A busca sustentável do uso da tecnologia no diagnóstico e o futuro da cooperativa

Exames facilitam o atendimento e estão cada vez mais precisos, porém fica o questionamento sobre o uso dessa ferramenta na definição do tratamento e do suporte eficaz

A tecnologia sincroniza cada dia mais sua evolução com os passos da humanidade. O ser humano deixou de morrer em decorrência de doenças que mantinham a expectativa de vida da população abaixo dos 50 anos na década 1940 para, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), chegarmos a 2050 na média dos 80 anos. Essa ampliação se refere não só ao fato de que faltavam instrumentos para os profissionais médicos investigarem, mas também pela qualidade da infraestrutura que era bastante precária.

Ainda que essa expectativa tenha sido elevada, a mudança no estilo de vida das pessoas e a tendência de urbanização favoreceram o surgimento de condições crônicas prevalentes, como hipertensão, doenças de coluna, artrite e depressão. Mesmo com isso, até em quadros graves, pode-se oportunizar o bem-estar dos pacientes, sendo vários os recursos e o aparato tecnológico, que vão desde o diagnóstico até o tratamento.

Como destaca o diretor de Saúde e Intercâmbio da Federação Unimed Paraná, Faustino Garcia Alferez, os processos de investigação foram aprimorados e otimizados, ainda que seja importante observar o excesso de informação. “A evolução da medicina, particularmente na área tecnológica e a história recente, contribui para vivermos mais e melhor, principalmente pela detecção precoce de doenças, promovendo a cura antecipadamente ao sofrimento. Mas é necessário observar que existe um uso indevido das solicitações, além de indicações não precisas em meio a esse espetacular arsenal que nos foi disponibilizado, sem levar em conta ainda o que o futuro nos reserva”, observa o diretor de Saúde e Intercâmbio.

Embora os avanços sejam nítidos, Alferez destaca que, em detrimento dos resultados de última geração, há análises seculares que ainda deixam um ponto de interrogação, ‘existindo um nível de tolerância aceitável’. Além dos receituários, há uma tendência já reforçada pela Federação e que busca fortalecer esse vínculo médico-paciente, que são os programas de prevenção, reforçando mudanças de hábitos e o Jeito de Cuidar Unimed, para que não haja uma restrição pelo viés da observação clínica apenas.

Leia também: Por dentro da Federação: como funciona a presidência?

Em alguns casos, o profissional é pressionado pelo paciente, que pesquisa informações preliminares à consulta, e pode até conduzir o pedido para realizar determinados procedimentos. “É necessário seguir um raciocínio clínico lógico, construído na realização da anamnese e exame físico. O médico deverá se sobressair ao impulso daqueles mais ansiosos que venham a exigir investigação ou solicitação de exames desnecessários, sabendo tranquilizar e demonstrar ao paciente que a sua conduta é a mais assertiva”, pontua diretor de Saúde e Intercâmbio.

Reflexão sobre a atuação

O gerente de Estratégias e Regulação de Saúde da Unimed Paraná, Marlus Volney de Morais, observa o desnecessário ônus gerado por um pedido de exame que não agrega qualidade. “Como o custo será financiado pelos beneficiários, o aumento desnecessário fará com que um maior número de pessoas não consiga arcar com os custos da assistência, e isso trará duas grandes consequências: maior pressão por migração da população necessitada da saúde suplementar para o sistema público – identificada na pandemia -, e menor condição de assistência aos que não tiverem capacidade para manter o plano, o que agrava os quadros de saúde individual e coletivo”, observa Morais.

Na projeção realizada pelo responsável da Superintendência de Serviços às Singulares da Federação, Willian Stocco, no Paraná, a média anual é de 5 consultas por beneficiários para um total de 19 exames solicitados por indivíduo, média de 4 exames por consulta. “Atualmente, isso compromete em média 26% do custo da Unimed, o que acaba impactando o potencial de ganho do próprio médico-cooperado”, detalha Stocco. Ele reforça que a Federação está buscando alternativas para facilitar ao médico um entendimento mais global do paciente por meio do Registro Eletrônico de Saúde. Nessa plataforma, os médicos poderão consultar o histórico de saúde dos seus pacientes, o que será uma forma de apoio e uma oportunidade de racionalização dos recursos.

Leia também: Medicina de precisão e tecnologia digital como ferramentas contra a tuberculose

Outro ponto, observado por Morais, é que o excesso de exames pode ser além de tudo prejudicial em alguns casos. Para proteger indivíduos em risco de tratamento excessivo e novas intervenções médicas inapropriadas e sugerir-lhes alternativas eticamente aceitáveis, em 1999, foi estabelecido o termo prevenção quaternária (PQ), proposto pelo médico de família e comunidade belga, Marc Jamoulle, e incorporado pela WONCA (World Organization of National Colleges). “O percentual em que esse ‘desnecessário’ é realizado chega a 30% do total de procedimentos (IESS e ANS) de apoio diagnóstico que é executado hoje na saúde suplementar e, em menor percentual, na saúde pública”, reforça o gestor.

Há, ainda, uma preocupação sobre os excessos relacionada com os casos de iatrogenia, com danos ou eventos adversos que ocorrem em função de ações e intervenções de saúde efetivamente aplicadas a pessoas. Exemplo disso são infecções adquiridas em procedimentos cirúrgicos classificados como limpos, são quedas de pacientes internados em instituições, é o surgimento de lesões por pressão (úlceras) em pacientes que permanecem internados por tempo prolongado, e tantos outros eventos adversos que podem surgir como consequência de um processo de tratamento mal controlado. “Infelizmente, ainda sabemos de notícias, como amputação da perna errada, injeção venosa de solvente no lugar de contrastes de exames por imagem ou de outras substâncias. A iatrogenia acaba tendo repercussões não só na área clínica, mas também nas social e cultural”, observa o gerente de Estratégias e Regulação de Saúde da Unimed Paraná.

Nesse sentido, o que pode parecer tranquilidade e segurança pode se tornar ansiedade, gerar intervenção desnecessária e infelizmente sequelas que comprometem a qualidade de vida das pessoas. Esse é um tempo de se pensar sobre a necessidade de repetir exames com resultados falso positivo/ negativo e reconsiderar que o melhor check-up é o acompanhamento e manutenção periódica da saúde pautado em um estilo de vida mais saudável.

Suporte para o paciente

Antes de aceitar ou solicitar qualquer investigação clínica o paciente pode seguir o questionário de esclarecimento e reflexão disponível no site da iniciativa Choosing Wisely detalhado a seguir

1. Preciso realmente fazer este exame ou procedimento?

2. Quais são os riscos envolvidos? (inclusive de falsos positivos ou negativos)

3. Há uma opção mais segura ou mais simples, de forma alternativa?

4. O que acontece se não fizer isso ou não fizer nada?

5. Quais são os custos envolvidos tanto para mim como para outros?

A realização de investigações no momento certo e pela tecnologia adequada, quando fundada em evidências científicas, é benéfica e traz qualidade à vida das pessoas. Entretanto, seu abuso ou uso inadequado deve ser permanentemente questionado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *