Com o tema “Cenário econômico e impacto no mercado de saúde suplementar”, a palestra magna contou com a análise de Maílson da Nóbrega, economista e ex-ministro da Fazenda do Brasil. Mediada pelo diretor Administrativo e Financeiro da Unimed Paraná, Antonio Carlos Valezi, a apresentação contou com uma análise do cenário macroeconômico brasileiro, destacando fatores que limitam o crescimento do país, ventos a favor que impulsionam a economia e o papel histórico das crises.
Um dos desafios apresentados pelo economista foi a desaceleração econômica. Em sua análise, a projeção de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) é de 1,9% a 2% para 2026, enquanto, no ano seguinte, deve ficar em apenas 1,2%. “O PIB brasileiro está crescendo em ritmo inferior ao dos países emergentes com os quais nos comparamos”, exemplificou. Outro ponto destacado por ele, embora seja um problema histórico, é a taxa de poupança considerada baixíssima, de cerca de 14,4% do PIB, o que, segundo o economista, limita os investimentos. “Estudos demonstram que, para um crescimento satisfatório e ter investimentos em níveis razoáveis, a taxa de poupança deve ser de 25%”. Em comparação, países como China e Coreia do Sul apresentam taxas de poupança de 43,1% e de 35%, respectivamente, do PIB. A média global, hoje, é de 22 a 26%. Na visão de Nóbrega, os principais obstáculos ao crescimento sustentável incluem a rigidez orçamentária. Ele comenta, ainda que cerca de 96% dos gastos federais são considerados obrigatórios, com uma projeção de que esse percentual chegue a 100% no próximo ano.
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“O que deverá inviabilizar investimentos em ciência, tecnologia e infraestrutura”, projeta.
Além disso, ele avalia que as regras constitucionais e previdenciárias necessitam de uma nova reforma. Entre as mudanças citadas, estão a elevação da idade mínima e a eliminação de diferenças de gênero e entre setores, como urbano e rural. No entanto, o economista reconhece que, embora sejam necessárias, são propostas impopulares e, por isso, nenhum governo gostaria de anunciá-las. Outros dois pontos levantados por Nóbrega são a baixa qualidade da educação e a estagnação da produtividade, que também representam obstáculos ao crescimento. Segundo os dados apresentados pelo economista, o Brasil destina 6,2% do PIB à educação, um percentual proporcionalmente superior ao de países como China e Estados Unidos, enquanto ainda possui baixa oferta de mão de obra qualificada e estagnação da produtividade. Ele ainda questionou a vinculação constitucional de recursos destinados à educação e à saúde à receita.
Por fim, outro fator levantado como “vento contra” é a posição do judiciário frente ao setor privado. Segundo ele, no Brasil, em média, perdem 87% dos créditos não pagos. “As perdas dos bancos, da maneira como seus processos são julgados, são um fator adicional para a manutenção de taxa de juros alta”, acrescenta.
Ventos a favor e forças econômicas
Apesar dos problemas apresentados pelo economista, o país possui pilares que contribuem para a estabilidade e o desenvolvimento da economia. Entre os pontos positivos destacados estão a independência do Banco Central, a boa regulação bancária e a solidez, sofisticação e capitalização do sistema financeiro. Na avaliação do palestrante, esse conjunto de fatores ajuda a explicar a ausência de crises bancárias no país há mais de 30 anos.
O agronegócio, reconhecido pelo protagonismo global e pela competitividade, e a indústria extrativa, com destaque para petróleo e minerais, também foram apontados como fatores favoráveis ao desenvolvimento. A melhoria da infraestrutura logística também apareceu entre os pontos positivos destacados pelo economista. De acordo com ele, a transferência de segmentos como ferrovias, rodovias e telecomunicações para o setor privado contribuiu para esse processo.
Perspectivas para os próximos anos
Ao projetar o cenário para 2027, o economista apontou uma redução do espaço para investimentos públicos, diante do peso crescente dos gastos obrigatórios primários da União. “Sem reformas, não haverá espaço para investimentos em ciência, tecnologia, defesa, cultura e manutenção da máquina pública”. Segundo Nóbrega, essa situação poderá comprometer o funcionamento do arcabouço fiscal – mecanismo que utiliza um conjunto de regras para gerenciar as contas públicas do governo federal no Brasil. Com menos espaço para controlar as despesas, a dívida pública em relação ao tamanho da economia poderia seguir uma trajetória de crescimento acelerado. Embora ele não acredite que possa ocorrer atraso nos pagamentos do Governo Federal, o receio de um eventual calote pode assustar investidores e provocar efeitos sobre a inflação, os juros, a atividade econômica e o emprego. “Esse cenário de crise financeira, contudo, criará o ambiente necessário para um novo ciclo de reformas”, afirma.
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