O Brasil vive uma transformação demográfica sem precedentes. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população idosa no país cresceu 40% entre 2010 e 2021, passando de 20,5 milhões para 28,7 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Até 2070, a projeção é que 40% da população tenha mais que 60 anos. Diante desse cenário, surge um desafio fundamental: como garantir que essa longevidade seja acompanhada de qualidade de vida no envelhecimento?
Para o médico geriatra Caio Henrique Yoshikatsu Ueda, é fundamental desmistificar conceitos sobre o processo de envelhecimento. “Primeiro, é necessário entender que o processo de envelhecimento não se limita ao momento em que completamos 60 anos ou mais. Trata-se de um processo dinâmico e contínuo, que ocorre desde o nascimento”, explica o especialista.
O médico destaca que envelhecer de forma saudável não significa ausência de doenças. “Envelhecer de maneira saudável não é envelhecer na ausência de doenças, mas é envelhecermos com qualidade de vida, com manutenção da nossa capacidade funcional e com cuidados contínuos da saúde física, social, emocional e espiritual durante a vida”, afirma Ueda.
Para colocar isso em prática, no dia a dia o geriatra utiliza a Avaliação Geriátrica Ampla (AGA), uma ferramenta estruturada e multidimensional que permite identificar as particularidades de cada paciente. Segundo Ueda, por meio dessa avaliação, é possível traçar múltiplos perfis distintos de envelhecimento e, consequentemente, planos personalizados de cuidado em saúde.
Tecnologias a favor da longevidade
Além disso, o avanço tecnológico tem se mostrado um aliado importante no processo de envelhecimento saudável. Dispositivos de segurança para alertas de quedas, aplicativos de monitoramento de saúde, teleconsultas e telemonitoramento são algumas das ferramentas disponíveis atualmente.

A Inteligência Artificial (IA) também tem desempenhado papel relevante, auxiliando na avaliação e organização do autocuidado dos pacientes. No entanto, Ueda levanta uma questão importante: “A minha maior preocupação é: quais idosos estão realmente tendo acesso a essas novas tecnologias?”.
Mesmo com acesso limitado, o especialista vê com otimismo o futuro da medicina geriátrica com esses avanços. “Em um país em que nossas dimensões de território e desigualdade de assistência impedem que todos tenham acesso adequado à informação e a um bom acompanhamento de saúde; esses avanços criam possibilidades”, observa.
No entanto, ao pensar em longevidade saudável, é preciso considerar que, hoje, muitos dos idosos estão ativos, saudáveis e plenamente capazes de fazer a manutenção da própria saúde. Assim, o autocuidado emerge como elemento central na prevenção e no manejo de doenças crônicas e em mais qualidade de vida. Ueda estrutura suas orientações de autocuidado em eixos específicos que envolvem atividade física programada, alimentação balanceada, sono adequado, acompanhamento médico regular, uso seguro de medicamentos, vacinação, segundo o Calendário Vacina 60+, exames de rastreio, higiene pessoal, rede de suporte social e cuidados com a saúde emocional e espiritual.
“No momento das orientações, a minha prioridade é sempre a educação em saúde dos meus pacientes. Procuro que eles compreendam o porquê de cada uma dessas orientações e participem ativamente no seu próprio cuidado de saúde”, explica o geriatra. No entanto, um dos grandes obstáculos para o enfrentamento do envelhecimento populacional é a preparação inadequada dos profissionais de saúde. Segundo Ueda, a situação ainda é “muito heterogênea e insuficiente.”
O especialista aponta que os programas de formação em Geriatria e Gerontologia são escassos e o cuidado específico à pessoa idosa tem pouco destaque nas graduações. “A grande maioria, ou todo profissional de saúde, lida hoje com pessoas com 60 anos ou mais, mas ele não deve ser visto simplesmente como uma ‘faixa etária’”, alerta. No processo de envelhecimento, especialmente entre os idosos mais longevos, as dependências funcionais podem surgir, tornando o papel da família e cuidadores essencial. Ueda destaca que eles são “ponto de apoio físico e emocional” e contribuem para assegurar a manutenção da capacidade funcional, reduzir o isolamento social e promover o bem-estar.
