Venci a Covid-19. E agora, como devo me cuidar?

Após superar a batalha contra o coronavírus, é hora de focar na recuperação total e nos cuidados pós-covid

Para muitas pessoas, o impacto da Covid-19 em suas vidas não termina com o diagnóstico de cura. Segundo dados divulgados no mês de abril pelo Ministério da Saúde, 10 milhões de brasileiros permanecem com algum sintoma da doença, como cansaço e perda de olfato. Situação essa que exige cuidados.

Segundo Rodrigo Bagatelli, médico da família do Centro APS da Unimed Paraná, a maioria das pessoas não terá problemas após a cura ou, se tiverem, apresentarão sintomas leves que irão melhorar com o passar dos dias. Entretanto, quem enfrentou quadros intensos ou apresenta alto risco de complicações deve ser observado de perto.

Rodrigo Bagatelli
O médico Rodrigo Bagatelli

“Nos casos mais severos, é maior a chance de os pacientes terem repercussões na saúde que possam ser modificadas com medicações. É claro que mesmo os casos leves podem enfrentar algum problema no futuro próximo, em torno de um a três meses, mas isso deve ser particularizado com o médico que acompanha o caso”, recomenda.

Rotina de cuidados pós-Covid-19

Ele explica que alguns pacientes, mesmo recuperados, ainda sentem perda da força muscular, fadiga, falta de ar e alteração no olfato, entre outros efeitos. Bagatelli alerta que a recuperação da força física e da capacidade respiratória deve ser gradual, e que alguns casos podem exigir o tratamento multidisciplinar, com auxílio médico e acompanhamento nutricional, além de sessões de fisioterapia.

“Os quadros mais graves demoram mais tempo para se recuperar da fraqueza e do fôlego, mas não tenho visto muitos casos que persistem por mais de alguns meses. Pacientes idosos podem sofrer mais e, dependendo da gravidade, podem sentir sua respiração e vigor diminuídos por mais tempo”, complementa o médico.

Precaução

A fisioterapeuta Tatiele Cavalheiro

A fisioterapeuta Tatiele Cavalheiro, que também atua no Centro APS da Unimed Paraná, acrescenta que para as pessoas que apresentaram sintomas moderados ou graves, ou que foram hospitalizadas, a indicação da fisioterapia é primordial e imediata.

“O processo de reabilitações pulmonar e motora deve iniciar logo após a alta do paciente, quando serão realizados exercícios para a recuperação da capacidade pulmonar e o fortalecimento da musculatura respiratória, além de exercícios físicos, promovendo o fortalecimento muscular global, a melhora da amplitude de movimento, o equilíbrio e a postura”, aconselha.

Para preservar a saúde da pessoa em recuperação, Tatiele sugere que o acompanhamento seja feito de forma remota, o que evitaria o contato com outros pacientes e o risco de reinfecções. Nesses casos, o profissional faz a orientação dos exercícios respiratórios e físicos por meio de fotos, vídeos ou manuais para que o paciente possa reproduzir em casa. Veja algumas dicas:

Movimento

cuidados pós-covid - Tatiele Cavalheiro
Tatiele durante atendimento na APS

Depois da avaliação médica e fisioterapêutica, o paciente pode dar início a atividades de baixa intensidade, como caminhadas curtas e alongamentos, sempre associados aos exercícios respiratórios. Superada a fase inicial, a pessoa irá progredir para outras atividades que exijam mais esforço.

“Em seguida, o foco são exercícios de resistência, como musculação e natação, até sentir-se capaz de retornar às atividades diárias pré-covid. Sempre relatando ao fisioterapeuta qualquer dificuldade, falta de ar e frequência cardíaca anormais ou fadiga excessiva. Lembramos que a inatividade é um grande fator de risco, mas respeite seus limites!”, avisa Tatiele.

Fundamental

Outro item essencial, e não apenas na fase de recuperação, é a alimentação. A nutricionista Vanessa Ceccatto ressalta que uma alimentação equilibrada, rica em alimentos antioxidantes, fornece suporte no processo inflamatório e para o sistema imunológico.

Ela ainda destaca que o cuidado nutricional também abrange a higienização correta dos alimentos, e a qualidade da alimentação, que vão influenciar a recuperação do paciente.

Vanessa Ceccato
A nutricionista Vanessa Ceccatto

“Uma alimentação saudável ajudará a manter ou recuperar sua saúde e manter seu sistema imunológico em melhores condições. Entretanto, não existe um alimento isoladamente que aumentará sua imunidade”, adverte.

