Muito mais do que números

Muito mais do que números

Você já parou para pensar que o tempo todo somos inundados por dados, estatísticas e indicadores? Eles vão desde a média de gols do campeonato brasileiro de futebol até a relevância do monitoramento dos casos da pandemia da Covid-19. A análise de dados tem se tornando uma técnica essencial para empresas de qualquer segmento, e é por meio da interpretação dos números que muitas decisões são tomadas. Na Unimed Paraná, o Núcleo de Inteligência e Informações em Saúde (NIIS) é o responsável por esse trabalho. Conversamos com o Marcelo Dallagassa, especialista do NIIS e professor universitário, que concluiu recentemente o doutorado em Tecnologia em Saúde pela PUCPR, para compreender melhor como os algoritmos e a aprendizagem de máquina são utilizados na área da saúde. Dalagassa é um dos dois especialistas que a Federação possui na carreira Y. Uma forma que a Unimed Paraná encontrou para valorizar a pesquisa dentro da cooperativa, estimulando a relação empresa-academia. Algo que tem enriquecido bastante a organização.


Qual o trabalho realizado pelo Núcleo de Inteligência em Saúde da Unimed do Estado do Paraná?


O NIIS atua na produção de instrumentos tecnológicos voltados a atender as necessidades da regulação e da atenção à saúde da Unimed Paraná e de suas Singulares. Entre outros projetos, podemos citar a automação dos processos de regulação, com a auditoria inteligente de contas médicas, a identificação de casos de altíssimo custo, a gestão da jornada do paciente com monitoramento em relação aos protocolos e diretrizes. Além de diversas integrações de informações, minimizando questões em relação à fragmentação dos dados e informações e painéis estratégicos de BI (Business Intelligence) para a gestão da saúde. O que inclui a criação do painel de controle e monitoramento da Covid, além de outros projetos estratégicos, que demandam, inicialmente, pesquisa aplicada para sua implementação. O que, muitas vezes, gera artigos publicados em periódicos científicos e apresentação em congressos da área, demonstrando, dessa forma, a sua validação científica.


Como esse Núcleo surgiu?


Em 2008, a diretoria da Unimed Paraná sugeriu a criação de um grupo multidisciplinar para a discussão dos fatores associados às questões da sinistralidade da operadora. Na oportunidade, esse grupo foi denominado de CES – Comitê de Economia da Saúde e era constituído pelas áreas da Atenção à Saúde, Mercado, Operação, Medicina Baseada em Evidência, Regulação e Informações. Nessa oportunidade, em que fiz parte do grupo, como responsável pela área de informações, surgiram diversas iniciativas para a geração de produções de metodologias voltadas ao diagnóstico e estratificação das carteiras da operadora. Essas metodologias, em seguida, foram disseminadas para as Singulares do estado. Com a finalização do meu mestrado, em 2009, que tratou sobre a concepção da metodologia de identificação de doenças crônicas em operadoras de plano de saúde, por meio de dados administrativos, demos continuidade ao trabalho. Em 2014, a Federação iniciou um processo de aproximação com as instituições de ensino para a promoção de pesquisa aplicada, possibilitando um termo de cooperação com a PUCPR, pelo qual tornou possível realizar-se diversos estudos, voltados à aplicação de algoritmos e outras técnicas, com o intuito de formulação de metodologias aplicadas na gestão da operadora.


Quais são as potencialidades de dados e informações para uma operadora de saúde?


