Os ensinamentos trazidos pelo coronavírus

O pensador francês contemporâneo, Edgar Morin, elenca alguns dos ensinamentos trazidos pelo coronavírus e pela crise sanitária vivida atualmente

“Antes da década de 1970, o homem acreditava ter dominado a natureza. Antes da década de 1980 e da irrupção da AIDS, a ciência acreditava ter eliminado vírus e bactérias. Antes de 2008, os economistas garantiam que estava excluída toda e qualquer crise. Antes de 2020, a humanidade havia relegado as grandes epidemias à Idade Média. Em 2020, o mito ocidental do homem cujo destino é tornar-se ‘senhor e dono da Natureza’ desmorona diante -de um vírus”, nos lembra a contracapa do livro “É hora de mudarmos de via – as lições do coronavírus”, do pensador francês contemporâneo, Edgar Morin.   

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O autor do alto de seus quase 100 anos nos faz um desenho preciso dos acontecimentos mais marcantes durante esse tempo em que tem vivido: a gripe espanhola, a crise mundial de 1929, a formação da segunda guerra mundial, com acontecimentos que ocorreram entre  1930 e 1940, a própria segunda guerra, a grande crise intelectual dos anos 1956-1958, iniciada pela denúncia de crimes cometidos por Stálin, passando por revolta na Polônia e Hungria, revoluções e também a guerra entre Israel e Egito, entre outros acontecimentos. 

Morin cita também maio de 68, assim como a crise ecológica, prenunciada por Meadows, professor do MIT (Massachusetts Institute of Tecnhnology), em relatório publicado em 1972.  E fala de sua resistência intelectual e política diante do mundo que se desenhava, lutando contra duas barbáries que, a seu ver, ameaçam cada vez mais a humanidade: a “de dominação, sujeição, ódio, desprezo, que irrompe cada vez mais em xenofobias, racismos generalizados e guerras do Oriente Médio e da África”, e “a barbárie fria e gélida do cálculo e do lucro, que assume o comando em grande parte do mundo.

A pandemia tem atualizado algumas ideias em relação a questões há muito trabalhadas por intelectuais como Morin. “Essa crise inaugurada pela pandemia surpreendeu-me muito, mas não surpreendeu minha maneira de pensar: ao contrário, a confirmou. Pois, afinal, sou cria de todas as crises que meus 99 anos viveram”.

Ensinamentos trazidos pelo coronavírus

Morin destaca que é verdade que houve muitas pandemias na história.  E de que a unificação bacteriana global ocorre desde a conquista das Américas, mas a novidade radical da Covid-19 está no fato de ele dar origem a uma megacrise, resultado das combinações, de crises políticas, econômicas, sociais, ecológicas, nacionais, planetárias.

“A primeira revelação fulminante dessa crise inédita é que tudo o que parecia separado é inseparável. Para Morin, a crise oriunda do coronavírus deve ser vista como um sintoma virulento de uma crise mais profunda e geral do grande paradigma do Ocidente, que se tornou mundial: o da modernidade, nascida no século XVI europeu; a noção de paradigma significa princípio de organização do pensamento, da ação, da sociedade, em suma, de todos os domínios daquilo que é humano”, explica Morin.

O pensador acredita que maio de 68, a degradação de nossa biosfera, a crise civilizacional, as antinomias da globalização são crises do “paradigma-rei”. Ele acredita que a gestação de um novo paradigma ocorre na dor e no caos, mas sem que haja a certeza de que ele possa emergir e impor-se.

“Mudança de paradigma é processo longo, difícil, caótico, que esbarra em enormes resistências das estruturas estabelecidas e das mentalidades. É realizada num longo trabalho histórico ao mesmo tempo inconsciente, subconsciente e consciente.(…) Nunca estivemos tão fechados fisicamente no isolamento e nunca tão abertos para o destino terrestre. Estamos condenados a refletir sobre nossos caminhos, nossa relação com o mundo e sobre o próprio mundo. (…) O pós-coronavírus é tão preocupante quanto a própria crise”, acredita o autor.

Para Morin, o futuro imprevisível está em gestação hoje. “Tomara que seja para a regeneração da política, para a proteção do planeta e para a humanização da sociedade: está na hora de mudar de Via”.

15 lições dessa crise sanitária

Os desafios após o coronavírus ainda estão sendo desenhados, a crise sanitária, as crises políticas e econômicas ainda não estão totalmente dimensionadas, entretanto, implicando desafios existenciais, políticos, da própria democracia, da proteção ecológica, da era digital e de outras inúmeras situações que geram muitas incertezas. Essas questões e as lições que o coronavírus nos tem imposto nos leva a pensar em novos caminhos. Edgar Morin propõe uma nova via que comporte uma política nacional, civilizacional da humanidade, da Terra e de um humanismo regenerado.

  1. Sobre nossa existência – você sabe como você vive?
  2. Sobre a condição humana – o que é ser humano?
  3. Sobre a incerteza de nossa vida – a consciência da aventura incerta da vida
  4. Sobre a nossa relação com a morte – a morte bate a nossa porta de forma gritante… Precisamos contar os mortos
  5. Sobre nossa civilização – a vida propagada para fora, de repente se vê reclusa
  6. Sobre o despertar da solidariedade –  união em meio ao caos?
  7. Sobre a desigualdade social no isolamento – estamos na mesma tempestade, mas com barcos diferentes
  8. Sobre a diversidade das situações e da gestão da epidemia no mundo – a epidemia atingiu o mundo, de modo desigual
  9. Sobre a natureza de uma crise – abalo, incertezas, busca de soluções
  10.  Sobre a ciência e a medicina – a disputa no universo do “cientificismo”
  11.  Sobre uma crise da inteligência – complexidades invisíveis, ecologia da ação
  12.  Sobre as insuficiências de reflexões e ações políticas- os problemas políticos d efundo, a política neoliberal, as falhas do estado e a crise do pensamento político
  13. Sobre deslocalizações e dependência nacional – dependência de um determinado país a outros, na aquisição de muitos produtos, como de boa parte do mundo à China por distorções de decisões na área da economia e da política
  14. Sobre a crise na Europa – união europeia, diante da crise, se viu partida em fragmentos nacionais
  15. Sobre o planeta em crise – pandemia criou uma crise violenta na globalização ou foi a globalização que criou a crise da pandemia?

Fonte: É hora de mudarmos de via-as lições do coronavírus, Edgar Morin.

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