O sistema de saúde brasileiro vive um momento de transformações: custos crescentes, regulação mais intensa e uma reconfiguração do papel do Estado pressionam operadoras e prestadores de serviço a repensarem suas estratégias. Para entender o que está mudando e o que fazer diante disso, conversamos com June Alisson Westarb Cruz, professor do Programa de Mestrado e Doutorado da PUCPR.
O sistema de saúde no Brasil já representa hoje cerca de 9,1% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, uma fatia que, por si só, justifica a atenção de gestores, reguladores e investidores. Mas o que chama mais atenção não é o tamanho do setor, e sim a velocidade das mudanças que o atravessam. As mudanças de cenário no mercado de saúde no Brasil acontecem de forma contínua e acelerada.
Para June Cruz, o setor é “extremamente dinâmico” e passa por “constantes e significativas mudanças”. Isso se reflete tanto na estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS) quanto na Saúde Suplementar, que hoje atende cerca de 53 milhões de beneficiários, aproximadamente 25% da população brasileira.
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“Juntos, o SUS e a Saúde Suplementar integram um sistema potente de atendimento. No lado do SUS, a crônica insuficiência econômica, mesmo com os investimentos recentes, pressiona os prestadores a níveis que eventualmente prioriza o acesso em detrimento da qualidade da assistência”, explica June Cruz.
Para se ter uma ideia, a Variação de Custos Médico-Hospitalares (VCMH) tem sistematicamente superado o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), pressionando toda a cadeia, de operadoras a prestadores. O envelhecimento da população, o peso dos medicamentos de alto custo e a constante incorporação de novas tecnologias são os principais vetores desse descompasso.
Operadoras e prestadores devem priorizar a coordenação do cuidado e o fortalecimento da atenção primária, consolidando a gestão do percurso do paciente. É fundamental aprimorar a governança de dados — com interoperabilidade, análises preditivas e indicadores de desempenho — para suportar decisões clínicas e financeiras, observando práticas de análise de custo efetividade
June Cruz
Se o SUS enfrenta a tensão histórica entre demanda crescente e orçamento limitado, o segmento privado tampouco está imune. As operadoras de planos de saúde vêm registrando sinistralidade elevada, o que tem levado a uma série de medidas defensivas: aumento de glosas, renegociação de contratos, descredenciamentos e intensificação da verticalização dos serviços.
Para os prestadores, o impacto é sentido diretamente. Atrasos nos pagamentos, necessidade de cumprir decisões judiciais relacionadas a obrigações que nem sempre lhes cabem e uma previsibilidade financeira cada vez mais estreita formam um quadro que exige respostas de gestão cada vez mais sofisticadas. Cruz resume bem essa realidade:
“Operadoras de planos de saúde e prestadores de serviços enfrentam pressões significativas: aumento contínuo dos custos assistenciais, elevada judicialização, exigência de conformidade com normas regulatórias rigorosas e demanda por atendimento ágil e eficiente, tudo isso agravado pela escassez e pelo custo elevado de profissionais qualificados e pela elevação da sinistralidade.”
O executivo ressalta que esse conjunto de fatores torna o setor desafiador em termos de geração de resultados, fluxo de caixa, capacidade de reinvestimento e valorização das equipes, exigindo estratégias cada vez mais integradas de gestão de custos, governança clínica, inovação operacional e mitigação de riscos legais.
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Nesse cenário de mudanças, tanto a saúde pública quanto a privada ajudam a diminuir a pressão sobre a outra. Enquanto o SUS precisa das operadoras para desafogar e conseguir oferecer atendimento de qualidade, o avanço dele também ajuda o setor privado a manter sua sustentabilidade:
“A saúde pública, em especial por meio do SUS, desempenha papel fundamental como provedor universal e regulador do sistema de saúde. O SUS atende a população brasileira em sua totalidade e é a fonte exclusiva de assistência para aproximadamente 70% dos cidadãos, além de ser responsável por mais de 90% da vacinação em território nacional. O SUS também funciona como plataforma estratégica para avaliação e negociação de tratamentos e tecnologias, influenciando acessibilidade, equidade e sustentabilidade do conjunto do sistema de saúde”, comenta June Alisson Westarb Cruz.
O peso crescente da jurisprudência
A pressão sobre prestadores e operadoras não vem apenas do mercado. O Judiciário também tem imposto ritmo acelerado de adaptações. A Edição 271 de “Jurisprudência em Teses” do Superior Tribunal de Justiça (STJ) consolidou obrigações relevantes: cobertura de parto de urgência, criopreservação de óvulos associada à quimioterapia, órteses cranianas e terapias multidisciplinares sem limitação de sessões para TEA e Síndrome de Down.
Embora essas decisões sejam dirigidas às operadoras, recaem operacionalmente sobre os prestadores, que precisam executar procedimentos imediatos sem garantia de reembolso imediato. Tramita no Congresso o Projeto de Lei nº 2.583/2020, que estabelece a Estratégia Nacional de Saúde, reforçando exigências de rastreabilidade e governança clínica em toda a cadeia assistencial. A inclusão da atenção humanizada como princípio expresso da Lei Orgânica da Saúde, pela Lei nº 15.126/2025, é mais um vetor que tende a influenciar decisões judiciais relativas à continuidade do cuidado e à qualidade técnica.
O que fazer diante desse cenário?
Diante de tanta turbulência, quais são as saídas? Cruz é direto: os prestadores que sobreviverão e prosperarão em 2026 são aqueles que investirem em visão institucional, gestão integrada e capacidade de antecipação regulatória.
Na prática, isso significa rever modelos de remuneração, fortalecer a governança clínica, aprimorar a documentação assistencial e estruturar processos internos capazes de garantir o cumprimento de ordens judiciais com agilidade. Qualificar as áreas jurídica e regulatória e desenvolver métricas sólidas de desempenho para sustentar negociações cada vez mais complexas com operadoras também figuram como prioridades.
Na Saúde Suplementar, Cruz aponta que as constantes mudanças regulatórias da ANS indicam uma tendência de intensificação nos temas de governança, gestão de riscos e indicadores de desempenho. A redução de atratividade para novos investidores e a diminuição de investimentos em pesquisa e desenvolvimento são sinais de alerta que o setor não pode ignorar.
Estarão mais bem posicionados os prestadores que investirem em governança clínica, conformidade regulatória e gestão integrada de custos. A modernização dos sistemas de saúde, tanto no SUS quanto na Saúde Suplementar, tende a ampliar a qualificação profissional e abrir espaço para quem apostar em inovação e qualidade técnica como pilares de crescimento sustentável.
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