O que esperar da saúde no Brasil?

O que esperar da saúde no Brasil?

Impactos da pandemia no cenário nacional colocam um ponto de interrogação sobre mudanças e apontam direcionamentos futuros para o setor, a economia e a sociedade

 

A saúde pública e a saúde suplementar brasileira já encontravam desafios para atender o púbico de forma eficiente, ofertando uma ampla cobertura. Segundo aponta a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), entre 2014 a 2020, reduziram em cerca de 3 milhões o número de pessoas que possuem um plano de saúde. Com leve crescimento neste ano, a população está em busca de segurança e assistência em meio ao cenário pandêmico da Covid-19.

Mas, afinal, o que a pandemia do Coronavírus representa para o presente e o futuro da saúde nacional? O que muda e o que fica desta experiência? Vamos passar por uma mudança de hábitos e cuidados? Segundo explica o economista de saúde com mais de 30 anos de experiência no Brasil e 20 anos de experiência internacional, André Medici, a adoção de algumas medidas deverá ser perpetuada. “O uso de máscaras e álcool em gel, desinfetantes, entre outros, passarão a fazer parte do cotidiano e da cesta de consumo dos negócios e das famílias. As empresas terão que reorganizar seus fluxos de produção, garantindo processos mais seguros nas fábricas e os serviços terão que continuar se adaptando ao home office, e as vendas, por meio de processos de entrega domiciliar. O ‘novo normal’ envolve um ambiente econômico calcado muito mais em tecnologia, distanciamento social e uso de comunicações a distância”, comenta.

Com muitos desdobramentos ainda por acontecer, não há dúvidas de que o cenário é extremamente complexo e os impactos da pandemia são enormes, não apenas para a saúde, mas para a economia e a sociedade brasileiras. De acordo com Medici, haverá muitos reflexos nos próximos anos, sendo que algumas decisões e estratégias do Poder Público, inclusive, foram determinantes para o desenrolar do cenário. “O Brasil perdeu a oportunidade de implementar, desde o início da pandemia (primeira quinzena de março de 2020), um programa de distanciamento social bem comunicado nas áreas inicialmente afetadas pela pandemia, com mecanismos claros de fiscalização e processos compulsórios para fazer cumprir a lei, que permitisse ao país reduzir o nível de exposição da sociedade ao vírus para eliminar ou reduzir sua transmissão aos níveis adequados no menor tempo possível”, observa Medici.

De fato, tornou-se evidente que não há como separar o cenário da questão econômica, afinal, o distanciamento social foi alvo de grande questionamento, inclusive por setores do Governo e interferiram diretamente no gerenciamento da pandemia no território nacional. “A principal vantagem em administrar bem a pandemia está no resultado na própria economia. A economia só voltará a crescer com a pandemia controlada. Se o país nada faz para controlar a pandemia, o risco pandêmico permanecerá alto e as atividades econômicas debilitadas pela falta de consistência nos processos de produção e circulação de mercadorias”, como observa o economista, que também enxerga que mapear uma parcela da população por meio de testes diagnósticos teria sido uma medida eficiente logo no início. Com uma amostra desse resultado, seria possível identificar o ponto de maior infecção, o que, por consequência, ajudaria na tomada de decisões.

Realidade e consequências

Decorrente das visíveis dificuldades de conter a disseminação da doença no Brasil, Medici aponta outro fato importante que foi a exposição dos profissionais de saúde que também foram grandes vítimas da pandemia. “Muitos morreram ou contraíram a doença que tem efeitos de longo prazo ainda desconhecidos. Os serviços de saúde não prepararam adequadamente os profissionais de saúde para serem treinados e nem providenciaram os equipamentos de proteção pessoal necessários, de forma rápida, para que se evitassem vítimas e que vidas fossem salvas”, pontua. Segundo o economista, isso acende o alerta de que é necessário tomar esse exemplo como lição para que o ambiente seja mais preventivo, a fim de preservar quem trabalha no meio. Durante esse período, houve uma das maiores baixas profissionais, em comparação com outros países em desenvolvimento que vêm sofrendo a pandemia.
Segundo um levantamento do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e o Conselho Internacional de Enfermeiros (ICN, sigla em inglês), são 157 mortes de profissionais de enfermagem no Brasil. Já o Ministério da Saúde divulgou que testou mais de 400 mil profissionais, com 83 mil resultados positivos, e 169 óbitos.
Com a situação de contágio ainda em curso e a dificuldade de acompanhamento real dos casos e proliferação, projetar o futuro ou mensurar os reais impactos acaba sendo intangível. Em média, o país tem avançado em 40 mil casos diários, e diante de não existirem sinais ou ações muito claras por parte dos governantes, não há uma ideia clara de resolução. Dessa forma, o setor da saúde continua a ser impactado, bem como a sociedade. “Seria necessário que o número de novos casos baixasse substancialmente e as taxas de infecção ficassem bem abaixo de 1.0 (ou seja, que cada infectado não chegasse a infectar outra pessoa), para que pudéssemos rever uma redução do fluxo. Há outros países em risco como os Estados Unidos (onde há um novo crescimento de novos casos), a Índia e, em muitos países da América Latina, como Peru e México”, reforça Medici.

O economista de saúde, André Medici, comenta que, no Brasil, tivemos uma das maiores baixas profissionais na saúde,, em comparação com outros países em desenvolvimento.

Os aprendizados que ficam

Alguns insights e adaptações devem permanecer após cenário da pandemia

Como já diria a frase de impacto ‘é na crise que se cresce’, algumas iniciativas que estavam projetadas para acontecer no futuro foram aceleradas também na área da saúde. E, com isso, soluções como a telessaúde, começam a se tornar uma realidade mais próxima da população, o que facilita o contato dos profissionais com os pacientes, além de agilizar os atendimentos.
No caso do Brasil, com regiões ainda desprovidas de uma cobertura mais ampla, a telessaúde acaba sendo um recurso extremamente valioso e inclusivo, no intuito de levar a saúde a toda a população. Durante esse período da pandemia, na região Amazônica, por exemplo, surgiram diversas iniciativas, como o projeto-piloto do Teleconsultas Reguladas, que estão sendo implantado, a partir de julho pela Secretaria de Estado de Saúde (Susam) e foi aprovado pela Comissão Intergestores Bipartite do Amazonas.
As consultas serão agendadas pelo Sistema de Regulação (Sisreg) e incluem especialidades médicas de ortopedia (geral), reumatologia, cardiologia, endocrinologia, neurologia (geral), pneumologia, proctologia, gastroenterologia, urologia, neurologia pediátrica, ortopedia pediátrica e cirurgia vascular (geral). O atendimento será por videochamadas e pretende reduzir a fila de espera para consultas especializadas, ampliando o uso da telessaúde.

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