As academias lotadas e os incontáveis conteúdos sobre treinos e corridas de rua nas redes sociais podem até estar dominando o imaginário de muitos de nós. No entanto, um dado desconcertante avança na direção oposta: o sedentarismo segue em crescimento no mundo. A contradição revela mais do que uma tendência passageira e expõe desigualdades de acesso, exaustivas rotinas de trabalho que dificultam a prática de atividades físicas e conveniências do mundo atual que acabam por roubar os movimentos básicos da rotina (como ir à padaria a pé em vez de pedir algo no delivery). Entre o ideal e o real, ainda há um abismo que impacta diretamente a saúde da população, especialmente quando o assunto é evitar doenças crônicas. É extremamente propalado que mexer o corpo, alimentar-se e dormir bem são fundamentais para a saúde, mas entre saber e seguir o recomendado a situação não é tão simples.
Um estudo de 2024 da Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que quase um terço dos adultos do mundo não atinge os níveis mínimos de exercício físico recomendado. Esse mesmo estudo mostra que houve uma piora da prática de atividade física na última década e a projeção é que o sedentarismo venha a piorar ainda mais até 2030. Já no Brasil, um levantamento realizado pelo IBGE via Vigitel em 2019 estima que pelo menos 50% dos adultos brasileiros não praticam o mínimo de 150 minutos de atividade moderada semanalmente recomendado pela OMS.

Para o médico de família Angelo Bannack, uma explicação para esse grande número de sedentários pode estar na questão ambiental e na modificação do nosso comportamento causada pelas novas tecnologias, como o aumento do uso de telas, o maior tempo em casa gerado pelo trabalho remoto e exacerbado pela pandemia, além da automatização crescente das tarefas cotidianas e do uso maciço de carros para deslocamento: “Talvez, o maior desafio hoje não seja convencer as pessoas a adotar rotinas de exercício intenso, mas sim resgatar o movimento básico no dia a dia, aquele que foi silenciosamente roubado pela modernidade”.
Até mesmo o trabalho remoto, que tem o potencial de gerar mais tempo livre para a prática de atividades físicas, na realidade, muitas vezes, surte o efeito contrário. Afinal, as pessoas perdem a oportunidade de passar na academia no caminho do trabalho para casa, ou de fazer uma caminhada nesse mesmo trajeto, por exemplo. “Lembro que quando fazia faculdade de medicina na UFPR, ia e voltava todos os dias a pé do apartamento que morava no centro de Curitiba até o HC. Eram pelo menos 30 minutos de ida e o mesmo de volta diariamente. Hoje troquei esse deslocamento pelo uso do carro. A necessidade me impunha exercício cardiovascular regular, algo que o trabalho remoto e o uso crescente de automóveis, aliados ao imediatismo dos tempos atuais, foram silenciosamente eliminando da rotina”, relembra Angelo Bannack.
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É mais do que evidente a ameaça que a vida sedentária representa no contexto de doenças crônicas cardiovasculares, além de alguns tipos de câncer. E agora também se sabe que a atividade física, especialmente a aeróbica, pode trazer muitos benefícios à saúde mental, tendo impacto sobre sintomas ansiosos e depressivos: “o exercício físico não substitui o tratamento para casos mais graves de ansiedade, mas atua como um coadjuvante poderoso. No meu consultório, trato diversos pacientes com ansiedade e depressão e sempre recomendo a prática regular de exercícios aeróbicos e, de preferência, ao ar livre”, conta.
Exercícios realizados ao ar livre parecem trazer benefícios adicionais graças à combinação de movimento com exposição à luz solar, contato com a natureza e estímulos variados. Melhoras significativas nos sintomas ansiosos e no humor, principalmente pela prática regular de caminhadas, são observadas na rotina do médico: “Muitos pacientes referem que consideram a caminhada sua dose periódica de remédio. O exercício aeróbico parece atuar na melhora do sono, na regulação do ciclo circadiano, na redução de marcadores inflamatórios e na liberação de neurotransmissores como a serotonina e as endorfinas, ligados ao prazer e ao bem-estar.”
Ultraprocessados: o novo cigarro
A diminuição consistente do tabagismo foi evidenciada globalmente, com o Brasil inclusive sendo reconhecido como um caso de sucesso, alcançando a redução do número de fumantes em mais de um terço desde 2010. Com isso, a ingestão de ultraprocessados começa a ser descrita como o “novo cigarro” por representar um perigo tão grande quanto ele no contexto de doenças crônicas. Estudos mostram clara associação entre o consumo elevado desses produtos e maior risco de doença cardiovascular, diabetes tipo 2, ansiedade, depressão, obesidade e mortalidade geral. A relação com alguns tipos de câncer também está sendo descrita, mas ainda com evidências menos sólidas.
Para Angelo Bannack, a comparação dos ultraprocessados é ainda mais pertinente do que parece, não apenas pelos danos à saúde, mas também pela lógica por trás de ambos: produtos desenvolvidos industrialmente para gerar dependência, com apelo sensorial artificial, marketing agressivo e lobby poderoso contra qualquer regulamentação: “A diferença é que o tabaco levou décadas para ser adequadamente controlado e os ultraprocessados parecem estar no início desse mesmo caminho”, pontua.
