Uma pandemia como aceleradora de ideias

Uma pandemia como aceleradora de ideias

O mundo sempre viveu eras de transformações, fruto do processo evolutivo do ser humano, mas que nos últimos 50 anos, teve um grande impulso pela tecnologia. Aquilo que antes fazia parte do imaginário coletivo, hoje já é realidade para um percentual significativo de pessoas. Deparamos-nos com uma amplitude de funcionalidades na nossa mão, onde vários serviços cabem dentro de um pequeno computador de alta capacidade de processamento chamado smartphone. Com ele, descobrimos uma terra que parece não ter limites de exploração. Fazemos compras, pagamos contas, controlamos nossa saúde financeira, física e mental, enviamos mensagens, escutamos música, assistimos a filmes e fazemos nossas chamadas telefônicas. Aliás, essas chamadas já se sofisticaram e incorporaram o vídeo, facilitando uma maior proximidade das pessoas, englobando outro sentido, além da audição. Em tempos de distanciamento social, essa proximidade tecnológica tem feito a diferença na vida das pessoas.

A pandemia da Covid-19 tem gerado uma série de novas transformações no cotidiano, hábitos e pensamentos das pessoas, proporcionando o debate da construção do “novo normal”. Por óbvio que algumas mudanças já estavam em curso, mas esse período de privações e provações está gerando um remodelar e um novo significado do viver. A mola propulsora da velocidade de mudança não vem só da presença do coronavírus entre nós, mas também das reações humanas que observamos dentro da sociedade e seu potencial de ser disseminado. E ,nesse sentido, entendo que a grande conexão que existe hoje, na palma da mão das pessoas, por meio da participação das redes sociais, tem papel fundamental. Afinal, há 10 anos, passamos por outra situação sanitária global que foi a pandemia H1N1, com números também expressivos de casos e óbitos mundo afora, mas suas consequências não potencializaram uma discussão tão ampla sobre mudança de comportamento como vemos hoje. Na ocasião, o Orkut era a grande rede social, com dezenas de milhões de usuários e o Facebook estava começando a ganhar maior projeção e hoje já assume a liderança com mais de 2 bilhões de usuários conectados.

Somos bombardeados diariamente com informações e desinformações, sendo que a principal consequência da pandemia, fora o processo de adoecer fisicamente das pessoas, é o estado de constante alerta e indefinição que vivemos. E não tem emocional que não se sinta minimamente abalado, aumentando o nível de angústia e instabilidade. Não à toa que a busca por segurança se transformou numa constante em diversos segmentos, mudando comportamentos e hábitos. Abre-se um novo mundo e o retorno à essência e à noção de que o tempo é perecível, têm tido eco em inúmeros artigos e pesquisas realizadas por consultorias do comportamento humano.

Com maior introspecção e isolamento, a conexão maior uns com os outros tenta driblar a solidão e o consumo de conteúdo cresceu, especialmente à busca em saúde, na qual o autocuidado começa a ter mais espaço na agenda das pessoas. Além da busca ativa por informações da pandemia, percebe-se um aumento no número de artigos sobre alimentação saudável, atividade física, meditação e os cuidados com a saúde mental. A essência é a preservação, manter-se vivo e saudável. Por outro lado, o estado de incerteza que vivemos tem criado mais ansiedade e áreas de atrito, formando fissuras nos relacionamentos. São reações físicas e mentais que estão moldando o nosso relacionar com as pessoas e, para alguns, não está sendo uma fácil transição.

Por outro lado, as relações de trabalho foram adaptadas rapidamente e, por incrível, que pareça, bem encaixadas durante essa pandemia. A essência veio à tona, produtividade. O local passou a ser secundário e cada casa se transformou literalmente numa extensão da realidade já vivida anteriormente, onde trabalho e vida pessoal se confundiam. Já temos prova de que as coisas podem ser diferentes, mas temos dúvidas de como vai se comportar no futuro. A transformação do lar em trabalho desafia a sensação de pertencer, de privacidade, da quebra de rotina nos deslocamentos, do coleguismo diário, enfim, temas que vão precisar de respostas para mudanças reais e que devem permanecer para muitas pessoas.

Tantas mudanças a caminho e, no meio, o ser humano continua sua jornada na eterna busca pela felicidade, que toma outros significados nessa pandemia. É oportuno sonhar que a humanidade possa moldar uma nova realidade, refletindo o agir de forma mais racional e solidária. Nada como uma forte ventania para retirar as nuvens que dificultam enxergar o céu azul. Não é exagero dizer que um microrganismo, um ser invisível, mas não imaginário, tem impulsionado e acelerado isso. Apesar de tanta dor, pelo menos que aprendizados nos deixem um bom legado.

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