Ganhei uma viagem sem nunca ter pedido por ela. E talvez seja assim que algumas histórias começam, meio sem aviso, meio sem intenção, mas com um certo ar de destino.
Foi num sorteio despretensioso de fim de ano, na festa dos colaboradores, desses que a gente participa sem expectativa real de ganhar. No entanto, ganhei. Um voucher de uma agência de viagens. Cinco mil reais em possibilidades (pacote ou passagem, dependendo do que eu quisesse desenhar). E, com ele, uma pergunta incômoda: o que alguém que não é exatamente do tipo viajante faz com uma viagem?
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Viajar, para mim, sempre foi algo que precisava de um motivo maior. Uma força empurrando… um planejamento, família ou amigos organizando e você não podendo muito dizer não. Ou seja, uma espécie de chamado. E, curiosamente, ao abrir aquela pequena caixinha-preta misteriosa ofertada pelos doutores Paulo e Bley, senti exatamente isso. Como se, junto com o prêmio, viesse um sussurro: “vá”.
O destino não surgiu de um catálogo turístico nem de um sonho antigo. Veio de uma lembrança recente, quase esquecida, de quando ouvi falar de um lugar chamado Monte Gargano. Um nome que, até então, não fazia parte da minha geografia emocional. Entretanto, fazia parte de algo maior, de uma história espiritual, de uma conexão difícil de explicar, dessas que não passam pelo raciocínio, mas pelo sentir.
E ali, entre uma busca despretensiosa e outra, surgiu também Loreto, uma cidade que conta com uma aparição de Nossa Senhora. Mais um ponto no mapa que eu nunca havia procurado, mas que, de alguma forma, parecia me esperar. Foi quando percebi: aquela viagem não estava sendo planejada por mim. Eu só estava concordando com ela.
Assim, a rota foi se desenhando quase sozinha. Um pedaço de férias virou travessia. Dez, doze dias, o suficiente para caber não só o inesperado, mas também velhos sonhos que eu nem tinha certeza que tinha: Roma, Florença, Veneza.
E Roma foi a primeira a me receber. Com sua beleza quase exagerada, suas fontes, suas ruas, sua história que não cabe no tempo. O Vaticano, majestoso. Logo no início, encontrei outras brasileiras; como se, mesmo longe, o familiar desse um jeito de aparecer. Elas me acharam corajosa por estar sozinha. Achei curioso. Não era coragem. Era só um chamado que eu não quis recusar.
Nos dias seguintes, mais encontros, todos breves, como costumam ser os encontros de viagem. Pessoas que cruzam nosso caminho apenas o suficiente para deixar uma marca leve e seguir.
A visita ao Coliseu deu um pouco o tom da viagem. Diante de quase dois mil anos de história, vi um casal discutir intensamente ao meu lado. E aquilo, de alguma forma, me atravessou. Pensei no tamanho dos nossos conflitos, na urgência que damos a eles, e no quanto tudo isso se dissolve quando colocado diante do tempo.
Ali, naquela arena que já viu tantas histórias começarem e terminarem, parecia tudo tão claro: tudo passa. Os dramas, as dores, os amores. Como areia levada pelo vento.
Voltei andando, me perdendo pelas ruas, quase de propósito (?). Porque, em Roma, perder-se é só outra forma de encontrar. E, entre desvios e descobertas, fui entendendo que aquela viagem não era apenas sobre lugares. Era sobre o tempo, sobre encontros e, principalmente, sobre escutar aquilo que, às vezes, sussurra dentro da gente, esperando apenas que a gente diga “sim”.
Depois de três dias em Roma, tempo suficiente para me perder e me encontrar algumas vezes, segui viagem. Peguei um trem rumo a Foggia, porta de entrada para o Monte Gargano (onde fica a cidade Monte Sant´Angelo), aquele mesmo que, dias antes, parecia apenas um sussurro distante e agora se tornava destino concreto.
E, como todo chamado verdadeiro, não foi fácil chegar.
