Por que o futuro da IA precisa do olhar feminino?

No palco, a líder em tecnologia defende uma IA mais humana, acessível e responsável — e lembra que o futuro também se constrói com sensibilidade

Durante muito tempo, disseram que tecnologia era território masculino. Que números não combinavam com emoção. Que matemática não dialogava com cuidado. A trajetória de Ariane Reisier desafia cada uma dessas ideias — e sugere que o futuro da inteligência artificial talvez dependa justamente daquilo que, por séculos, foi rotulado como “excesso” no feminino: sensibilidade, intuição e presença.

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Head de IA e Performance Digital da ConquestOne, palestrante, escritora, consultora e pesquisadora em transformação digital, Ariane não chegou à tecnologia pelo caminho óbvio. Sua formação inicial é em Comunicação. A matemática, durante anos, parecia distante — quase um território vedado. Até que a vida, como costuma fazer, impôs outra rota. A virada começou em casa, diante de uma cena aparentemente banal: seu filho, ainda muito pequeno, usava o iPad de um jeito que ela nunca tinha visto. Ele pensava diferente. Criava diferente. Enxergava o mundo por outra lógica. “Naquele dia, eu entendi que precisava ser uma mãe melhor para acompanhá‑lo”, relembra. E, para Ariane, ser uma mãe melhor significou estudar.

Foi assim que o Python entrou em sua vida. Depois vieram a lógica, os números, a matemática — não como um fim, mas como linguagem. “Quando caiu a ficha de que matemática é comunicação, só que muito mais precisa, tudo finalmente fez sentido. Números contam histórias. Equações descrevem relações. Algoritmos traduzem lógica em ação. Era tudo linguagem — eu só precisava aprender o vocabulário”, conta. A comunicadora encontrou na lógica uma nova forma de expressão.

Entre filhos, planilhas e estratégia

Enquanto atravessava equações e algoritmos, Ariane também cuidava dos filhos e enteadas: Antonela, Rapha, Bia e Duda. Mas sua casa nunca funcionou sob a lógica da sobrecarga feminina. Ali, tudo é coletivo, combinado, estruturado. Não existe “ajuda” masculina, porque o trabalho é compartilhado. O marido — também executivo — lava roupa sem reclamar. As crianças cozinham, limpam e estudam matemática aos domingos. O lema da família é simples: ninguém fica parado enquanto alguém trabalha. Nada disso surgiu por acaso. É estratégia.

Ariane não ignora que essa estrutura é exceção, não regra. “Sei o privilégio que é ter um parceiro genuinamente engajado. A maioria das mulheres ainda carrega dupla ou tripla jornada sozinha”, reconhece. Para ela, as conquistas que realmente importam são sempre coletivas. “A família é nosso time mais importante. Quando ela funciona, propósitos ambiciosos se tornam viáveis. Quando não, mesmo a mulher mais talentosa fica limitada — não por incapacidade, mas por sobrecarga estrutural.”

Do preconceito com a matemática ao doutorado no ITA

Essa mesma lógica guiou uma das escolhas mais improváveis de sua carreira: ingressar no doutorado do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), um dos ambientes mais técnicos e masculinos do país, mesmo sem formação prévia em Engenharia. Foram quatro anos de estudo intenso até atravessar os portões de uma das instituições de engenharia mais prestigiadas do Brasil e da América Latina — conhecida pelo rigor acadêmico, pela excelência na formação e por um ecossistema que respira inovação e futuro.

Noites mal dormidas, aulas e mais aulas no Khan Academy, ajuda de amigos matemáticos geniais, crises, lágrimas — e persistência. A jornada foi tão intensa que chegou a cobrar um preço físico, resultando em pneumonia. Ainda assim, o peso maior não vinha de fora. A cobrança mais dura era interna. No meio do caminho, surgiu um obstáculo decisivo: a exigência de uma publicação técnica para o ingresso no ITA. A solução? Escrever um livro técnico acessível, inclusive para os não técnicos.

Nasceu assim “E a IA, para que serve?”, um guia de inteligência artificial para curiosos, ilustrado e pensado para quem não é técnico. Um livro que explica IA desenhando, traduzindo, aproximando. A obra virou best-seller, indicado pela PublishNews e Revista Veja e referenciado por inúmeros executivos do Brasil em redes sociais — esse sucesso abriu as portas para o sonhado doutorado. Mais do que um feito acadêmico, o livro simboliza algo maior: a recusa da “caixa preta” tecnológica. “A IA não pode ser um mistério. Quando as pessoas entendem, elas deixam de ter medo”, afirma Ariane.