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O médico lembra ainda que o Brasil tem um papel pioneiro e pouco celebrado nessa história: a classificação nova, que divide os alimentos pelo grau de processamento industrial e não apenas por calorias ou nutrientes, criada pelo professor Carlos Monteiro e pelo Nupens (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde) da USP: “Essa classificação já serve de referência para diversos países. Sua mensagem central é direta: prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados. É uma orientação que uso frequentemente no consultório porque é simples, inclusiva e tem potencial para funcionar em qualquer realidade socioeconômica”.
Sono ruim: um perigo crescente
A ciência é bastante consistente ao mostrar que sono insuficiente, muitas vezes definido como menos de sete horas por noite, e sono de má qualidade estão associados a maior risco de obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. Os mecanismos fazem
sentido clinicamente: a privação de sono eleva o cortisol, desregula a insulina, aumenta marcadores inflamatórios e desregula os hormônios que controlam o apetite.
A leptina cai e a grelina sobe, o que explica em parte porque quem dorme mal tende a comer mais e pior no dia seguinte. Ou seja, como bem resume Bannack:. “Sono ruim e doenças crônicas se retroalimentam num ciclo difícil de quebrar”.
Ao confirmar a observação de um aumento de queixas relacionadas ao sono, que acontecem quase diariamente em seu consultório, o médico da família descreve que,
para além da frequência, chama atenção a diversidade de perfis: o adolescente que não consegue dormir por causa do celular, o adulto jovem que acorda exausto depois de
oito horas na cama, o idoso que acorda às três da manhã e não volta a dormir mais, e o paciente de meia-idade que ronca alto e cuja companheira relata que ele “para
de respirar” durante a noite.
Sono ruim
e doenças
crônicas se
retroalimentam
num ciclo difícil
de quebrar
Angelo Bannack
Para ele, uma preocupação concreta e ainda subestimada seria a apneia obstrutiva do sono, que é reconhecida como causa direta de hipertensão arterial: “Existe um número relevante de pacientes com hipertensão de difícil controle cuja causa subjacente é a apneia não diagnosticada. Quando pergunto sobre ronco, pausas respiratórias e sonolência diurna, com frequência descubro que o paciente nunca tinha associado esses sintomas à sua pressão arterial mal controlada. A polissonografia nesses casos pode mudar completamente a conduta.”
O outro lado da moeda é o tratamento farmacológico do sono. O terreno é de grande preocupação para Bannack que observa o uso de benzodiazepínicos e das chamadas drogas Z (zolpidem, zopiclona e outros) amplamente difundido, mas muitas vezes além do que seria clinicamente justificável: “No consultório, recebo frequentemente pacientes que tomam essas medicações há anos, iniciadas por outro médico ou por conta própria, e que já desenvolveram dependência sem perceber. Tentar retirar é um processo lento, delicado e que exige muito vínculo terapêutico.”

A boa notícia é uma alternativa eficaz que vem sendo evidenciada: a Terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I). Em comparação com medicamentos, ela teria resultados mais duradouros e sem os riscos do tratamento farmacológico prolongado. O desafio é o acesso, já que no Brasil a abordagem ainda está longe de fazer parte da realidade da maioria dos pacientes: “Enquanto isso, o caminho continua sendo orientar sobre higiene do sono, investigar causas subjacentes, como a apneia, e ter extremo cuidado antes de assinar uma receita de Zolpidem para uma queixa que poderia ser tratada de outra forma”, alerta Bannack.
Novidade: conheça a Uniflow
Inaugurada em fevereiro de 2026, a iniciativa vem como um método moderno de agenciamento da jornada de saúde do beneficiário Unimed. O novo modelo de negócio foi possível graças a uma parceria entre a área GEAS (Gestão da Atenção à Saúde) e a Compar (Sociedade de Compartilhamento e Participações).
O PROPÓSITO: agenciar a jornada de saúde das pessoas por meio de uma metodologia que envolve perfil de saúde, identificação de níveis de complexidade de saúde, utilização (realizada e esperada) e personalização do cuidado com plano terapêutico elaborado por equipe técnica especializada.
COMO ACESSAR: Todo o contato com o cliente é realizado pelo aplicativo da Unimed, pelo ícone Minha Saúde. Lá o cliente realiza trilhas de saúde que o apoiam no entendimento do que é necessário e adequado para o seu perfil, incluindo registro de parâmetros de saúde (peso, altura, controle glicêmico, medicações, etc.).
O DIFERENCIAL: metodologia refinada que promove, ativamente, o agenciamento do cliente para que a sua utilização seja previsível, evitando desvios e desperdícios na utilização, além de compartilhar com o cliente as responsabilidades por sua própria saúde.
Primeiros resultados em 90 dias de operação:
•3045 clientes ativos com perfil de saúde analisados
•NPS: 80
•86% recomendariam o modelo
“A ideia de ‘antecipação’ da utilização, de acordo com a necessidade para seu perfil, contribui em muito para a redução dos custos assistenciais, mas com expressiva qualidade na assistência prestada. Os princípios que norteiam a estratégia e a operação da Uniflow são: agilidade, previsibilidade, segurança e impacto”. (Arianne Gaio da Gerência GEAS)








