Por mais de duas décadas, a vida de Tayná Leite foi acelerada, quase sem freios. A carreira da especialista em ESG, Direitos Humanos e Justiça de Gênero, parecia um foguete. Atuou na ONU, em instituições multilaterais e organizações comunitárias até multinacionais. No entanto, para ela, o ritmo alucinante era sinônimo de realização. Mas o corpo não entendia da mesma forma. Cansaço, dores persistentes, visão embaçada, pálpebra tremendo, enxaquecas, insônia, ansiedade aumentada. Até que, em 2024, tudo desmoronou.
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“Comecei a sofrer um assédio muito forte por me posicionar de forma enfática em relação a algumas contradições da organização, principalmente, casos de racismo, de conflito de interesses. Por me posicionar em relação a isso, eu mesma me tornei alvo”, conta.

Colapso físico e mental
Em meio a momentos de grande intensidade emocional, insegurança e ansiedade, Tayná ativou o “modo sobrevivência”. Tomou decisões drásticas: saiu do doutorado, pediu demissão e aceitou um novo desafio profissional. Entretanto, a energia que antes a movia já não estava ali.
“Nessa época eu morava em São Paulo, e meu marido e meu filho em Curitiba. No fim de semana, cheguei em casa e desabei. Meu corpo travou, eu tive uma crise horrível, de choro, de ansiedade, fui medicada, e precisei fazer uma consulta de emergência”, descreve.
A psiquiatra foi direta: 60 dias de atestado. O diagnóstico era burnout. O que ela antes enxergava como uma simples exaustão era, na verdade, uma doença que minava sua saúde física e mental. “Para mim, o meu trabalho é a minha identidade, o fato de estar totalmente vinculada ao meu trabalho, aos meus níveis de entrega, à minha performance. Eu não sabia mais quem eu era sem ser essa pessoa”, desabafa.
O caminho de volta foi difícil. Após 120 dias afastada do trabalho, Tayná retornou e pediu demissão do trabalho novo, continuou focando em sua recuperação, com altos e baixos. “Quando eu acho que eu já estou super bem, vem uma crise. Aí não consigo sair da cama, tenho que fazer um esforço enorme para cumprir as minhas atividades mínimas, como acordar e vestir meu filho para a escola, jantar em família. Enfim, dias melhores e dias piores, mas é um processo”, revela.
Por trás do esgotamento
Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma síndrome ocupacional desde 2019, o burnout afeta milhões de trabalhadores. No Brasil, uma pesquisa da Associação Internacional de Gestão de Estresse (ISMA-BR) aponta que 32% dos trabalhadores sofrem com a síndrome — um dos índices mais altos do planeta.
“Antigamente, usava-se o termo esgotamento nervoso, que em português explica melhor: é um desgaste físico e mental gradual e progressivo, sem tempo de repouso suficiente para reparar as perdas biológicas, psicológicas, sociais e espirituais. O resultado é a exaustão crônica”, descreve o psiquiatra e psicoterapeuta João Lourenço Navajas.
O médico aponta que profissionais que sofrem de burnout podem apresentar alterações comportamentais visíveis. Entre os sinais mais comuns estão a impaciência, a baixa tolerância à frustração, o cinismo, o aumento do consumo de café, medicamentos e álcool, além de pensamentos de morte. Segundo ele, a condição é o resultado de um elástico esticado ao limite, que perde a capacidade de voltar ao seu estado inicial. Apenas descansar não basta para reverter o quadro.
“É proposto um programa de recuperação biológica, psicológica, social e espiritual que associa conhecimento médico, terapias comportamentais, reinserção social e revisão de valores éticos e morais”, detalha. As mulheres são as mais afetadas pelo burnout. Segundo a pesquisa “Estado Mental da Força de Trabalho Global”, realizada em 2023 pela consultoria Teladoc Health, elas têm 44% mais chances de sofrer da síndrome em comparação aos homens.
Fatores, como a dupla jornada de trabalho, a pressão por resultados e a autocobrança excessiva, têm contribuído para que sejam mais propensas a desenvolver a síndrome de esgotamento profissional.
Priscila Espinoza sabe bem disso. Aos 24 anos, ela trabalhava em regime CLT, fazia horas extras, estudava até tarde e ainda se desdobrava com os afazeres de casa. “Foram dois anos onde tudo parecia urgente e eu sempre deixava o que era essencial por último: minha saúde, meu sono, minha vida emocional”, relembra.
O resultado? Crises de ansiedade, insônia, queda de cabelo e taquicardia. Priscila era a pessoa que “dava conta de tudo”, e ninguém percebia o quão perto ela estava do seu limite. Até que um dia o corpo gritou. “Antes do remédio, comecei pela parte mais difícil: aprendi a dizer ‘não’. Não para os outros, e sim para mim. Eu precisei quebrar para reconstruir”, afirma.
Da exaustão à reinvenção
Priscila então decidiu empreender. E embora a jornada empreendedora tenha sido motivada pela promessa de liberdade, ela se revelou uma nova prisão. O empreender, que visava a liberdade de tempo e a oportunidade de ser uma mãe mais presente, acabou entregando uma rotina de excesso e uma constante necessidade de provar o próprio valor.
Dessa experiência pessoal dolorosa, surgiu o impulso para criar a Escola de Negócios Anti-Burnout. Ela redefiniu sua relação com o trabalho e o descanso. Depois de um processo de reconstrução pós-burnout, Priscila organizou seu negócio para que funcionasse sem depender apenas dela. A empresária aprendeu a automatizar, delegar e, mais importante, a se priorizar sem sentir culpa. Hoje, ela atua como mentora de mulheres.
“É preciso ensinar a desapegar da cultura da exaustão, redesenhar a rotina com estrutura e criar negócios que sustentem a vida dessa mulher”, reforça.
Burnout avança entre profissionais da saúde
O esgotamento mental tem se tornado cada vez mais frequente entre médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde. Jornadas exaustivas, pressão constante e falta de recursos criam um cenário propício para o burnout. Uma pesquisa de 2022, realizada com 3 mil médicos, apontou que dois em cada três já enfrentaram a Síndrome, evidenciando a gravidade do problema. “Lidar com dor, perdas, fracassos e situações extremas que se repetem diariamente desgasta o profissional. Se ele não tiver apoio, chega ao esgotamento”, observa psiquiatra e psicoterapeuta João Lourenço Navajas.
A pressão não vem apenas das condições de trabalho. O imaginário social em torno da profissão também pesa. “Há um certo glamour em torno do trabalho médico, reforçado por filmes e séries. Isso cria a expectativa de dedicação quase sacerdotal, o que dificulta admitir fragilidades e pedir ajuda”, comenta. Os impactos da síndrome vão além da saúde do trabalhador. A não detecção e o não tratamento do burnout podem comprometer o atendimento ao paciente.
“Um profissional esgotado pode se tornar impaciente, negligente e até recorrer ao álcool e drogas. Isso compromete a segurança do paciente e da equipe”, alerta. Segundo o médico, para a prevenção do burnout, as instituições de saúde devem adotar uma abordagem coletiva, investindo em ações, como a redução de horas extras, oferta de condições de trabalho gratificantes e estar participando de uma equipe que receba treinamentos por meio de programas de educação continuada. Para ele, a tecnologia também é aliada nesse processo, e o uso de prontuários eletrônicos, laudos a distância e inteligência artificial podem auxiliar os profissionais a se dedicarem ao que é mais importante: o cuidado com o paciente.



































