Lidando com as emoções: A questão é QE

 Saber lidar com as emoções é fundamental para garantir sabor à vida, com atitudes e relacionamentos saudáveis

O distanciamento social e/ou isolamento social, provocou em muitas pessoas, um impacto nunca antes vivenciado. Colocou-nos contra a parede em vários aspectos e, para muitos, foi como se nos instigasse a nos perguntar: você é feliz? O que te faz realmente feliz? Angústias da existência foram potencializadas, seja em relação ao trabalho (ou à falta dele, como o desemprego, por exemplo), seja em relação à vida (satisfação ou insatisfação), relacionamentos gratificantes ou opressivos e até falta de relacionamentos.

Conversa ampla: Chorar faz bem

A higienização constante, a mudança de rotina, o home office, a escola em casa, o comércio fechado ou reduzido, a ameaça de doenças ou morte… tudo isso provocou medo, angústia ou até mesmo negação numa proporção gritante na sociedade.  O que fazer diante disso tudo? Como dar conta de novas e velhas angústias?

Talvez a pergunta ideal, poderia ser, onde devemos focar? Ou, para utilizar uma terminologia da neurociência: qual a ativação reticular ideal, neste momento, neste cenário em que estamos vivendo? Em seus treinamentos sobre Gerenciamento de Emoções, a psicóloga Ana Wilges destaca que saber lidar com nossas emoções nos ajuda, justamente, em situações como essa em que vivemos atualmente. Um cenário instável, repleto de incertezas e, portanto, de angústias.

A inteligência emocional

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país com o maior número de pessoas ansiosas do mundo. São 9,3%. Isso numa situação normal. Imaginem, agora, em meio à pandemia! Segundo Samanta Brucs e Rebeca Webster, da Kings College Of London, a partir do 11º dia de isolamento a saúde mental começa a se deteriorar, apresentando sinais de ansiedade, estresse e nervosismo. Estudos da UFRGS apontam que o número de pessoas afetadas emocionalmente é maior que o número de pessoas infectadas.

Como lidar com esse turbilhão de emoções e incertezas com os quais estamos tendo que conviver nesses dias? A inteligência emocional pode nos dar um caminho. “ Inteligência emocional é a capacidade de conhecer e entender os processos emocionais que ocorrem dentro de você, assim como os sentimentos dos outros e, a partir disso, gerenciar comportamentos e relacionamentos”, explica Ana.

Segundo a psicóloga, essa habilidade pode ser aprendida e serve de base para uma série de outras habilidades cruciais que influenciam no que fazemos e dizemos no dia a dia, tanto no ambiente profissional como no pessoal. Tem a ver com autocontrole e capacidade de adiar recompensas, mas diz respeito, também, antes de qualquer coisa, com a capacidade de sentir prazer com a vida, com os relacionamentos, com o dia a dia. Sentir-se bem, sentir-se feliz.

A importância do autoconhecimento

Trafegamos constantemente entre a zona de caos, de conforto e de aprendizado. Por isso é importante nos conhecermos para sabermos como lidar com as situações de forma a não nos prejudicarmos nem aos outros ao nosso redor, familiares, amigos e colegas de maneira geral.  Identificar onde estamos colocando a nossa atenção, o nosso foco, nos ajuda a avaliar as consequências e impactos de estar na zona de conforto, assim como destacar quais informações são relevantes para encontrar “saídas” da zona de caos e conseguir, por meio de troca com diferentes pessoas, diversificar as fontes de informação e perspectivas.

Sempre se falou da capacidade extraordinárias de nossas mentes. Ana lembra que a neurociência veio ratificar ainda mais essa visão. A neuroplasticidade de nosso cérebro permite que ele se adapte a mudanças por meio do sistema nervoso, de tal forma que é possível reaprender coisas, inclusive hábitos e emoções. É isso que amplia a capacidade de lidarmos com elas. A competência inteligência emocional implica saber, por exemplo, “lidar com as pressões, obstáculos e mudanças associadas ao trabalho, resistindo a possíveis situações de frustração com otimismo e positividade”. E isso é possível com consciência e treino.

Emoções básicas como alegria (satisfação), tristeza (perda de algo), raiva (limite/invasão) e medo (risco/perigo) podem ser trabalhadas de modo a serem compreendidas e utilizadas a nosso favor. Afinal, o objetivo de cada uma delas é sempre positivo: a autopreservação. O modo como a encaramos e a utilizamos é que pode não ser tão positivo assim.  Segundo a psicóloga, as emoções são respostas que criam reações bioquímicas em nosso corpo, chegando a alterar nosso estado físico; porém, os sentimentos representam reações e associações às emoções e são influenciados por fatores como experiências pessoais, memórias e crenças.  E é aqui que podemos exercer nosso controle.

“Não precisamos eliminar as emoções e pensamentos negativos, mas aceita-los e nos desvencilhar de padrões que nos prejudicam cultivando hábitos que trazem o que há de melhor em nós mesmos”, explica Ana.  A inteligência emocional permite que tenhamos competência pessoal e competência social. A primeira, no campo do eu, gera autoconsciência e autogestão. A segunda, é o campo do outro, permite consciência social e gestão de relacionamentos.

Redes neurais

De acordo com Ana Wilges, estudos recentes da neurociência apontam duas redes neurais, principais, em nosso cérebro. A analítica (RA) e a empática (RE). Uma facilita a informação e análise. Ou seja, entender as coisas que nos acontecem, resolver problemas e tomar decisões. A outra, nos permite a relação com pessoas e informações qualitativas. Ou seja, uma abertura maior a novas ideias e pessoas diferentes. Ainda, segundo Ana, a facilidade de ativar ou alternar essas redes depende em parte de nosso autoconhecimento, nossa prática intencional e decisão consciente. Para sentir-se bem, consigo mesmo e com o outro, e ser feliz é preciso decisão, foco e esforço.  Coisas como reduzir quantidades de infoxicão, manter atividade física e lazer e cultivar as relações familiares e de amizade são receitas que continuam infalíveis, ainda mais agora em tempos de Covid-19, que o desafio é se reinventar. 

Como utilizar as duas redes?

  1. Esteja ciente. Qual é a sua rede neural “preferencial”? – Estou pensando em fatos e soluções concretas, ou estou refletindo de forma mais aberta e criativa sobre as possibilidades?
  2. Exercite a rede neural que não é a preferencial – Conclua pelo menos uma conversa de 15 minutos todos os dias para entender o outro, não resolver um problema ou dar conselhos. Foco no outro.
  3. Exercite o equilíbrio entre as redes – Dominar a habilidade de estar mais consciente de quando estar atuando na rede analítica ou empática.

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