Por que a IA virou refúgio emocional?

Em um mundo exausto, quais são os riscos dessa troca silenciosa de relacionamentos e até de terapias pela IA?

a busca por apoio emocional em plataformas
A busca por apoio emocional em plataformas cresce diante da solidão e de acesso limitado a atendimento profissional

Disponível a qualquer hora, sem fila de espera, sem custo financeiro elevado e sem o risco de julgamento. Em poucos cliques, a inteligência artificial oferece escuta, acolhimento e respostas rápidas para quem sofre. Em um mundo cansado, solitário e impaciente, a promessa soa quase perfeita — e explica por que cada vez mais pessoas têm recorrido à inteligência artificial como substituta de psiquiatras e psicólogos. Entretanto, porque a IA virou refúgio emocional?  O que significa buscar apoio emocional numa máquina?

Em 2025, o aconselhamento terapêutico e a busca por companhia emocional se tornaram o principal motivo de uso de ferramentas de IA, segundo levantamento da Harvard Business Review. Mais do que uma curiosidade tecnológica, o fenômeno revela algo profundo sobre a sociedade contemporânea: solidão, imediatismo e dificuldade de sustentar vínculos. Para milhões de pessoas, a inteligência artificial passou a ocupar um espaço delicado: o do cuidado emocional.

A crise do cuidado e a sedução do imediato

A decisão de procurar apoio emocional em uma máquina não nasce do nada. Ela é resultado de um cenário conhecido: consultas caras, longas filas no sistema público, escassez de profissionais em algumas regiões e um estigma que ainda faz da saúde mental um tema difícil de assumir. A isso se soma um traço cultural dominante: a expectativa de soluções rápidas. A psiquiatra Giovana Pellissari observa que os chatbots se encaixam perfeitamente nesse imaginário. Para ela, a popularidade dessas ferramentas não é acidental, mas sintomática.

Por que a IA virou refúgio emocional?
Giovana alerta que a IA não pode ocupar o lugar central do cuidado

“Os modelos de IA correspondem muito às expectativas do nosso tempo: ter alguém disponível a qualquer momento, poder levar o terapeuta no bolso, acessar de qualquer lugar, sem precisar se deslocar ou entrar numa relação terapêutica, que é, por definição, mais difícil de se construir do que conversar com um chatbot”, afirma.

Pesquisa do Talk Digital aponta que uma em cada dez pessoas já usa chatbots como amigo ou conselheiro emocional. Em um cotidiano marcado por relações frágeis e pouco tempo para escutar — ou ser escutado —, a promessa de atenção constante ganha força.

Empatia que soa real, mas não é

A sensação de acolhimento oferecida pela inteligência artificial não vem de compreensão humana, e sim de engenharia linguística. Os sistemas são treinados para identificar padrões associados à dor emocional e responder de forma coerente, fluida e empática — ao menos na superfície.

Esses sistemas funcionam prevendo a próxima palavra com base em gigantescos bancos de dados. Eles simulam escuta, acolhimento e interesse — sem compreender, de fato, o sofrimento apresentado.

“Eles conseguem captar o tom e a intenção da mensagem, mas não raciocinam clinicamente. Ajustam respostas com base em padrões, não em compreensão”, explica Victor Hugo de Albuquerque, professor da Universidade Federal do Ceará, em entrevista à Agência Brasil em 2025.

A fluidez da linguagem, no entanto, tende a enganar, uma vez que as respostas bem escritas soam automaticamente confiáveis.

Para o pesquisador Murilo Karasinski, pós-doutor em bioética e especialista em IA aplicada à saúde, essa confiança não pode ser explicada apenas pela sofisticação tecnológica. Ela é, sobretudo, cultural.

Por que a IA virou refúgio emocional?
Karansiski; limites claros para que a tecnologia amplie o acesso sem causar danos

A IA entrega aquilo que o presente valoriza: disponibilidade total, previsibilidade e controle. Ela não confronta, não frustra e não exige negociação emocional — elementos inevitáveis nas relações humanas.

“A inteligência artificial começa a ocupar um espaço real de apoio no cuidado emocional. Pode orientar, sugerir estratégias simples de regulação emocional e ajudar pessoas a dar o primeiro passo na busca por ajuda”, explica.

Esse papel, segundo ele, pode ter valor social em um contexto de escassez de profissionais e altos custos. O problema surge quando essa função de apoio passa a ser confundida com tratamento.

“A IA não possui experiência humana, sensibilidade clínica ou responsabilidade profissional. Ela organiza padrões de linguagem e produz respostas plausíveis com base em dados”, defende.