Dados, decisões e humanidade

Segundo a especialista em tecnologia, ainda existe uma aura quase mística em torno da inteligência artificial como se ela tivesse vontade própria, sentimentos ou consciência. “IA não tem intencionalidade, não estabelece propósitos próprios, não experimenta mundo”, diz. Entender isso, para ela, é fundamental para usar a tecnologia com responsabilidade. Ariane rebate que por trás de qualquer sistema de IA existe matemática — apenas matemática. Algoritmos operam por probabilidades, por meio de grandes volumes de dados. Não há intuição, senso moral ou intenção. “O futuro é matemática”, resume.

Para ela, o grande risco do avanço tecnológico não é a desumanização — é a exclusão. Máquinas serão excelentes em lembrar, calcular e prever. Já a intuição, o acolhimento e o propósito seguem sendo humanos. E essas características estão associadas à condição
humana, não à separação de gêneros. “A sensibilidade trará mais eficiência para a humanidade — desde que não seja desvalorizada ou invisibilizada”, pontua.

IA também erra

Segundo estudo do MIT, de 2025, cerca de 95% dos projetos-piloto de IA generativa falham — não por limitação técnica, mas principalmente pela falta de investimento de tempo, por parte de empresas e profissionais, em refletir sobre o que executam, os objetivos de seus processos e a desassociação das operações de uma área em relação ao todo da empresa.

Muitas organizações tentam implementar soluções sofisticadas baseadas em palpites, modismos ou pressão de mercado, sem compreender o problema real que precisam resolver. “A IA reflete os vieses de quem a treina. Se o dado nasce enviesado, o resultado também será. Antes de falar em automação, eficiência ou inovação, é preciso entender pessoas, contexto, cultura e rotina. Sem isso, o dado não tem valor — e a tecnologia vira apenas uma promessa frustrada”, alerta.

Essa visão crítica diferencia o olhar de Ariane no ecossistema digital. Para ela, inteligência artificial só faz sentido quando amplia a capacidade humana de decidir melhor, cuidar melhor e viver melhor. Caso contrário, apenas acelera desigualdades já existentes. Na área da saúde, ela vê a IA como uma ferramenta de resgate da humanidade. Gêmeos digitais, simulações de cenários e análises probabilísticas podem devolver tempo ao médico — e tempo, para Ariane, significa escuta, presença e cuidado. “Com mais dados, a gente humaniza mais. Não menos”, enfatiza.

No fim, tudo é propósito

Quando questionada sobre legado, Ariane não fala de métricas, eventos ou likes. Fala dos filhos. “Tudo o que eu faço é para que eles se sintam mais fortes e confiantes para serem melhores em seus sonhos”, diz. Se outras pessoas se sentem inspiradas, ela se alegra. Mas o motor permanece o mesmo. Porque, no fim, a pergunta que atravessa toda a sua trajetória — da comunicação à matemática, da maternidade à inteligência artificial — é a mesma que ela faz às mulheres que dizem “não sou boa com números”: Onde você quer chegar?

Para a autora de best-seller, talvez o maior desafio profissional do nosso tempo não seja aprender tecnologia, mas acreditar que temos o direito — e a capacidade — de aprender qualquer coisa.

“As mulheres precisam entender que cada um tem seu ritmo: há quem faça algumas coisas mais rápido do que eu, assim como há tarefas que faço mais rápido do que outros. A
questão é que essa pessoa treinou mais que eu, só isso. Mas não diga que não pode, que não consegue”, decreta.

Ariane lembra que não há vergonha nenhuma em pedir ajuda. Aprender exige fé para apostar no que pode te levar mais longe, humildade para reconhecer o que você sabe — e o que ainda não sabe — e coragem para buscar respostas, mesmo quando isso traz dúvidas e desconforto.

“Aprender é exatamente isso: trocar o conforto da certeza pela instabilidade permanente da dúvida. Não é prazeroso. No entanto, é o que te move”, explica. Sua síntese final é crua e honesta: “Crescer dói, mas não mata. Pelo contrário — te torna viva e, no que diz respeito à inteligência artificial, é relevante para o mercado de trabalho”, frisa. Ariane Reisier não ensina apenas IA. Ela demonstra, na prática, que barreiras de entrada são construídas — e, portanto, podem ser desfeitas — com método, persistência e recusa sistemática do “não sei”.

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