Mais escolas médicas e, consequentemente, mais profissionais formados prontos para o mercado de trabalho a cada ano: esse é o cenário vivido atualmente no Brasil dentro da medicina. Contudo, o aumento no número de médicos não quer dizer, necessariamente, crescimento do número de especialistas – pelo contrário, as barreiras financeiras e a defasagem na oferta de vagas para residência têm impactado o futuro dos jovens profissionais. Como é possível equilibrar a conta, então, para alcançar um mercado de trabalho médico forte e sustentável?
Além de um novo estilo de vida, os recém-formados também têm anseios diferentes dos médicos formados há 20 ou 30 anos. Durante a trilha Cooperativismo “A transformação do mercado de trabalho e a remuneração médica”, que teve moderação do presidente da Unimed Noroeste do Paraná, Alexandre Thadeu Meyer, a conselheira Suplente pelo Paraná no CFM – Conselho Federal de Medicina, Viviana de Mello Guzzo Lemke, lembrou ainda de outra transformação no cenário: o crescimento no número de mulheres exercendo a profissão ano após ano. Como consequência, especialidades consideradas intervencionistas, como as cirúrgicas, bem como as mais “masculinizadas”, como a urologia e ortopedia, têm sido menos procuradas, acendendo um alerta. “Além da mudança no perfil dos novos médicos, devido às novas gerações e à feminização, há grande defasagem entre vagas e espaço na residência, com grande aumento no número de médicos generalistas sem especialidade. Em paralelo, notamos um crescimento desregulado de pós-graduações em Medicina, sendo que 90% dos cursos são pagos e mais de 40% completamente na modalidade à distância.”
Enquanto as vagas de residência ofertam bolsas aos alunos, as especializações, como pontuado por Viviana, são majoritariamente ofertadas por instituições privadas, levantando debates acerca do acesso às especializações. Outro ponto é a defasagem, também, no próprio valor da bolsa, o que gera uma desvalorização e desinteresse dos recém-formados, que encontram remunerações mais atraentes em outros ambientes, deixando a residência para o futuro – que muitas vezes não chega. “Em 1988, por exemplo, o valor da bolsa de estudo equivalia a mais de seis salários-mínimos. Em comparação, a remuneração em 2025 corresponde a pouco mais de dois salários-mínimos e meio. É uma desvalorização crescente, que gera desmotivação”, disse.
Em contrapartida, os programas de pós-graduação podem parecer mais atraentes aos profissionais, uma vez que basta pagar para ter acesso ao curso – muitas vezes sem as regulamentações necessárias. No entanto, vale a definição: a pós não confere Registro de Qualificação de Especialista (RQE) junto ao CRM – Conselho Regional de Medicina. Ou seja, o profissional continua com o título de generalista, o que nem sempre fica claro para os pacientes. “Há o impacto na segurança do paciente, falta de regulamentação e fiscalização adequadas. São cursos prioritariamente teóricos, diferentes da residência em que há prática assistencial supervisionada em ambientes reais, vivenciando, de fato, a especialidade desejada.”
Os vínculos formais também enfrentam declínio. Os médicos sofrem com a perda de direitos trabalhistas essenciais, principalmente, devido ao fenômeno da “pejotização”, que à primeira vista pode significar mais autonomia, mas, a longo prazo, resulta na precarização do trabalho. Conforme a suplente, uma pesquisa recente do Conselho apontou que mais de 67% dos profissionais têm quatro ou mais locais de trabalho e recebem, em sua maioria, por produtividade. Consequentemente, para serem mais produtivos, os profissionais encaram plantões e posições de trabalho que levam à sobrecarga, principalmente, se o objetivo for conciliar com a residência. “A qualidade de vida dos futuros especialistas está em xeque. Tais jornadas comprometem a saúde e o aprendizado, resultando em residentes exaustos e prejudicados”, completou.
Além disso, os novos médicos buscam, mais do que nunca, por segurança e, principalmente, previsibilidade nos modelos de remuneração. A maioria, inclusive, não quer mais receber por procedimento – o famoso Fee For Service –, mas sim por turno ou hora, sabendo exatamente o valor que irão receber no fim do mês. “A mensalidade das universidades está muito cara. Para completar a graduação, muitos estudantes recorrerem aos financiamentos. Contudo, ao fim do curso, a conta chega – e ela é alta. Como esperamos que ser possível que esses recém-formados consigam cursar a residência, com bolsas cada vez mais desvalorizadas, enquanto precisam se preocupar em terminar de pagar a graduação?”, questionou o diretor Administrativo e Financeiro da Unimed Paraná, Alexandre Gustavo Bley.
Tais informações, também, foram reunidas na pesquisa do CFM, explanadas pelo médico, que destacou outro ponto da nova geração: a busca pelo equilíbrio entre vida pessoal e profissional. “Como gestores de cooperativas, nosso papel é equilibrar interesses, evitar conflitos e gerar equidade aos médicos-cooperados, sejam eles jovens ou não. A pesquisa mostra, por exemplo, que são fontes essenciais de atração questões como estrutura adequada para o trabalho e cidades ou regiões que possibilitem a qualidade de vida que os médicos procuram.”
A equidade, segundo o médico, diz respeito ao entendimento das diferenças entre gerações e, inclusive, especialidades, dando as condições necessárias para que todos possam ter um desenvolvimento pleno. “Sem cooperado não existe cooperativa. Com isso, precisamos nos adaptar à nova realidade, reforçando, também, a própria relevância da cooperativa nessa transformação do mercado de trabalho médico, incluindo o cooperado no orçamento”, defendeu, ao lembrar a frase de Peter Drucker, que diz que “a melhor maneira de prever o futuro é cria-lo”.
Políticas para a valorização da remuneração médica
E é justamente isso que a Unimed Paraná está buscando. No último ano, a cooperativa deu início às discussões sobre a remuneração médica no Sistema Unimed Paranaense, com workshops e debates com as Singulares sobre estratégias para o futuro. O superintendente de Serviços às Singulares da Federação, Willian Stocco, apresentou o documento construído a partir desse estudo, intitulado “Políticas para a valorização da remuneração médica”, dividido em dois segmentos: gestão e apoio.






































