Mudar o hábito muda uma história

O corpo quer movimento, mas o cérebro quer poupar energia. Como agir, na prática, para equilibrar essa conta?

Moulin e Atalla: Enquanto o corpo busca movimento, o cérebro quer poupar energia, obrigando-nos a realizar escolhas conscientes
Enquanto o corpo busca movimento, o cérebro quer poupar energia, obrigando-nos a realizar escolhas conscientes

Você já se perguntou, provavelmente, o porquê é tão difícil mudar um hábito negativo. Como, por exemplo, vencer o sofá quando seria necessário fazer uma atividade física, escolher alimentos saudáveis no lugar de doces e usar mais a escada em vez do elevador….. mas você já parou para pensar sobre o que é, de fato, um hábito? E como é possível nosso corpo ser totalmente preparado para o movimento, mas nosso cérebro atuar como um grande “poupador de energia”? Essas indagações foram o tema da plenária “A cura começa no reconhecimento e desistência do que adoece – A multicasualidade das doenças”, que trouxe Fabiano Moulin e Márcio Atalla, sob moderação dos diretores de Mercado e Intercâmbio, Durval Francisco dos Santos Filho, e de Saúde, Faustino Garcia Alferez, da Unimed Paraná.

Talvez tudo comece na forma como enxergamos a saúde. Para muitos, ela é a ausência da doença, como se felicidade fosse ausência de tristeza, e dinheiro ausência de pobreza. “Com exceção da saúde, nós olhamos para todos os outros conceitos e entendemos que são errados. Afinal, não basta não estar triste para se sentir feliz. Contudo, quando o assunto é saúde, a percepção é outra, o que a torna um conceito negativo”, pontuou Fabiano Moulin, que é neurologista e certificado internacionalmente pela Academia Americana de Medicina do Estilo de Vida.

Os hábitos, por sua vez, normalmente são motivo de irritação para o ser humano: ficamos bravos, queríamos mudar, mas ignoramos o motivo dele existir. Conforme Moulin, o “hábito nada mais é do que uma resposta satisfatória para um problema recorrente do seu dia a dia.” Ou seja: os hábitos que construímos são uma forma do nosso cérebro poupar energia para o que, teoricamente, importaria. É um equilíbrio eterno entre sobrevivência e adaptação, pois nosso organismo foca apenas em sobreviver e reproduzir, enquanto a espécie tem o desafio de se adaptar às mudanças ambientais. “É mentira que somos preguiçosos por natureza. Somos poupadores. Contudo, basta perceber que o benefício é maior que o custo, que o esforço é feito. O que evitamos é o desperdício.”

Parece complexo, mas, de acordo com o neurologista, é necessária uma mudança de percepção, principalmente em relação à forma como usamos nossa atenção no dia a dia. Se, diariamente, sua atenção é voltada por horas às telas, por exemplo, sem um benefício real, no fim do dia você vai se sentir cansado e desgastado, sem conseguir tolerar mais nada.

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“Saúde não é acidente. Colhemos o que plantamos”
Fabiano Moulin

Mudar o hábito muda uma história
Moulin: Ambientes e situações que reforçam a sensação de escassez deixam-nos menos conscientes

“Vivemos em um mundo que acentua o custo da maioria das tentativas de mudança, tornando o hábito, mesmo que ruim, mais benéfico para o cérebro do que o esforço para mudá-lo”.
Ambientes e situações que reforçam a sensação de escassez, incertezas, falta de tempo, fadiga, adoecimento mental, carga cognitiva e de informação deixam-nos menos conscientes. Nesse sentido, o neurologista aconselha: tente ter mais atenção aos lugares em que você investe sua energia. Qual é o benefício, por exemplo, em rolar o feed por horas? “Saúde não é acidente. Colhemos o que plantamos. Dessa forma, não basta apenas saber que é preciso mudar, é necessário agir e buscar ter mais consciência e menos julgamento.”

Enquanto o cérebro atua como um poupador, o corpo, no entanto, é preparado para o movimento. Mas, ainda assim, 68% dos brasileiros estão acima do peso. “Só a informação não é sufi ciente para ter um estilo de vida legal. Nós nunca tivemos tanta informação e ferramentas como hoje, mas os números vão para o lado contrário”, reforça o professor de Educação Física com pós-graduação em nutrição e especializado em qualidade de vida, Márcio Atalla.

Além dos fatores fisiológicos, a sociedade contemporânea vive outro desafio: somos a primeira geração que precisa colocar o movimento no dia a dia de forma consciente e proposital. Há alguns anos, qualquer atividade do cotidiano exigia movimento. Afinal, para ir ao banco, ao mercado ou resolver alguma pendência, era necessário andar e ir presencialmente até o local. Agora, não. Basta alguns cliques na tela e está tudo resolvido. “Em 1989, apenas 2% da população estava matriculada em uma academia. A média, naquela época, eram 10 mil passos por dia. Porém, com toda a tecnologia disponível, o cenário mudou e agora não atingimos nem a marca mínima de passos diária.”

Junto à falta de movimento, está a alta disponibilidade de alimentos ultraprocessados, por exemplo. Como exemplificou Atalla, em um evento, nós tomamos café da manhã no hotel e, menos de duas horas depois, há um coffee break. Você come mesmo sem sentir fome, só por estar na sua frente – e isso acontece sem que percebamos, seja em casa, no ambiente de trabalho ou em eventos. “Também somos a primeira geração que precisa dizer não para as coisas, pois tudo é extremamente disponível.”

“Somos a primeira geração que precisa dizer não para as coisas, pois tudo é extremamente disponível”
Márcio Atalla

Mudar o hábito muda uma história
As mudanças devem ser sustentáveis e, muitas vezes, elas só acontecem quando começam aos poucos, comenta Atalla

Conforme Atalla, além de todos os desafios contemporâneos, também inibimos nosso ciclo circardiano, que nada mais é que nosso relógio biológico, responsável por regular as funções do corpo, incluindo a hora de dormir e acordar. Os vilões? Principalmente as informações excessivas e a temida luz azul, emitida por dispositivos eletrônicos como o celular, comumente levados junto à cama.

Mudar um hábito não acontece de um dia para o outro, nem em 21 dias, como um dia já foi imaginado. Estudos atuais apontam que, em média, uma nova ação se torna automática – e, então, um hábito – quando é repetida mais de 66 ou 67 vezes. Por isso, há a proposta de insistir em um novo hábito por pelo menos três meses, diariamente, para que ele se torne parte da rotina. Seja um exercício, uma alimentação mais saudável, uma meta de leitura ou qualquer outra mudança benéfica para o corpo e a mente. O educador físico, contudo, alerta: não adianta querer começar a fazer uma hora de academia todos os dias da semana, se você está totalmente sedentário. Ou parar de comer totalmente açúcar, se sua alimentação está completamente desregulada. As mudanças devem ser sustentáveis, e isso muitas vezes só acontece quando elas começam aos poucos. E, principalmente: quando elas trazem um benefício real, têm um propósito para acontecer.

Entre diferentes exemplos citados, Atalla destacou os avós que passam a fazer mais atividades físicas para conseguir brincar com os netos, ou alguém que recebeu um exame de sangue alterado e, agora, precisa reverter o quadro. “É trocar o elevador pela escada algumas vezes ao dia. Começar com 10 minutos de caminhada, mas de forma consistente. Quando você percebe os benefícios daquela pequena mudança, automaticamente vai querer fazer mais. E vai conseguir.”

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