Quase perdi o trem, me perdi na cidade, hesitei entre direções, até entender que, às vezes, o caminho exige um certo desencontro antes de se revelar. Consegui um táxi e subi até Monte Sant’Angelo. Quando finalmente me vi diante da construção que guarda os 86 degraus que descem até a gruta… não houve resistência possível. Desabei em choro.
Não era cansaço. Era outra coisa.
O lugar tem uma força difícil de traduzir, de explicar. Uma presença especial, forte, sagrada, como se o tempo ali tivesse outra espessura. Fiquei em silêncio, como quem finalmente entende por que precisou chegar.
Curiosamente, a viagem ainda tinha outro movimento guardado para mim.
Saí quase correndo de Foggia rumo a Loreto. E, se no Monte precisei lutar para chegar, em Loreto fui recebida.
Andreas e Francesca estavam na estação, sorrindo, me chamando pelo nome, me pegando pela mão como quem acolhe alguém da família. Me levaram para a casa que alugavam, um espaço cheio de cuidado, e depois me guiaram a uma pizzaria ali perto. No dia seguinte, às oito da manhã, Andreas já estava de prontidão, preparando um café da manhã daqueles que aquecem a alma.
E então entendi.
Na casa de Miguel, precisei ser guerreira. Na casa da Mãe, fui filha.
Quando cheguei à Basílica de Nossa Senhora de Loreto (local que abriga três paredes da casa de Maria de Nazaré, misteriosamente transportada para aquele lugar)’, me emocionei de novo, mas era um choro diferente. Menos intenso, mais acolhido. Entrei quase por acaso na missa de Domingo de Ramos. Não estava nos planos, mas, como tantas coisas naquela viagem, simplesmente aconteceu. Fiquei ali por horas, sem pressa, como se o tempo tivesse aprendido a esperar.
À tarde, Andreas me levou de volta à estação. E lá fui eu, entre escadas intermináveis, mudanças de plataforma de última hora e aquela leve sensação de caos que já começava a me parecer familiar. No meio da correria, encontrei o trem para Firenze.
Cheguei a Florença no início da noite, e talvez tenha sido melhor assim. Porque a cidade, mesmo sob a luz suave do entardecer, já parecia demais.
Dizem que Florença pode provocar uma espécie de vertigem da beleza. E eu acredito. Há algo ali que transborda. Igrejas, esculturas, pinturas, ruas. Tudo parece carregado de uma intensidade estética que quase pede pausa. Visitei museus, caminhei sem rumo, me deixei atravessar pela cidade. E, aos poucos, fui entendendo que não era sobre ver tudo. Era sobre sentir o quanto fosse possível.
Depois de três dias, segui para Veneza.
Outra beleza, mas de um tipo diferente. Veneza tem algo de enigmático, quase melancólico. Seus becos, seus canais, sua atmosfera meio suspensa no tempo… há uma certa estranheza ali. É fácil se perder. E não apenas no sentido geográfico.
E, no fim, talvez seja isso que a Itália faz com a gente.
Ela encanta, acolhe, desafia. Mistura o sublime com o cotidiano, o belo com o imperfeito. Os italianos, aliás, são um reflexo disso: profundamente gentis, alegres, cavalheiros em muitos momentos… e, em outros, donos de um mau humor que chega a ser cômico. Humanos, intensamente humanos.
Voltei com a sensação de que não fiz apenas uma viagem.
Atendi a um chamado.
E, entre encontros inesperados, lágrimas e encantamentos, entendi que alguns caminhos não são escolhidos. São aceitos.
E, como toda boa travessia, houve também um capítulo à parte, talvez um dos mais curiosos: a comunicação.
Não domino idiomas. Carrego comigo um inglês e um francês técnicos, daqueles que servem até um certo ponto para leitura (com dicionário) de artigos e pesquisas, mas que tropeçam no dia a dia, principalmente, diante de um garçom apressado ou de uma informação urgente na estação. Antes de viajar, ainda arrisquei aprender o básico do italiano. O suficiente para cumprimentar, agradecer… e me confundir.
No dia a dia, foi quase um espetáculo à parte.