Uma dica da nutricionista é que caso a pessoa apresente cansaço/fadiga para se alimentar, ela faça a opção por alimentos mais macios e que exijam menos mastigação, como sopas, purês e vitaminas. O consumo de água deve ser de pelo menos dois litros no decorrer do dia.

“O uso de suplementos nutricionais deve ser apenas para casos indicados pelo nutricionista e o tipo e a quantidade do suplemento será de acordo com a necessidade individual de cada paciente. Portanto não faça uso de suplementos de vitaminas e minerais por conta própria, pois o excesso de alguma delas podem levar à intoxicação”, esclarece.

Ela acrescenta que, para minimizar o risco de contaminação por meio dos alimentos, é necessário que antes de armazenar as compras, as embalagens sejam higienizadas com água e sabão, álcool 70% ou solução clorada. Já frutas, verduras e legumes devem ser retirados das embalagens originais, higienizadas em água corrente e deixadas de molho em hipoclorito de sódio, e armazenadas dentro da geladeira em recipientes plásticos com tampa ou sacos próprios para refrigeração.

Emocional

Os cuidados pós-Covid vão além dos aspectos físicos, existe ainda a sequela emocional, que o médico Rodrigo Bagatelli considera a mais difícil de lidar. Ele explica que pessoas que passaram por quadros graves se sentem fragilizadas em relação à sua saúde e lidar com a possibilidade de vir a falecer ou ter que ser levado para um tratamento crítico como a UTI, pode deixar o paciente e a família muito abalados.

“Tenho atendido pessoas com quadros de ansiedade muito intensos, que imitam o que chamamos de Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Esse transtorno mental ocorre com vítimas de eventos graves que têm a sensação de estarem revivendo o trauma. É como nos filmes em que o soldado volta para casa, mas eventualmente ao ouvir barulhos altos, joga-se no chão e acha que está sendo atacado, ou tem sonhos frequentes com as cenas e situações vivenciadas na guerra. Sim… têm sido uma guerra e as pessoas estão sentindo isso”, ressalta.

Leia também: Estudo mostra sequelas da Covid-19 mesmo em pacientes sem comorbidades

Vanessa alerta que baixas concentrações de serotonina no cérebro podem contribuir para o aumento da ansiedade e depressão. No aspecto nutricional, alimentos fontes de triptofano, que promovem a síntese de serotonina e melatonina, desempenham papel importante na regulação do humor e da ansiedade. Por isso, invista em peixes, laticínios, aveia, banana, kiwi, castanhas e sementes e chocolate amargo, que são fontes de triptofano, além de chás calmantes, como camomila e melissa, e evite bebidas estimulantes como café, chá preto, chá verde, energéticos.

“Aposte também em atividades de lazer e meditação para relaxar e cuide do seu sono!”, sugere a nutricionista.

Exercícios para melhorar a capacidade respiratória pós-Covid

Antes de iniciar, é importante que você esteja em um local tranquilo e confortável. Separe todos os itens que você precisará para executar os exercícios de maneira segura e eficaz, concentre-se na sua respiração e também na posição do seu corpo em cada uma das posições. Caso sinta qualquer desconforto, interrompa a prática e informe ao seu médico.

Confira quatro sugestões para realizar três vezes ao dia.

1. Expiração no copo com água

Sente-se em uma cadeira confortável, segure o copo com uma das mãos e o canudo com a outra. Puxe o ar pelo nariz profundamente, enchendo o peito e soltando o ar pelo canudo lentamente, fazendo bolhas na água.

2. Enchimento de balão

Sente-se em uma cadeira e segure o balão com as duas mãos. Encha os pulmões, puxando o ar pelo nariz profundamente e soprando todo o ar para dentro do balão.

3. Enchimento de saco plástico

Sente-se em uma cadeira e segure o saco plástico com as duas mãos. Encha os pulmões pelo nariz profundamente e sopre todo o ar para dentro do saco plástico, até enchê-lo por completo.

4. Expiração com freno labial

Sente-se em uma cadeira, encha os pulmões pelo nariz profundamente e solte o ar mantendo os lábios encostados, com o objetivo de bloquear ligeiramente a passagem do ar.

Obs.: Para conferir esses exercícios e outros, com ilustrações, acesse o site da revista Ampla: https://revistaampla.com.br/exercicios-de-respiracao-para-quem-teve-covid-19/

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