Mais que metas: o desafio humano de liderar

Exercer um papel de liderança traz desafios que vão além dos conhecimentos técnicos. Confira caminhos para uma liderança mais humana, estratégica e menos solitária

desafio em liderar
(Foto: Ilustração/Freepik)

Assumir um cargo de liderança é sinal de reconhecimento e ascensão profissional. Na prática, o posto vem acompanhado de desafios que nem sempre aparecem na descrição da função. Pressão por resultados, dificuldade em delegar, retenção de talentos e conflitos entre gerações são apenas algumas das dores relatadas por quem ocupa essa posição. Mais que cumprir metas, o desafio humano de liderar é bastante significativo.

Para o especialista em desenvolvimento de líderes Marcelo Levi, diretor da Sophos Treinamentos, uma das maiores dificuldades está na gestão de pessoas, seguida de perto pela gestão de tempo. “Fazer gestão de pessoas dá trabalho. Acompanhar, orientar, treinar, ouvir, dar feedback, delegar. A maior parte das lideranças, hoje, não têm tempo suficiente para fazer isso com qualidade, usando todos os recursos que a gestão de pessoas proporciona”, analisa. Entre tantas reuniões, tarefas e responsabilidades que precisam dar conta, alguns líderes deixam até de se sentir donos da própria agenda.

Mais um ponto fundamental é o cuidado com quem faz parte da equipe. Afinal, liderar vai além de acompanhar indicadores e processos. “Cuidar envolve conhecer profundamente as pessoas que trabalham com você. Essas pessoas têm sonhos, expectativas, desejos. Têm medos, angústias, ansiedades”, destaca Levi. Por vezes, o receio de criar vínculos mais próximos pode ser uma barreira para compreender as motivações que realmente fazem diferença para os profissionais que estão ao redor. “A grande sacada é entender de gente. Não basta olhar para as questões técnicas. É preciso compreender comportamento humano”, ressalta. Quanto mais o líder se aproxima de forma autêntica e respeitosa, maiores as chances de construir confiança e engajamento.

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Nos treinamentos que ministra e nas aulas como professor de pós-graduação, Levi costuma reiterar que líderes autênticos não nascem prontos. Eles se desenvolvem constantemente. Reconhecem suas vulnerabilidades e fazem bom uso de suas habilidades naturais. Além disso, apoiam-se em relações sólidas com seus liderados.

Delegar para não adoecer

Outra situação comum é a dos líderes que permanecem presos às atividades operacionais, seja pela realidade de equipes mais enxutas e alta competitividade, seja pelo apego de manter as coisas feitas do seu jeito. Segundo Levi, que tem mais de 30 anos de experiência como gestor de equipes e 17 na realização de treinamentos, o receio de parecer improdutivo, a crença de que “ninguém faz tão bem quanto eu” e a falta de confiança no time são fatores que impedem líderes de distribuir responsabilidades de
maneira mais assertiva.

o desafio de liderar
Thainá Becker: uma dica para lideranças é buscar apoio para além da estrutura direta da empresa

O especialista recomenda que o gestor tenha sempre em mente qual é a prioridade: fazer do seu jeito ou alcançar o resultado necessário? “A liderança pode até se surpreender e
perceber que a pessoa vai fazer melhor do que ela e não tem problema nenhum. Bons líderes têm profissionais melhores do que eles trabalhando no seu time, porque podem colocar na mão dessas pessoas os grandes desafios e projetos que precisam ser feitos”, reflete. Para Levi, a delegação bem-feita abre espaço para pensar estrategicamente, desenvolver talentos e investir em feedbacks estruturados. Não delegar, ao contrário, gera sobrecarga crônica e impede a formação de sucessores, pois bloqueia uma infinidade de possibilidades de desenvolvimento, tanto para a equipe quanto para o próprio líder.

A liderança pode ser
um caminho solitário,
mas eu acredito
que não precisa ser.
Líderes precisam de
suporte, tanto quanto
qualquer outra pessoa
Thainá Becker

O isolamento do poder

Na liderança, há uma dor que atravessa todas as outras: a solidão. Levi chama o fenômeno de “isolamento do poder.” “Quando alguém assume a liderança, é natural que exista
um distanciamento. As pessoas passam a enxergá-lo como alguém que pode cobrar, avaliar, contratar ou demitir”, explica. Ao mesmo tempo, o próprio líder pode se afastar
por medo de errar, de demonstrar vulnerabilidade ou de não ser aceito. Surge, então, a sensação de incompreensão.

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Para lidar com isso, Levi defende que o caminho começa pelo autoconhecimento. Desenvolver inteligência emocional, comunicação assertiva e autogestão ajuda a reduzir o impacto do isolamento. Também é fundamental compreender que nem sempre será possível agradar a todos. “As lideranças precisam aprender a não levar isso para o lado pessoal e entenderem que isso é inerente à sua função”, afirma.

Rede de apoio como antídoto

A percepção de solidão entre líderes também aparece na experiência da mentora de carreira Thainá Becker, sócia-fundadora da TB Desenvolvimento. “A liderança pode ser
um lugar bem solitário, porque quando a pessoa assume o cargo, ela muda de lugar na dinâmica. Muitas vezes, sente que não pode dividir certas inseguranças com o time para
não parecer frágil. Ao mesmo tempo, evita levar questões para a alta liderança com medo de parecer despreparada”, observa. E o resultado pode ser um isolamento progressivo.

Thainá acredita que o antídoto está na construção intencional de uma rede de apoio. “Fortalecer a relação com os pares faz muita diferença, porque são profissionais que enfrentam desafios parecidos. Criar um clima amistoso, com espaço para trocas e confiança, ajuda a reduzir bastante essa sensação de isolamento”, orienta. Buscar mentorias, grupos de desenvolvimento e redes de networking também amplia o espaço de troca fora da hierarquia formal.

Apesar das dores, ela ressalta o lado mais gratificante do papel: acompanhar o crescimento do time e a evolução de cada profissional. “Nada se compara a ver alguém sendo promovido, conquistando espaço, sentindo-se mais seguro e realizado profissionalmente. Muitas vezes, a gente também percebe que o trabalho passa a viabilizar outros sonhos e abrir caminhos importantes na vida dessas pessoas. Para mim, isso é o mais especial da liderança: saber que você está impactando trajetórias e transformando vidas. Isso é realmente muito poderoso”, enfatiza Thainá.

Entre pressões e aprendizados, a lição que fica é que liderar exige estratégia, mas também humanidade. E ninguém precisa, nem deve, fazer isso sozinho.