Eu entendia um pouco. Eles, nem sempre me entendiam. E, no meio da pressa, das plataformas mudando e das perguntas atravessadas, nascia um idioma completamente novo: uma mistura de inglês, italiano e um portunhol improvisado, que em certos momentos nem eu reconhecia. Teve vezes em que me peguei sozinha, repetindo frases, tentando decifrar o que eu mesma tinha acabado de dizer.
No entanto, de algum jeito, funcionava.
Ou quase sempre.
Houve também o episódio do sujeito que, muito solícito, se ofereceu para ajudar com minha mala. Solícito demais. Quando percebi a intenção, reagi no impulso, num desses surtos multilíngues: “no, no, no… você não combinou com io!”. E segui, firme, segurando minha própria bagagem e rindo por dentro da cena que eu mesma tinha acabado de protagonizar.
Foi, sem dúvida, uma grande aventura.
E, no meio de tanta mistura, de línguas, caminhos e sentimentos, ficaram as pessoas. Algumas por minutos, outras por horas, mas todas deixando pequenas pontes ao longo do percurso. Javier, Terezinha, Eugeni, Marina, Andressa, Glória, Giovanni, Andreas, Francesca, Nicolas, Alejandra, Matteo, Inês … e outros rostos, sem nomes, que agora habitam minha memória como sinais de atenção, cuidado em terras estrangeiras.
Porque, no fim, viajar também é isso: perceber que, mesmo longe, nunca se está totalmente só.
Voltei diferente. Não porque aprendi um idioma novo (embora, de certa forma, tenha aprendido), mas porque reforcei a compreensão de que o mundo se comunica para além das palavras: no gesto, no olhar, na intenção.
O livro que me acompanhou nessa travessia, “C.G. Jung – Seu Mito em Nossa Época”, revelou-se mais do que uma leitura — foi quase um guia silencioso. Jung fala do número 1, nosso ego pessoal, e do número 2, nosso inconsciente, nosso Self, o Eu mais profundo. E, aos poucos, fui percebendo quem fez essa viagem. Foi um encontro entre esses dois lados: o que decide e o que intui, o que planeja e o que se deixa conduzir.
E aquele voucher, que um dia pareceu apenas um prêmio inesperado, revelou-se exatamente o que era desde o início: um presente, no sentido mais inteiro da palavra.
Grazie, Unimed, pela oportunidade!
Grazie, filho, por ter desenhado cada passo desse roteiro e por ser meu guia, mesmo a distância.
Grazie a todos que cruzaram meu caminho.
Grazie, vida, pelos encontros.
E, sobretudo, grazie… por eu ter escutado o chamado.
Grazie mille.
POSTSCRIPTUM (P.S.)
Quando me perdi em Foggia e estava achando que não deveria continuar a viagem para Monte Sant´Angelo, meu filho me lembrou de que aquele era o ponto mais importante da minha jornada. A gruta de Miguel, o Arcanjo guerreiro de Deus, era o motivo de eu estar ali. E lembrou-me da história do gato: “Quando um gato cai de uma árvore, ele se solta de si mesmo. O gato fica completamente relaxado e pousa suavemente no chão. Mas se um gato estivesse prestes a cair de uma árvore e de repente decidisse que não queria cair, ele ficaria tenso e rígido, e seria apenas um saco de ossos quebrados ao pousar.
Da mesma forma, nos diz a filosofia do Tao: estamos todos caindo de uma árvore, a cada momento de nossas vidas. Na verdade, no momento em que nascemos fomos empurrados de um precipício e estamos caindo, e não há nada que possa parar isso.
Então, em vez de viver em um estado de tensão crônica, e se agarrar a todo tipo de coisa que na verdade está caindo junto com a gente – porque o mundo inteiro é impermanente -, seja como um gato!” E eu fui. Rsrsr. Eu agora sou (quase) um gato. Voltei com três resoluções: 1. Vou dominar um idioma estrangeiro; 2. Vou viajar mais; 3. Vou diminuir a bagagem. Levei uma mala média. Percebi que estava com o máximo que podia carregar, se tivesse levado algo a mais, já não conseguiria. Então, caiu a ficha que podia viajar mais leve. E isso não é só sobre bagagens e viagens.
