Ampliar acesso sem provocar danos

Sob a ótica da bioética, o avanço dessas ferramentas impõe uma tensão clara entre o bem e o mal. “De um lado, a beneficência, que aponta para o potencial de ampliar o acesso à informação e ao cuidado. De outro, a não maleficência, que lembra que tecnologias com aparência de escuta terapêutica podem gerar respostas inadequadas se forem usadas como substitutas do acompanhamento profissional”, comenta.

Karasinski chama atenção para o fato de que tecnologias com aparência de escuta terapêutica podem causar danos se forem utilizadas como substitutas do acompanhamento profissional. A questão ética central não é barrar a inovação, mas estabelecer limites claros.

A transparência entra aí como requisito fundamental. O usuário precisa saber que está interagindo com um sistema automatizado — e não com um profissional de saúde —, além de compreender os limites da ferramenta e os riscos envolvidos.

O pesquisador destaca que os usuários precisam ser informados sobre quais dados são coletados, como são armazenados, se podem ser usados para treinamento de sistemas e quem tem acesso a eles.

No Brasil, o crescimento do uso terapêutico — ou pseudoterapêutico — da IA já mobilizou o Conselho Federal de Psicologia (CFP). A conselheira Maria Carolina Roseiro contou, em entrevista à Agência Brasil no ano passado, que as consultas sobre o tema chegam praticamente toda semana.

“Recebemos dúvidas tanto sobre ferramentas criadas com essa proposta quanto sobre tecnologias que não foram desenvolvidas para isso, mas que os usuários passam a utilizar como terapia”, afirmou na reportagem.

O vínculo continua insubstituível

No fim das contas, o consenso entre psicólogos, psiquiatras e pesquisadores é claro: não existe cuidado em saúde mental sem vínculo.

“O sintoma não é um checklist. Uma mesma palavra pode significar coisas completamente diferentes dependendo do paciente. Sem vínculo e escuta qualificada, isso se perde”, diz Giovana.

A inteligência artificial não percebe silêncio, postura, contradição ou ambivalência — elementos centrais do cuidado clínico.

A IA pode ser apoio. Pode ser ponte. Pode ser ferramenta. Mas não é terapeuta.

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A busca por apoio emocional em plataformas cresce diante da solidão e de acesso limitado a atendimento profissional

Quando o ‘terapeuta” erra – e o custo é alto

Quando a inteligência artificial ocupa o lugar do cuidado terapêutico, o risco deixa de ser teórico. Os riscos da substituição de especialistas em saúde mental por IA ficaram evidentes em casos extremos. Em 2024, o adolescente norte-americano Sewell
Setzer tirou a própria vida após meses de interação com um chatbot do aplicativo Character.AI. Sua mãe, Megan Garcia, relatou que o filho desenvolveu uma dependência emocional progressiva, passou a se isolar socialmente e a preferir a relação virtual à
vida real. Casos semelhantes vieram à tona em reportagens internacionais: uma jovem ucraniana, com histórico de sofrimento psíquico, recebeu orientações explícitas sobre suicídio; uma adolescente americana morreu após interações prolongadas com um bot que simulava vínculo emocional inadequado. Os episódios resultaram em processos judiciais envolvendo as empresas de tecnologia responsáveis.

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Por que a IA parece entender, mas não entende?

Do ponto de vista técnico, os modelos de linguagem funcionam prevendo qual sequência de
palavras tem maior probabilidade de formar uma resposta coerente em determinado contexto.

“Isso significa que a IA não compreende o sofrimento humano nem interpreta experiências da mesma forma que um profissional da saúde”, explica o professor Murilo Karasinski.
Ainda assim, suas respostas podem soar acolhedoras e bem construídas. Essa fluidez, segundo ele, é justamente o que gera risco.

“Uma resposta pode soar empática e bem estruturada, mas ainda assim não ser adequada para determinada situação clínica”, afirma. Em saúde mental, o contexto individual é decisivo — e não pode ser reduzido a padrões estatísticos. A linguagem pode transmitir segurança, mesmo quando o sistema opera apenas com probabilidades, não com
julgamento clínico. Para Karasinski, esse efeito se intensifica porque os
sistemas foram desenhados para simular diálogo humano.

“Eles utilizam expressões de acolhimento, continuidade temática e referências ao que foi dito anteriormente”, explica.

Esse formato cria a sensação de presença e favorece a antropomorfização — a tendência humana de atribuir intenções e emoções a sistemas automatizados.

“Quando o sistema utiliza frases que sugerem compreensão emocional, muitos usuários passam a interpretar a interação como se houvesse empatia real do
outro lado da conversa.”

O risco, alerta, é duplo: expectativas irreais de cuidado e a formação de vínculos emocionais com sistemas que não têm capacidade de compreender plenamente a situação do usuário nem responsabilidade pelas consequências de suas respostas.

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