Embora o Brasil tenha legislação voltada à saúde do idoso, como o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003), Ueda identifica lacunas na implementação prática. “Mesmo em grandes cidades, ainda são escassos o bom direcionamento de recursos, o número de profissionais capacitados pela ausência de programas de educação contínua em Geriatria e Gerontologia”, observa.
O geriatra menciona experiências internacionais promissoras, como as share houses japonesas e iniciativas, como o Age-friendly Communities e o Cycling Without Age, na Dinamarca, que poderiam ser adaptadas ao contexto brasileiro. O envelhecimento populacional representa tanto um desafio quanto uma conquista da sociedade moderna. O aumento da expectativa de vida no Brasil, que passou de 76,2 anos em 2019 para 76,6 anos em 2024, segundo o IBGE, reflete melhorias nas condições de vida e saúde.
No entanto, para que essa longevidade seja verdadeiramente saudável, é necessário um esforço conjunto que envolva políticas públicas efetivas, formação adequada de profissionais, desenvolvimento e democratização de tecnologias, e, principalmente, uma mudança de paradigma na forma como a sociedade enxerga e se prepara para o envelhecimento. Como enfatiza Ueda, “o envelhecimento populacional é um desafio de saúde que deve ser enfrentado com grande responsabilidade, e abrangendo toda a sua complexidade.”
O futuro da longevidade saudável no Brasil dependerá da capacidade de transformar esse desafio em oportunidade para construir uma sociedade mais inclusiva e preparada para todas as idades.
Envelhecendo bem
Aos 62 anos, Laércio Marassi é um exemplo prático de envelhecimento ativo. Aposentado, ele não se sente com a idade que tem e percebe que envelhece melhor que outras pessoas ao seu redor. Essa sensação se confirma em situações cotidianas: “Em várias situações cotidianas, como por exemplo, ao entrar ou sair do carro, ao caminhar, ao fazer exercícios e durante viagens”, observa.
Refletindo sobre sua trajetória, Laércio identifica mudanças que gostaria de ter feito mais cedo: “Beber com mais moderação, alimentar com mais qualidade e regramento. Ser mais aberto às novas experiências de convívio social.” O hábito mais difícil mudar? “Me cobrar menos em relação às expectativas de outros e ser mais equilibrado no convívio social.”

Para ele, os pilares da longevidade saudável começam com a aceitação: “Primeiro entender que a velhice virá. Faz parte do ciclo da vida. Aceitando isso, internalizar de que forma quer chegar lá, ativo e saudável ou doente e dependente.” Atualmente, Laércio mantém uma rotina ativa que inclui caminhadas e corridas, treino funcional, leitura e participação em eventos comunitários e religiosos. Sua experiência demonstra que o envelhecimento saudável é possível quando há consciência, planejamento e ação consistente ao longo da vida.
NOLT – Uma nova forma de envelhecer
O termo “idoso” está perdendo espaço para uma nova denominação que reflete melhor a realidade das pessoas com 60 anos ou mais: NOLT (New Older Living Trend). Essa mudança de nomenclatura representa uma transformação profunda na forma como essa população se vê e vive.
Os NOLTs são pessoas que rejeitam estereótipos limitantes associados ao envelhecimento tradicional. Em vez de aceitar a aposentadoria como sinônimo de inatividade, eles continuam aprendendo, empreendendo e se reinventando. Muitos retomam os estudos, fazem novas graduações, dominam tecnologias ou transformam sonhos antigos em projetos concretos.
Essa geração não espera “o tempo passar”, mas faz questão de aproveitá-lo intensamente. São pessoas que cuidam ativamente da saúde física e mental, viajam, praticam voluntariado, lideram grupos e atuam como mentores, sempre dispostos a novos desafios.
Ou seja, envelhecer bem depois dos 60 é uma tendência que ganha força. Reconhecer essa transformação é fundamental para adaptar políticas públicas, serviços de saúde e a própria sociedade a essa nova realidade demográfica.



































