A arte de transformar madeira em significado

Como a marcenaria, uma das atividades mais antigas da humanidade, tornou-se um hobby essencial na vida do médico Luiz Carlos Pinto Maia

Lixas, serras e pregos estão presentes na vida do ginecologista e obstetra Luiz Carlos Pinto Maia, de Ponta Grossa, desde que ele era criança. O pai dele era madeireiro em uma época na qual as serrarias eram instaladas no meio dos pinheirais e as oficinas ficavam em clareiras, onde a madeira era transformada em peças úteis para o dia a dia.

“Tinha a vila dos empregados, a serraria em si, uma capela, uma venda que fornecia os insumos para os funcionários e o escritório. Convivi com os carpinteiros e marceneiros, que, além da montagem da serraria e maquinário, faziam casas, móveis básicos, como camas, guarda-roupas etc.”, recorda o médico.

Observador e curioso desde pequeno, Maia aprendeu os princípios básicos da marcenaria com o pai e os funcionários da serraria. Com o passar dos anos, ele foi se aperfeiçoando, e fez cursos, como o de solda no Sindicato de Metalúrgicos de Ponta Grossa, que contou com bases teórica e prática durante três meses. A internet também foi uma grande aliada para aprender novas técnicas.

“Eu faço quase tudo, dentro das minhas limitações. Às vezes vejo uma matéria na TV ou revistas, e procuro realizar aquelas ideias. Em conversa com pessoas e amigos, capto assuntos, como por exemplo, quando foi instalada uma cervejaria em Guaragi. Tive uma ideia de fazer as caixinhas com madeira padrão da cervejaria e ficaram ótimas”, revela.

Criatividade
O ginecologista conta que, além de colocar a mão na massa na hora de fazer as peças, ele também idealiza alguns projetos e já está no terceiro caderno de esboços. A casa da fazenda da família foi toda projetada por ele, do interior até o deck da piscina. E o melhor, vários itens foram fabricados com madeira reaproveitada.

“A maioria das estruturas da minha sede, como churrasqueira e o interior de um chalé, por exemplo, foi feita com aproveitamentos de portas, armários de cozinha e móveis do meu antigo consultório. Todos ‘reciclados’ das suas funções, como uma porta de guarda-roupa que foi transformada em cabeceira da cama. O móvel da antiga recepção virou um barzinho num espaço anexo à piscina, onde fiz meu cantinho Jack Daniels”, relata com entusiasmo.

Favoritos
Nas horas vagas, o artesão revela que atualmente prefere trabalhar com itens maiores por conta da facilidade em cortar a madeira, uma vez que trabalha sozinho. Além disso, confessa que não gosta de confeccionar móveis de rotina, sem muitos detalhes. Os favoritos acabam sendo os mais arrojados.

“Gostei muito de fazer as caixinhas de cerveja porque era uma novidade para a empresa e ela foi bem difundida. Foi bem no começo das cervejas artesanais, então me senti bem à vontade ali”, recorda.

Recentemente, a pedido de uma amiga pediatra, ele fabricou um jogo chamado Sjoelbak, também conhecido como bilhar holandês, que utiliza mesa e discos de madeira. Entretanto, a marcenaria é mais um hobby do que uma fonte de renda. Descendente de libaneses, portugueses e italiano, Maia se considera um péssimo comerciante. Como pagamento pelo jogo, ele pediu um serrote japonês.

“Pretendo fazer algumas encomendas, recebendo pelo menos o custo do material. Meu lucro é meu lazer e a cuca fresca”, ressalta.

A pedido, Luiz Carlos produziu um balanço rústico de madeira para o jardim de um amigo

Família
Além de ajudar a clarear a mente e deixar a casa mais bonita, a marcenaria também tem outro papel importante na vida do médico. Ela tornou os momentos em família ainda mais divertidos e animados, já que o gosto pelo trabalho artesanal foi dividido com os filhos: Henrique e Cristiano, ambos médicos.

“Seguiram meu exemplo, estavam sempre juntos comigo. Todas as ações de marcenaria, cutelaria, eles estavam juntos”, orgulha-se.

Ele conta que, como todo bom médico, que está sempre procurando fazer o melhor pelos seus clientes, os três sempre buscam novos conhecimentos e atualizações na vida pessoal também. Henrique, por exemplo, fez curso de cutelaria em Curitiba durante seis semanas e já produziu várias peças com o pai, como as cadeiras que ficam no deck da piscina da fazenda. Já Cristiano ajuda na entalhação das madeiras e nos detalhes em couro.

Outro momento de lazer da família são as viagens, realizadas com a esposa Sônia, companheira de Maia há mais de 50 anos. Porém, com o isolamento social, os planos foram adiados por tempo indeterminado e, mais uma vez, o trabalho artesanal com a madeira se mostrou mais do que um hobby. “A pandemia impediu entre outras coisas, as nossas duas grandes viagens anuais, mas em contrapartida, proporcionou momentos de reflexão e descanso. A marcenaria está sendo a minha atividade principal e aquela grande válvula de escape”, avalia.

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