Agenda dividida entre obrigações na cooperativa, hospitais, clínicas, consultórios, instituições de ensino e, em vários casos, prestação de serviços por meio de pessoa jurídica. Identificou-se com essa rotina que concilia diferentes formas de atuação, com multiplicidade de vínculos profissionais? Então, pode ser que, além de oportunidades, você também esteja acumulando pagamentos ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
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Muitos médicos no Brasil enfrentam uma questão previdenciária que passa despercebida. Por atuar em mais de um local, o profissional pode acabar contribuindo acima do teto mensal máximo previsto pelo INSS. Isso porque cada fonte pagadora recolhe a contribuição previdenciária de forma independente, sem considerar o valor já recolhido por outro empregador.
“Esse excesso não traz qualquer benefício adicional no futuro e pode representar um pagamento indevido no decorrer de vários anos”, alerta a advogada Fernanda Silveira dos Santos (OAB/PR 45.015), especialista em Direito Previdenciário e sócia do escritório SSantos Advogados. Quando a soma resulta em pagamento acima do permitido por lei, o contribuinte tem direito ao reembolso desses valores pagos indevidamente. Desde 1º de janeiro de 2026, o salário de contribuição (valor sobre o qual o trabalhador contribui para o INSS) não pode ser menor que R$ 1.621 ou maior que R$ 8.475,55.

Fernanda Silveira dos Santos destaca a importância
do planejamento previdenciário para evitar
perdas financeiras durante a carreira médica
Quem tem direito ao reembolso
Todo médico que, em algum momento da carreira, tenha contribuído ao INSS acima do teto pode ter direito ao reembolso. Isso inclui profissionais com múltiplos vínculos simultâneos, bem como aqueles que contribuíram ao mesmo tempo como pessoa física e pessoa jurídica. “A legislação previdenciária permite a recuperação dos valores pagos indevidamente nos últimos cinco anos, contados a partir do pedido. Por isso, o tempo é um fator importante: quanto antes o médico analisar sua situação, maiores são as chances de recuperar valores relevantes”, orienta a advogada.
Para saber se há valor pago acima do teto, o primeiro passo é a análise do Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS), documento que reúne todo o histórico contributivo do segurado. É a partir dele que se verifica se, em determinados meses, a soma das contribuições ultrapassou o teto vigente à época. “Com essa identificação, é feito o cálculo dos valores pagos indevidamente e o pedido pode ser apresentado ao INSS pela via administrativa e/ou judicial. Embora não seja obrigatório, o acompanhamento de um advogado especializado em Direito Previdenciário é recomendado, já que o procedimento envolve cálculos técnicos e correta fundamentação legal”, aconselha Fernanda.
Uma dúvida comum entre os médicos é se o reembolso pode reduzir o valor da aposentadoria ou de outros benefícios previdenciários. A resposta é clara: não. “Isso porque as contribuições feitas acima do teto não aumentam o benefício previdenciário. O teto funciona como um limite máximo, tanto para contribuição quanto para o valor do benefício. Na prática, a restituição apenas corrige um pagamento que excedeu o limite legal, sem qualquer prejuízo ao segurado”, esclarece a especialista.
De acordo com Fernanda, o maior obstáculo ainda é o desconhecimento. Muitos médicos acreditam que pagar mais ao INSS resultará em uma aposentadoria maior, o que não se confirma na prática. Outro ponto recorrente é a falta de acompanhamento do histórico contributivo no decorrer da carreira, o que pode levar à perda do prazo legal para restituição. Sem uma análise adequada, o profissional também pode ter dificuldade em identificar exatamente onde ocorreu o pagamento indevido, especialmente quando há muitos vínculos simultâneos.
A cirurgiã torácica Cristiane Mignot Meyer, cooperada da Unimed Curitiba, sempre trabalhou com múltiplos vínculos, contribuindo com o INSS. “Ao saber que as contribuições acima do teto não são consideradas no cálculo da aposentadoria, ingressei com a ação e recebi a restituição dos valores pagos a mais, de forma segura e transparente”, conta.
De acordo com a advogada, a principal orientação é acompanhar regularmente o CNIS e manter controle sobre os vínculos ativos e os valores recolhidos mensalmente. Revisar contratos, compreender a forma de remuneração e buscar orientação previdenciária preventiva também são medidas importantes. “Planejar a vida previdenciária com antecedência ajuda a evitar pagamentos desnecessários e contribui para uma aposentadoria mais tranquila e previsível”, resume Fernanda.



