São inúmeras as possibilidades, porém, ainda hoje, pouco exploradas. Porque as informações em saúde são muito complexas e sofrem por dificuldades diversas. Entre elas, o grande volume de informações existentes, os vários formatos (vídeo, áudio, texto, pdf, imagem, entre outros) e a sua fragmentação. As informações dos pacientes, não raro, estão em locais distintos. Isso porque não há um registro que os unifique, aliado ao fato de questões de sigilo e de privacidade da informação. O que dificulta o tratamento para as questões particulares, específicas de paciente a paciente. Os dados como se apresentam até hoje são utilizados apenas dentro de visões de massa epidemiológica.
Entretanto, como principais potenciais do uso da informação em saúde, evidenciam-se as questões da utilização da informação dentro da terminologia Medicina 4P ou, recentemente, dentro do conceito 5P: Participativa, Preventiva, Preditiva, Personalizada e Pertinente. Ou seja, cada vez mais, entende-se a necessidade do uso da informação de saúde para o engajamento do paciente, possibilitando a sua participação nas decisões em relação à sua saúde. Na determinação e estabelecimento de ações de forma preventiva e no oportunismo para aplicação de ações preditivas e personalizadas. E por último, o quinto “P”, que trata da aplicação ao paciente de uma medicina que seja oportuna, usada de forma racional e adequada, em relação às avaliações dos melhores desfechos em saúde.


O NIIS desenvolve algum trabalho relacionado à Covid-19? Como ele é feito?


O NIIS desenvolveu um painel de controle do Covid-19, baseado nas informações de todas as Singulares do estado do Paraná e, em tempo real, aliado às informações das secretarias de estado da saúde de todo o Brasil, possibilitando, dessa maneira, um controle e uma vigilância de toda a nossa carteira do estado. Realizamos, também, projeções para 60, 120, 150 e 180 dias, a partir do início dos casos, com o estabelecimento de estimativas de recursos das Unimeds do estado. Essas iniciativas, promoveram a geração de um projeto para uma central de controle e monitoramento da covid -19.


Os dados e informações do NIIS são utilizados apenas pela Unimed ou são compartilhados?


Os dados e informações são exclusivamente para uso interno da Unimed, seguindo o rigor das questões do sigilo e privacidade da informação. No entanto, em alguns casos, em colaboração com pesquisa científica junto às universidades, entre elas a PUCPR e a UTFPR, disponibilizamos alguns desses dados. Sempre seguindo todas as regras e exigências dos Comitês de Éticas em Pesquisa, para a garantia da privacidade e segurança da informação.


O senhor é especialista na área de mineração de dados. Por que decidiu seguir essa carreira?


A partir de 2008, na ocasião em que fui chamado para compor o CES, instigou-se a questão de aplicação da aprendizagem de máquina nos dados para o diagnóstico da operadora. Iniciando-se, assim, na Federação, a motivação pelo caminho da aplicação dessa ciência, com a construção do meu método criado para a identificação de doentes crônicos, logo após, a finalização do meu mestrado. Isso acabou me levando, em 2016, à iniciação do doutorado nessa mesma área.


Como o senhor vê a relação entre academia e mercado de trabalho?


Acredito fortemente na cooperação entre academia e empresa. Ela é fundamental para o desenvolvimento tecnológico e até mesmo para a sobrevivência dos profissionais no mercado de trabalho. Observa-se uma mudança nas organizações dentro dos conceitos de transformação digital e, rapidamente, percebe-se o surgimento de pequenas empresas aplicando os conhecimentos da ciência como alicerce dessa transformação. É fundamental, até para a própria sustentabilidade, que as empresas, mesmo consolidadas no mercado, busquem voltar-se à utilização desses novos conhecimentos. No caso dos profissionais, não é diferente. Eles devem pensar em formas de aplicação da ciência e de novas técnicas para conseguirem inovar. E nesse aspecto que a parceria academia-empresa pode ser extremamente enriquecedora.


Qual a sua contribuição/participação como doutor no trabalho realizado pela Unimed?


O mestrado e o doutorado trouxeram uma forma de pensar diferente, alicerçada na ciência e, no caso do doutorado, com a associação da característica do ineditismo. Esses pontos são fundamentais para a criação, dentro da organização, de um mecanismo que possibilite a aplicação da pesquisa para a produção de instrumentos tecnológicos que gerem valores diferenciais para a Unimed.

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