalham mais de 60 horas por semana; IDATE-TRAÇO moderado em 45,9% daqueles que trabalham 20-40h e 45,3% daqueles que trabalham 40-60 horas e grave em 39,2% daqueles que trabalham mais de 60h por semana).

*Importante: IDATE não faz diagnóstico de ansiedade

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