Memórias da taça

Costantino Costantini conta o que há de mais bonito em sua história de amor com os vinhos, das lembranças de infância aos prêmios conquistados

médico
o médico Constantino

Mendoza é mundialmente reconhecida por sua tradição na produção de vinhos. O clima seco, a grande amplitude térmica e a irrigação com água do degelo da Cordilheira dos
Andes criam condições ideais para o desenvolvimento das videiras na região argentina. No entanto, foi na província vizinha de San Juan, situada a cerca de 140 quilômetros
dali, também favorecida por um terroir privilegiado e reconhecida pela produção de vinhos Syrah, que nasceu o médico cardiologista Costantino Roberto Costantini, cooperado da Unimed Curitiba, cuja relação com o vinho marcaria toda a sua vida.

Depois de seu avô italiano, de Ascoli Piceno, dedicar a vida a plantar uvas e fazer vinhos, também seu pai seguiu esse caminho ao comprar um terreno e começar a sua própria plantação: “Ele começou com 10 hectares e chegou a 80. Eu cresci nesse sítio. Todos os fi ns de semana da minha infância e adolescência eu estava lá. Era uma terra seca, onde
a água só chegava por canais de degelo da cordilheira a cada 10 ou 15 dias. Eu vi de perto a alegria de ver a videira crescer e o drama do calor intenso no verão. Vi a preocupação no
rosto do meu pai com a falta de água e carreguei os traumas dele com o granizo, que uma vez destruiu todo o trabalho da vida do meu avô. Fui criado ouvindo minha avó rezar
fervorosamente a cada tormenta, pedindo aos céus que o granizo não caísse”, relembra Costantini.

Foi nesse sítio em Angaco, San Juan, no meio de todo esforço e emoção familiar, que nasceu o seu primeiro e verdadeiro amor pela terra e pelas videiras. Aos 12 anos de idade, Costantini já experimentava o vinho, misturado com um pouco de soda ou água, como era costume na época, para que os mais jovens também pudessem participar dos momentos em família. Sobre os rótulos mais memoráveis desse tempo, o médico explica que o sabor mais marcante em suas lembranças é, na verdade, o da bebida artesanal: “Naquela época, o vinho ‘de grife’ não era um costume; as famílias compravam o vinho comum em garrafões de 5 litros. Como meu pai cedia e vendia uvas para os amigos produzirem, eles sempre nos devolviam algumas garrafas especiais. Meu pai engarrafava aquilo com orgulho, guardava, e nós íamos tomando e celebrando a vida ao longo do ano”.

Apesar de San Juan ser famoso por seus vinhos brancos, o paladar e o coração do médico sempre foram muito atraídos pelos tintos. A preferência, que inclusive é compartilhada com a esposa, é por vinhos com presença, encorpados e muita cor: “Historicamente, sempre fui muito voltado ao Cabernet Sauvignon. No entanto, a vida nos ensina a degustar novas possibilidades, e com o tempo aprendi a apreciar e a entender outras variedades, como o próprio Malbec.”

“A vida nos ensina a degustar novas possibilidades”
Costantino Costantini

Curiosamente, Costantini nunca foi a uma dessas degustações formais de vinhos por acreditar que o vinho não é teoria, e sim emoção e paladar: “Podem colocar na sua frente o vinho mais reverenciado e caro do mundo, mas se ele não tocar o seu paladar, de nada serve.” Para ele, um bom vinho se define no momento em que você dá o primeiro gole e a sua alma diz: eu o tomaria de novo.

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O sabor das lembranças

Para muitos apreciadores de vinho, cada taça carrega também uma lembrança. Há aromas e sabores capazes de verdadeiras viagens no tempo, seja para lugares, para um encontro em família ou para uma celebração marcante. Com Costantino Costantini não foi diferente. Entre as lembranças especiais está um vinho argentino que cruzou o seu caminho em um cenário completamente inusitado, em uma viagem para a Suíça, onde palestrou em um congresso.

A lembrança é tão vívida que o médico sabe de cor a data: “Era 5 de janeiro, estava nevando, um frio cortante. Fui convidado por executivos para jantar num restaurante argentino no subsolo de uma galeria. Quando abri a carta de vinhos, vi um rótulo argentino custando mais de 500 euros na época! Era o Nicolás Catena Zapata. Eu fiquei perplexo, porque nunca tinha visto aquilo na Argentina. E a verdade é que, na época, ele não existia no nosso mercado interno, era feito apenas para exportação. O diretor da empresa pediu duas garrafas para celebrar o sucesso da minha apresentação. Quando provei, foi a primeira vez que senti um vinho totalmente diferente, que tomou conta do meu paladar de uma forma inesquecível”.

Homenagem que deu frutos

Há 25 anos, quando seu pai ainda era vivo, o cardiologista tomou uma decisão que veio do coração: fazer uma homenagem a ele. Trouxe, então, variedades de uvas de San Juan — Tannat e Syrah — e decidiu plantar no seu próprio sítio, que fica em Porto Amazonas, aqui no Paraná: “As videiras começaram a se adaptar e a crescer. Com a ajuda de um grande amigo e enólogo que me acompanha até hoje, o Raúl Menegazzo, fomos reproduzindo essas cepas com muita dedicação. Depois, unimos-nos aos talentosos rapazes da Vinícola Franco-Italiano, em Colombo, que aceitaram produzir o vinho com as nossas uvas”. Para manter a história de seu pai viva, o rótulo foi carinhosamente batizado de Angaco, que é o nome do departamento em San Juan onde ficava o sítio da sua infância.

Um tempo depois, um amigo de San Juan inscreveu o Syrah e o Cabernet de Costantini em um concurso às cegas, na Argentina. Com muita emoção, conquistou a medalha de ouro justamente em San Juan, a terra por excelência do Syrah: “Quando chamaram para entregar o prêmio, as pessoas se olhavam sem entender: ‘Quem são esses brasileiros? Que vinho brasileiro é esse, Angaco?’. Foi um dos momentos mais marcantes para mim”. E não parou por aí: recentemente, a dupla criou um blend das duas uvas e novamente foram premiados com medalha de ouro, desta vez na França. Para esse apaixonado por vinhos, isso é a prova de que mesmo com o clima úmido que temos por aqui, quando a plantação é feita com amor e dedicação, a terra te devolve surpresas maravilhosas. Um brinde a isso.

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